Após mais de duas décadas de debate científico, pesquisadores finalmente confirmaram a origem da enigmática estrutura Silverpit, localizada no fundo do Mar do Norte, a cerca de 130 quilômetros da costa leste da Inglaterra. A cratera que antes dividia opiniões agora é considerada, de forma conclusiva, o resultado do impacto de um asteroide ocorrido há mais de 43 milhões de anos.
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A Silverpit foi descoberta no início dos anos 2000 durante análises sísmicas da indústria de petróleo e chamou atenção por seu formato incomum: um conjunto de anéis concêntricos no leito marinho.
Desde então, cientistas divergiam sobre sua origem. Parte da comunidade defendia um impacto extraterrestre, enquanto outros atribuíram a formação à movimentação de sal subterrâneo, que pode deformar as camadas superiores da crosta. A falta de evidências típicas de impactos sustentou a controvérsia por anos.
Esse cenário mudou com uma nova análise publicada na revista Nature. Utilizando imagens sísmicas de alta resolução e modelagem tridimensional, a equipe identificou padrões estruturais compatíveis apenas com impactos de alta velocidade. A confirmação veio com a análise de fragmentos obtidos em perfurações próximas à área, que revelaram a presença de quartzo impactado (um tipo de mineral deformado sob pressões extremas).
Segundo o Dr. Uisdean Nicholson, líder do estudo, as evidências comprovam a hipótese da cratera de impacto, “pois possuem uma estrutura que só pode ser criada por pressões de choque extremas”.

Reconstrução do impacto
Com base nos novos dados, os cientistas reconstituíram o evento que deu origem à estrutura. Silverpit foi redesenhada como uma cratera de cerca de 3 quilômetros de diâmetro, menor do que estimativas anteriores. O impacto teria ocorrido em águas rasas, com um objeto de aproximadamente 160 metros de largura atingindo a superfície a cerca de 53.900 km/h.
Modelos indicam que a cratera foi formada em apenas 12 segundos. O ângulo de impacto, vindo do oeste, foi relativamente baixo, o que ajudou a moldar as falhas curvas observadas na região.
Logo após a colisão, a água e os sedimentos foram lançados para cima e retornaram com força, gerando um tsunami que pode ter ultrapassado 100 metros de altura. As marcas deixadas sugerem que o fundo do mar registrou não apenas o impacto inicial, mas também os efeitos imediatos, como o colapso da cratera e o refluxo da água.
A idade do evento foi estimada entre 43 e 46 milhões de anos, com base na análise de microfósseis encontrados nos sedimentos. Além do quartzo impactado, pesquisadores identificaram feldspato com deformações microscópicas semelhantes, reforçando a origem extraterrestre.
Sob a cratera, formações de giz apresentaram sinais de aquecimento intenso e liberação de gases, processo conhecido como desvolatilização. Esse fenômeno pode ter gerado uma explosão secundária, liberando dióxido de carbono, vapor e fragmentos de rocha.

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Importância científica da cratera
Crateras de impacto preservadas no fundo do mar são raras. A dinâmica dos oceanos tende a apagar ou deformar rapidamente esse tipo de evidência. Atualmente, há cerca de 200 crateras confirmadas em terra e apenas pouco mais de 30 em ambientes marinhos.
A confirmação de Silverpit amplia esse grupo seleto e oferece um novo laboratório natural para o estudo de impactos. Até recentemente, a cratera Nadir, na costa oeste da África, era o único exemplo marinho completamente mapeado com sísmica 3D.
Além de encerrar uma longa controvérsia geológica, a descoberta pode ajudar a entender melhor os riscos associados a impactos futuros.
Vitoria Lopes Gomez
Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.










