Jovem que processou Meta e YouTube depõe sobre o tema

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Uma jovem da Califórnia (EUA) que move um processo contra a Meta e o YouTube afirmou, em tribunal, nesta quinta-feira (26), que o uso compulsivo das redes sociais desde a infância comprometeu sua saúde mental, afetou seu desempenho escolar e abalou suas relações pessoais, segundo informações da Reuters.

Identificada nos autos como Kaley G.M., de 20 anos, a autora do processo prestou depoimento em julgamento considerado histórico, que discute se empresas de tecnologia podem ser responsabilizadas pelo design de aplicativos frequentemente apontados como catalisadores de uma crise de saúde mental entre jovens.

O que a jovem disse no tribunal

  • Kaley relatou que começou a usar o YouTube aos seis anos e, o Instagram, aos nove;
  • Segundo ela, o hábito obsessivo provocou ansiedade, depressão e insegurança em relação à própria aparência. Ainda assim, disse que não conseguia se afastar do celular sem experimentar sofrimento adicional;
  • De acordo com seu depoimento, o uso intenso das plataformas prejudicou seu desempenho escolar, reduziu suas horas de sono, limitou sua vida social presencial e tensionou o relacionamento familiar;
  • A jovem afirmou ainda que seu estado emocional se deteriorou a ponto de desenvolver pensamentos suicidas e, aos dez anos, passar a se automutilar como um “mecanismo de enfrentamento para lidar com minha depressão“. Ela ressaltou, no entanto, que nunca chegou a tentar tirar a própria vida.

Clamor pelos jovens nas redes sociais

O caso integra uma reação global mais ampla contra empresas de redes sociais por supostos danos causados a crianças e adolescentes. A Austráliaproibiu o acesso de menores de 16 anos a essas plataformas e outros países avaliam adotar restrições semelhantes.

Meta e Google negam as acusações e sustentam que as evidências apresentadas não comprovam as alegações da jovem.

Durante o depoimento no Tribunal Superior do Condado de Los Angeles (EUA), Kaley afirmou que sua mãe, em algumas ocasiões, confiscava seu celular por determinados períodos, o que desencadeava crises de raiva e aumento da ansiedade. Mesmo já adulta, disse sentir que não consegue abandonar as redes sociais. “Não consigo, é muito difícil ficar sem isso“, declarou, sob questionamento de seu advogado.

Ao ser perguntada por seu representante legal, Mark Lanier, por que sentia necessidade tão urgente de recuperar o celular quando a mãe o retirava, respondeu: “Porque sem isso eu sentia que uma grande parte de mim estava faltando e, se eu não o tivesse, estaria perdendo alguma coisa, e isso me deixaria em pânico.”

Kaley afirmou que passou a depender das redes sociais para obter validação e conexão, apesar de enfrentar episódios frequentes de bullying online. Ainda assim, segundo ela, ficar longe das plataformas “me incomodava mais” do que os comentários ofensivos que recebia.

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Jovem começou usar o YouTube aos seis anos e, o Instagram, aos nove (Imagem: Tada Images/Shutterstock)

O que diz a ação judicial

  • A principal alegação da ação judicial — apresentada inicialmente por sua mãe há dois anos, antes de Kaley completar 18 anos — é que Meta e Google buscaram lucrar ao “viciar” crianças pequenas em seus serviços, mesmo tendo conhecimento de que as redes sociais poderiam prejudicar o bem-estar mental e comportamental desse público;
  • Na véspera do depoimento da jovem, seu ex-psicoterapeuta, que a atendeu por alguns meses quando ela tinha entre 13 e 14 anos, afirmou, em tribunal, que o uso excessivo de redes sociais foi um “fator que contribuiu” para seus problemas de saúde mental;
  • À época, ela recebeu diagnósticos de fobia social e transtorno dismórfico corporal;
  • O julgamento, iniciado no fim de janeiro, também tem examinado o que as empresas sabiam sobre os efeitos das redes sociais em crianças e quais eram suas estratégias de negócios voltadas ao público mais jovem;
  • O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, testemunhou que a companhia discutiu, mas nunca lançou, produtos destinados especificamente a crianças.

Para vencer a ação, os advogados de Kaley precisam demonstrar que a forma como as plataformas foram projetadas ou operadas pelas empresas foi um fator substancial para causar ou agravar seus problemas de saúde mental.

A defesa da Meta, por sua vez, destacou, em suas alegações iniciais, que os registros médicos da jovem indicam histórico de abuso verbal e físico, além de uma relação conturbada com os pais, que se divorciaram quando ela tinha três anos. A mãe de Kaley deve prestar depoimento após a conclusão do testemunho da filha.

Ambiente da jovem era conturbado

Durante o testemunho, Kaley afirmou que sua mãe, em alguns momentos, foi abusiva e a agrediu. Ainda assim, descreveu a mãe como uma pessoa carinhosa e amorosa. Segundo ela, a mãe trabalhava enquanto criava três filhos e, apesar das dificuldades, mantém com a filha uma relação muito próxima. Atualmente, as duas moram juntas.

Kaley trabalha como personal shopper no Walmart e possui diploma de nível técnico em comunicação. Ela declarou ter como objetivo concluir um bacharelado e seguir carreira na área de mídias sociais.

No processo, o advogado da jovem mencionou um estudo interno recente da Meta. De acordo com ele, o levantamento aponta que adolescentes que enfrentam circunstâncias de vida difíceis utilizam o Instagram com maior frequência, seja de forma habitual ou não.

Os advogados de Kaley sustentam que diversos recursos das plataformas foram projetados para manter os usuários conectados pelo maior tempo possível, apesar de evidências de danos à saúde mental de usuários mais jovens. Entre esses mecanismos estariam vídeos com reprodução automática e um feed com rolagem infinita.

Segundo a argumentação apresentada, os botões de “curtir” atenderiam à necessidade de validação típica da adolescência, enquanto filtros de beleza contribuiriam para distorcer a autoimagem dos usuários.

Por outro lado, documentos judiciais indicam que o advogado do YouTube afirmou que Kaley não utilizou ferramentas disponibilizadas pela plataforma para proteção contra bullying. Entre esses recursos estariam mecanismos para excluir comentários e limitar o tempo gasto assistindo a vídeos.

Olhar Digital

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