O futuro chegou, mas veio de carro

Publicidade

Siga o Olhar Digital no Google Discover

A realidade dos carros voadores e autônomos versus o imaginário humanos.

Quando é que a gente pode oficialmente dizer: “chegamos no futuro”?

Porque, na minha cabeça — colonizada por Jetsons, Blade Runner e De Volta para o Futuro — a resposta sempre foi muito clara: quando tivermos carros voadores. Simples assim.

E aí você cresce, começa a frequentar o SXSW — esse festival no Texas que é um grande parque de diversões do “futuro iminente” — e passa mais de uma década ouvindo a mesma frase com pequenas variações: eVTOLs já existem, estarão disponíveis “daqui a uns 2 anos”.

Dois anos. Sempre dois anos.

O futuro dos carros tá mais atrasado que obra em cidade do interior — ou falta cimento, ou falta mão de obra. Ou falta bateria do eVTOL, ou legislação.

Só que… dessa vez chegou.

E não foi na palestra, não foi no PowerPoint. Não era só vídeo conceitual com aquela trilha sonora épica por trás.

Foi voando mesmo.

Não ouvi dizer — eu estava lá.

E era a pilota.

No chão: a simplicidade radical da autonomia total

A primeira quebra de expectativa nem veio do céu. Veio do asfalto mesmo.

Chamei um Uber para ir até o lugar do eVTOL — e veio um Waymo. Um carro autônomo. Um motorista invisível dirigindo é, ao mesmo tempo, futurista e estranhamente banal.

Sem bom dia, sem balinha, sem discussão sobre política e nem perguntando de onde você é e o que faz em Austin.

Você pede pelo próprio Uber. Às vezes, quando escolhe “elétrico”, ele simplesmente… aparece. E te cumprimenta:

“Boa tarde, Vanessa.”

Confesso que dei aquela olhada meio desconfiada — tipo quando o elevador fala com você pela primeira vez.

Respondi. Perguntei como ia o dia — mas ele não te escuta.

Ainda assim, o volante gira sozinho, o carro entra no trânsito caótico de Austin e… funciona perfeitamente.

Nenhum drama ou emoção — rola até um anticlímax.

Porque é isso: o futuro, quando funciona, é tipo 10 minutos de êxtase e vídeo… e depois você já tá fazendo outra coisa.

No ar: o voo que a lei ainda não permite ser livre

Ano passado, um dos destaques do SXSW foi a apresentação da Hexa, o carro voador da LIFT Aircraft.

Ok, não é um carro voador como o DeLorean, como minha criança interior esperava. Na prática, parece um drone gigante pilotado. E o nome técnico é eVTOL (aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical).

Os eVTOLs também têm sido prometidos em Austin há pelo menos uma década. As narrativas sempre envolveram promessas futuristas de viagens rápidas entre cidades por custos acessíveis, mas que nunca se concretizaram.

Lembro especificamente de um painel da Embraer com a Uber que me prometeu que, em 2026, estaríamos fazendo voos de eVTOL na distância Rio–SP como um Uber por 100 dólares.

Balela. Até agora.

Pela primeira vez disponível para uso público, o eVTOL da LIFT Aircraft, chamado HEXA, ofereceu uma experiência única: por 199 dólares, você pode pilotar a aeronave você mesmo. O processo é um misto de alta tecnologia e simplicidade de videogame.

Após um treinamento de uma hora, você se vê no comando de um joystick que controla subida, descida e direção. O HEXA é projetado para ser intuitivo. Mesmo eu, que confesso ter poucas habilidades com jogos eletrônicos (como meu marido reforça semanalmente), consegui pilotar com sucesso.

O contraste: autonomia na rua, “pilotagem” obrigatória no céu

Aqui reside a ironia mais fascinante da mobilidade atual.

Enquanto no Waymo (carro) a autonomia é total, no HEXA (eVTOL) a “pilotagem” humana é uma exigência legal, não técnica.

Existe um entrave jurídico que pode parecer absurdo: a legislação do Texas ainda não prevê carros voadores autônomos. A tecnologia da LIFT Aircraft permitiria que o HEXA fosse absolutamente autônomo, dispensando qualquer ação do passageiro.

No entanto, para operar legalmente, a aeronave foi desenhada para que o usuário precise estar “dirigindo” ativamente.

Os sistemas de segurança da aeronave só “pegam no volante” em casos de emergência, se o piloto não obedecer aos comandos de segurança ou tiver um problema de saúde. O controle autônomo está lá, mas o fato é que a lei exige uma pessoa no comando, criando uma “pilotagem maquiada” por pura necessidade burocrática.

Você dirige — mas, se não gostarem, assumem o controle.


O mercado atual e o caminho pela frente

Este contraste entre o Waymo e o HEXA ilustra perfeitamente onde estamos:

A tecnologia está pronta: tanto a condução autônoma em ruas quanto o voo elétrico vertical e autônomo já são realidades técnicas viáveis e seguras.

O ecossistema está em construção: a transição para um futuro de mobilidade aérea urbana comercialmente viável — e não apenas “por diversão” — vai demorar. Como observei em Austin, não adianta ter o carro voador; precisamos de gestão do espaço aéreo, infraestrutura de baterias e recarregamento, “vertipontos” e, crucialmente, uma legislação que acompanhe a inovação.

Essa experiência me fez refletir sobre como nós, muitas vezes, superestimamos o impacto da tecnologia a curto prazo, mas subestimamos o seu poder de transformação a longo prazo. Quem disse isso não sou eu — é a Lei de Amara.

Aplicando aqui: eu sabia que os carros autônomos viriam, mas os futuristas erraram a data. Demorou mais do que o prometido, mas agora que está aqui, a sensação é de que essa transição será irreversível.

E é aqui que reside o grande aprendizado: a tecnologia muitas vezes está pronta antes do ecossistema. Não basta ter o carro autônomo; precisamos de estradas adaptadas, regras de trânsito atualizadas, aceitação pública e, acima de tudo, confiança.

O imaginário humano sempre corre mais rápido que a burocracia.

Em Austin, voei no futuro que a ficção nos prometeu — mas também tirei da cabeça a ideia de que terei um pousando no meu teto para ir ao aeroporto num futuro próximo.

Aprendi que o caminho para que esses veículos façam parte do nosso dia a dia ainda precisa ser pavimentado — tanto no chão quanto nas leis que regem o céu.

O futuro chegou.

Mas falta assinar muito papelzinho.

Olhar Digital

Compartilhe essa Notícia:

publicidade

publicidade