Com início no último sábado (7), o vazio sanitário da soja já mobiliza produtores, técnicos e autoridades agrícolas em Mato Grosso. A medida, que se estende até 6 de setembro, tem como objetivo principal conter o avanço da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi), uma das doenças mais devastadoras para a cultura da soja. Neste período, fica proibida a presença de plantas vivas de soja em qualquer estágio de desenvolvimento, incluindo áreas de cultivo voluntário, também conhecidas como “soja guaxa” ou “tigueras”.
O estado, que lidera o ranking nacional de produção do grão com mais de 40 milhões de toneladas na última safra, encara o vazio como estratégia essencial para garantir a sanidade da próxima lavoura. A fiscalização será intensificada pelo Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT), que atua com 74 equipes em campo, drones e imagens de satélite para detectar descumprimentos.
“A soja tiguera é hospedeira do fungo da ferrugem. Se ela não for eliminada nesse período, o inóculo permanece vivo no ambiente, reduzindo drasticamente a eficiência dos fungicidas e elevando os custos de produção”, explica o engenheiro agrônomo Carlos Henrique Ramos, coordenador fitossanitário da Aprosoja-MT.
Uma pausa estratégica contra a ferrugem
A ferrugem asiática é considerada o maior desafio fitossanitário da sojicultura brasileira. O fungo responsável sobrevive exclusivamente em tecidos vivos da planta de soja, o que torna o vazio sanitário a principal barreira de contenção. Sem a presença de hospedeiros, a cadeia de transmissão é interrompida.
Em Mato Grosso, o vazio foi instituído pela Instrução Normativa nº 002/2023, do Indea, com respaldo do Ministério da Agricultura. Durante os 90 dias, qualquer propriedade rural, urbana ou faixa de domínio (como rodovias, ferrovias e áreas de irrigação) deve estar livre de plantas vivas de soja.
“O produtor consciente sabe que essa medida é para ele mesmo. Reduzindo a pressão do fungo, ele economiza em defensivos e preserva a eficiência das tecnologias que já estão ameaçadas pela resistência do patógeno”, afirma Ramos.
A multa para quem for flagrado com plantas vivas de soja varia entre R$ 3 mil e R$ 5 mil por hectare, podendo acarretar ainda a interdição da propriedade.
Custos, economia e política agrícola
A medida, embora técnica, tem impactos econômicos consideráveis. A presença da ferrugem exige pulverizações semanais com fungicidas, que representam até 25% do custo total da lavoura. Em safras anteriores, a redução da eficácia desses produtos — muitas vezes aplicada de forma tardia — gerou perdas acima de R$ 7 bilhões no país, segundo o Consórcio Antiferrugem.
“É um paradoxo: o produtor evita plantar no vazio, mas se não respeitar, corre o risco de gastar o dobro depois”, comenta o economista rural Paulo Zancanaro.
No campo político, o vazio sanitário tem respaldo da maioria das entidades do agro, mas encontra resistência em áreas de cultivo ilegal ou em fronteiras de expansão agrícola, onde o controle ainda é frágil. Municípios do norte de Mato Grosso e da região do Araguaia são apontados como os principais pontos de risco de desrespeito à norma.
Em resposta, o Indea lançou uma força-tarefa específica para essa fase, com a promessa de intensificar as ações de conscientização e fiscalização, especialmente em áreas com reincidência de soja guaxa.
Números da safra e da fiscalização:
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Duração do vazio: 7 de junho a 6 de setembro de 2025
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Área de soja em MT (2024/25): 12,2 milhões de hectares
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Número de propriedades fiscalizadas no vazio de 2024: 4.109
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Multas aplicadas em 2024: R$ 8,6 milhões
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Equipes do Indea mobilizadas: 74
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Monitoramento com drones e satélites: em 100% dos municípios prioritários
Mato Grosso como referência nacional
Mato Grosso foi um dos primeiros estados a instituir o vazio sanitário da soja, ainda em 2006, e hoje serve de modelo para outros estados produtores, como Goiás, Paraná e Maranhão. O período de vazio, embora com datas variáveis, é coordenado em nível nacional pelo Ministério da Agricultura para garantir uniformidade no combate à ferrugem.
Além disso, o estado integra o Consórcio Antiferrugem, rede de pesquisa e monitoramento que mapeia focos da doença em tempo real, orientando políticas públicas e estratégias de manejo integrado.
“Sem o vazio sanitário, nossa guerra contra a ferrugem seria inglória. Essa parada técnica é a única forma eficaz de quebrar o ciclo da doença sem sobrecarregar o uso de químicos”, resume o pesquisador da Embrapa Soja, Luís Gustavo Barros.
O que muda para o produtor?
Durante o vazio, o produtor não pode manter plantas vivas de soja nem em pequenas áreas. A fiscalização inclui bordaduras de lavouras, áreas de descarte e até terrenos urbanos com rebrotas espontâneas. O agricultor que identificar plantas voluntárias deve erradicá-las imediatamente, por meio de controle químico ou manejo mecânico.
Quem tiver dúvidas sobre as obrigações ou quiser denunciar áreas com descumprimento pode acionar o Indea-MT de forma anônima.
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