Um amplo estudo que reúne décadas de observações independentes concluiu que ainda não é possível explicar completamente como o universo está se expandindo. Publicado em 10 de abril na revista Astronomy & Astrophysics, o trabalho aponta que a chamada tensão de Hubble persiste, indicando possíveis lacunas no modelo cosmológico atual.
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A pesquisa foi conduzida por uma colaboração internacional de astrônomos e teve como base a análise combinada de diferentes métodos de medição do ritmo de expansão do cosmos. O objetivo foi verificar se a divergência entre resultados poderia ser atribuída a erros ou incertezas — hipótese que, segundo os autores, foi descartada.
Diferenças nas medições permanecem
Atualmente, os cientistas utilizam dois principais caminhos para calcular a taxa de expansão do universo, conhecida como constante de Hubble. Um deles se baseia na radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB), considerada a luz mais antiga do universo, emitida cerca de 380 mil anos após o Big Bang.
Esse método aponta valores em torno de 67 a 68 km/s por megaparsec. Já a segunda abordagem observa o universo local por meio de “velas padrão”, como estrelas com brilho conhecido, cuja luz sofre desvio para o vermelho ao viajar pelo espaço. Nesse caso, os resultados ficam próximos de 73 km/s por megaparsec.
Embora a diferença pareça pequena, ela é significativamente maior do que o esperado por incertezas estatísticas. Esse desacordo, conhecido como tensão de Hubble, motivou a realização de um simpósio com especialistas para avaliar os melhores dados e metodologias disponíveis.
Richard Anderson, coautor do estudo e astrofísico da Universidade de Göttingen, disse ao Live Science que a discrepância é relevante por testar as bases da física em escalas cosmológicas. “Isso nos mostra que algo está faltando”, afirmou.
Rede amplia análise do universo próximo
Um dos principais avanços do estudo foi a criação da Local Distance Network, uma rede que expande a chamada “escada de distâncias cósmicas”. Esse conceito utiliza diferentes objetos celestes, em escalas crescentes, para estimar distâncias no universo.
A iniciativa foi lançada durante o International Space Science Institute Breakthrough Workshop, realizado em março de 2025, em Berna, na Suíça. O novo modelo integra medições independentes acumuladas ao longo de décadas, com o objetivo de reduzir erros sistemáticos.
Entre os elementos utilizados como referência estão a galáxia NGC 4258, localizada a mais de 20 milhões de anos-luz, as Nuvens de Magalhães e estrelas variáveis da Via Láctea. Também foram incluídos dados de mais de 7.500 galáxias, observadas por instrumentos como o Telescópio Espacial Hubble e o Dark Energy Spectroscopic Instrument.
Resultado mais preciso e implicações
A análise resultou na medição mais precisa já obtida para a constante de Hubble no universo local: 73,50 km/s por megaparsec, com incerteza relativa de 1,09%. Mesmo com o refinamento dos dados, a tensão de Hubble se manteve consistente com estudos anteriores.
O trabalho também aplicou testes para avaliar a robustez dos resultados, como a exclusão de determinadas técnicas de cálculo. Ainda assim, as variações foram mínimas, reforçando a confiabilidade da medição.
John Blakeslee, diretor de pesquisa do NOIRLab e coautor do estudo, disse ao Live Science que uma possível explicação envolve a influência de campos magnéticos primordiais, que poderiam alterar a estrutura observada na radiação cósmica de fundo.
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Os resultados sugerem que pode ser necessário revisar medições do universo primitivo ou até considerar novas abordagens teóricas para explicar a energia escura e outros fatores que influenciam a expansão do cosmos.
Ana Luiza Figueiredo
Ana Figueiredo é repórter de tecnologia do Olhar Digital. É formada em jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).










