A Meta está sendo alvo de um movimento de resistência inédito. Mais de 70 organizações — que vão de defensoras da privacidade a grupos de combate à violência doméstica e proteção a imigrantes — enviaram um ultimato a Mark Zuckerberg: cancele o plano de colocar reconhecimento facial nos óculos inteligentes Ray-Ban e Oakley.
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O recurso, apelidado internamente de “Name Tag”, transformaria os acessórios em verdadeiros scanners de pessoas. Bastaria olhar para alguém para que um assistente de IA vasculhasse perfis públicos do Instagram e entregasse o nome do indivíduo. Há até uma versão mais agressiva, que identificaria até mesmo estranhos sem qualquer vínculo nas redes da Meta.

O alerta dos ativistas é direto: a tecnologia daria ferramentas poderosas a perseguidores, abusadores e agentes federais — como os do ICE — para identificar alvos em silêncio, sem que a vítima jamais soubesse que está sendo vigiada. As informações são da Wired.
Documentos internos vazados mostram que a Meta já tinha tudo planejado. A empresa escolheria um “ambiente político dinâmico” para lançar o Name Tag, apostando que os grupos da sociedade civil estariam distraídos com outras crises. A tática foi classificada pelas entidades como “comportamento vil”.
O Electronic Privacy Information Center (EPIC) já havia acionado a FTC e autoridades estaduais em fevereiro, pedindo que bloqueassem o projeto antes que ele chegasse ao mercado. Agora, a coalizão ampliou o cerco.
O que as agências pedem?
Além do cancelamento definitivo do Name Tag, as organizações querem que a Meta:
- Revele casos de uso de seus óculos em episódios de perseguição e violência doméstica.
- Divulgue eventuais conversas com o ICE e a Alfândega dos EUA sobre o uso dos dispositivos.
- Consulte especialistas em privacidade antes de qualquer nova tentativa de incluir identificação biométrica em seus produtos.
“Pessoas não deveriam viver com o medo de que um perseguidor ou um agente federal possa, silenciosamente, descobrir sua identidade e cruzar com dados sobre sua saúde, religião ou hábitos”, escreveram os grupos.
Os óculos atuais da Meta já são polêmicos: uma pequena luz é a única coisa que indica que o usuário está gravando. Fácil de esconder. Com o reconhecimento facial em tempo real, a privacidade em espaços públicos simplesmente deixaria de existir — afetando protestos, clínicas de aborto, templos religiosos e abrigos para vítimas de violência.
A Meta não respondeu aos pedidos de comentário. A fabricante das lentes, EssilorLuxottica, também preferiu o silêncio. A guerra pelo futuro da vigilância nas ruas, porém, está longe de terminar.
Lucas Soares
Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.










