O ChatGPT pode consumir até 500 ml de água a cada 20 a 50 perguntas. É como se a plataforma bebesse uma garrafinha de água toda vez que esse volume de comandos é solicitado pelo usuário. Em demandas mais complexas, como a geração de imagens, o gasto de água é maior e mais rápido.
Para gerar uma imagem, é como se a plataforma de inteligência artificial (IA) da empresa OpenAI realizasse 20 comandos de texto. No entanto, no caso dos textos, a mesma quantidade de água poderia ser usada para até 50 comandos, o que não ocorre nas ilustrações.
Isso é o que aponta uma pesquisa das universidades de Colorado Riverside e da Texas Arlington divulgada no fim de março.
O consumo de água pelo ChatGPT não é novidade. Seus processadores, que trabalham 24 horas por dia, demandam uma quantidade significativa de energia e precisar usar esse recurso natural no processo de resfriamento.
A discussão ganhou novos contornos com a moda das últimas semanas que conquistou milhares de usuários da internet: pedir que o ChatGPT crie imagens com o estilo do Studio Ghibli e a partir de fotos próprias.
“É superdivertido ver as pessoas adorando as imagens no ChatGPT, mas nossas GPUs estão derretendo. Esperamos que não demore muito. A versão gratuita do ChatGPT em breve fará três gerações por dia”, escreveu o SEO da OpenAI, Sam Altman, no X ao comentar o crescimento repentino da demanda.
Nina da Hora, especialista em IA, explica que esse problema não é particular da OpenAI, mas um desafio que perpassa todas as IAs generativas. “Ferramentas como Midjourney, DALL·E e outras plataformas de geração de imagem consomem uma quantidade significativa de recursos computacionais a cada requisição, e isso se reflete diretamente no uso de água em data centers para manter as máquinas em temperaturas adequadas. Esse uso diário, independentemente da febre atual [relacionado ao Studio Ghibli], continua gerando esse impacto“, analisa.
A novidade agora é a surpresa entre os usuários, uma vez que a indústria de tecnologia sempre atuou como grande consumidora de recursos naturais, devido ao processamento dados que realizam, segundo afirma o professor e especialista em IA Fernando Moulin.
“Esse processamento consome uma enorme quantidade de energia, e a passagem desta energia pelos condutores e processadores, por exemplo, causa um efeito físico que transforma energia elétrica em calor”, explica. “Esse calor gerado pelo fenômeno é massivo, e existem máquinas chamadas ‘trocadores de calor’, que utilizam água de resfriamento para abaixar a temperatura dos servidores e, assim, evitar que superaqueçam ou se deteriorem enquanto operam.”
No auge da nova tendência, a OpenAI divulgou que 1 milhão de novos usuários haviam entrado na plataforma em apenas uma hora e que foram criadas 3 milhões de imagens em um único dia. Com base nessa informação, é possível estimar que o gasto de água, apenas desse público, foi de aproximadamente 75 mil litros em uma janela de 60 minutos.
O impacto hídrico da IA
Estima-se que, até 2027, a demanda global por IA represente entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos de captação de água — o equivalente à retirada anual total de água de quatro a seis Dinamarcas ou metade do Reino Unido — destaca a pesquisa divulgada em março.
“Isso é preocupante, já que a escassez de água doce se tornou um dos desafios mais urgentes da atualidade”, afirmam os cientistas que encabeçam o estudo. “Para responder aos desafios hídricos globais, a IA pode e deve assumir responsabilidade social, dando o exemplo ao abordar sua própria pegada hídrica.”
Para o professor e especialista em IA Adilson Batista, a falta de transparência das empresas de IA impede análises mais aprofundadas sobre suas pegadas de carbono e hídrica. “As grandes empresas de tecnologia ainda divulgam poucos dados sobre o consumo de água e energia dos seus modelos, o que dificulta entender o real impacto ambiental dessas ferramentas”, analisa.
“Para aumentar a consciência [das informações], seria importante que essas empresas adotassem políticas de disclosure [divulgação] mais claras, publicando relatórios regulares com indicadores ambientais.”
Medidas para redução do consumo
O estudo das universidades de Colorado Riverside e da Texas Arlington sugere ainda algumas estratégias para minimizar o impacto hídrico dos modelos de IA, como o desenvolvimento de sistemas de resfriamento mais eficientes, a escolha de localizações para data centers em regiões frias e a adoção de tecnologias alternativas que reduzam a necessidade de água. A regulação também é apontada como um caminho possível pelos pesquisadores.
“Decidir de forma criteriosa quando e onde treinar um grande modelo de IA pode impactar significativamente sua pegada hídrica”, diz o estudo. “Podemos agendar dinamicamente o treinamento e a inferência da IA de maneira consciente em relação ao uso da água, reduzindo sua pegada hídrica.”
Além disso, o texto propõe que usuários e empresas considerem a pegada ambiental das ferramentas digitais utilizadas. Assim como a preocupação com emissões de carbono e consumo de energia ganhou destaque nos últimos anos, o uso de água pode se tornar um critério relevante na adoção de novas tecnologias.
“Para reduzir a pegada de carbono, é preferível ‘seguir o sol’ quando a energia solar está mais abundante. No entanto, para reduzir a pegada hídrica, pode ser mais vantajoso ‘não seguir o sol’, evitando as horas de alta temperatura do dia, quando a eficiência no uso da água é menor”, conclui a pesquisa.
Veja também: ChatGPT ganha 1 milhão de novos usuários
Este conteúdo foi originalmente publicado em ChatGPT “bebe” muita água para produzir imagens; entenda no site CNN Brasil.