Sua vaga de emprego financia a nova elite da IA, alerta Nobel de economia

Publicidade

Siga o Olhar Digital no Google Discover

O mercado de trabalho dos Estados Unidos sofreu um revés inesperado em fevereiro de 2026, com a eliminação de 92 mil postos de trabalho. O dado, que contraria frontalmente a projeção dos analistas de criação de 50 mil vagas, acende um alerta sobre como a inteligência artificial (IA) está remodelando a economia real. 

A questão central não parece ser apenas a substituição direta do humano pela máquina. Mas sim uma manobra financeira na qual demissões em massa servem de “caixa” para custear a infraestrutura digital necessária para essa nova era.

Em entrevista à Fortune, o economista e prêmio Nobel Joseph Stiglitz adverte que, sem a intervenção de instituições fortes, a IA pode aprofundar a desigualdade ao concentrar lucros no topo da pirâmide social. 

Enquanto os investimentos globais no setor devem atingir a marca de US$ 2,5 trilhões (aproximadamente R$ 13 trilhões) em 2026 (aumento de 44% em comparação a 2025, diga-se), a renda dos trabalhadores cai proporcionalmente em relação ao PIB. 

O fenômeno sugere que os ganhos de produtividade estão sendo retidos pelas empresas para financiar o hardware de IA, em vez de serem distribuídos como salários.

Empresas demitem para bancar custos de tecnologia enquanto Nobel alerta para nova era de desigualdade

Atualmente, existe uma divergência sobre o papel real da IA nas demissões. De um lado, executivos afirmam que a tecnologia já automatiza funções de forma eficiente. De outro, analistas financeiros suspeitam que as demissões são uma estratégia contábil para reduzir a maior despesa das empresas: os custos trabalhistas. E para redirecionar esse capital para a compra de softwares e servidores de altíssimo custo.

Também em entrevista à Fortune, Brad Conger, diretor de investimentos da Hirtle Callaghan, argumenta que a IA atual ainda não consegue substituir cargos inteiros. Isso porque a maioria dos empregos envolve centenas de tarefas complexas que um único algoritmo não consegue replicar. 

Jack Dorsey, co-founder and CEO of Twitter
Jack Dorsey anunciou a demissão de quatro mil funcionários da Block alegando ser por conta do avanço da IA, mas outros motivos podem estar por trás do corte (Imagem: Alex Gakos/Shutterstock)

Para ele, empresas que anunciaram cortes massivos, como a Block de Jack Dorsey, podem estar usando a IA como “camuflagem” para justificar demissões que visam corrigir ineficiências e financiar as apostas tecnológicas exigidas pelo mercado.

Os números de gigantes do setor reforçam essa tese de troca de recursos humanos por infraestrutura. A Amazon, por exemplo, projeta investir US$ 200 bilhões (pouco mais de R$ 1 trilhão) em despesas de capital (o chamado capex) em 2026. Isso após ter eliminado 30 mil posições nos meses anteriores. Já no setor de softwares, a Salesforce reportou que a tecnologia já executa 50% do trabalho em sua plataforma, o que serviu de justificativa para a demissão de 14 mil funcionários em menos de um ano.

Stiglitz traça um paralelo histórico com a Grande Depressão. O economista lembra que o salto de produtividade na agricultura também deixou milhões de trabalhadores sem ocupação por falta de mecanismos de transição. Ele aponta que o cenário atual repete o padrão da Revolução Industrial do século 19, quando os proprietários de máquinas enriqueceram rapidamente enquanto os salários dos operários permaneceram estagnados por décadas.

A preocupação do Nobel reside na influência política da classe dos “tech bros”, que defende um Estado menor justamente quando o governo precisaria de recursos para gerir essa mudança social. O CEO da BlackRock, Larry Fink, corrobora essa visão ao notar que os benefícios financeiros da IA têm fluído quase exclusivamente aos detentores de dados e modelos, deixando de fora a metade mais pobre da população, que possui apenas 1% das ações do mercado.

Para Stiglitz, a saída é redefinir a tecnologia como Inteligência Assistida (IA). A ideia é tratá-la como ferramenta de apoio ao humano. Ele utiliza a tecnologia em suas próprias pesquisas para agilizar a busca de fontes. Para ele, a IA é uma espécie de telescópio: amplia a visão sem substituir o observador.

Olhar Digital

Compartilhe essa Notícia:

publicidade

publicidade