Tudo sobre Inteligência Artificial
Um policial militar foi indiciado por utilizar uma ferramenta de inteligência artificial (IA) para simular a voz da ex-companheira desaparecida e, com isso, atrair e supostamente matar três pessoas da mesma família em Cachoeirinha (RS).
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De acordo com as investigações, Cristiano Domingues Francisco teria usado a tecnologia para reproduzir a voz de Silvana de Aguiar, sua ex-companheira, que está desaparecida desde o final de janeiro. Os áudios teriam sido enviados aos pais da vítima como um pedido de ajuda, segundo informações exclusivas do g1.
Segundo a polícia, Silvana já estava desaparecida quando as mensagens foram encaminhadas. Após serem atraídos pelo suposto pedido de socorro da filha, os pais teriam sido mortos pelo suspeito.
Silvana, de 48 anos, e os pais dela, Isail, de 69, e Dalmira Germann de Aguiar, de 70, não são vistos desde os dias 24 e 25 de janeiro. Cristiano, ex-marido de Silvana, é apontado como principal suspeito. Ele está preso preventivamente.
Além das conclusões da investigação, duas ferramentas de detecção de inteligência artificial foram consultadas pelo g1. Tanto a Hiya Deepfake Voice Detector quanto a undetectable.AI indicaram ser altamente provável que os áudios tenham sido gerados por IA.
Um dia após a data apontada para o desaparecimento de Silvana, os pais receberam uma ligação do celular dela informando que havia sofrido um acidente em Gramado (RS). No entanto, conforme a apuração, tanto o celular de Silvana quanto o de Cristiano estavam na região de Gravataí (RS) naquele momento.
Na mesma manhã, uma publicação também foi feita pelo celular de Silvana sobre o suposto acidente. O inquérito, porém, apontou que o aparelho estava na região da casa de Cristiano.
Indiciamentos
A investigação aponta que seis pessoas são suspeitas de envolvimento em nove crimes.
Cristiano foi indiciado por feminicídio contra Silvana, dois homicídios contra os pais dela e outros crimes, totalizando nove acusações. Milena Ruppenthal Domingues, atual esposa de Cristiano, foi indiciada por ocultação de cadáver, furto qualificado, falso testemunho, fraude processual e associação criminosa.
“Ao que tudo indica, participou do pós-crime, manipulando dados e conduzindo depoimentos. Ela seria uma peça fundamental. Há indicativos de que ela excluiu contas. Inclusive, o próprio aplicativo de clonagem de voz foi descredenciado quando o autor já estava preso. Então, ela tinha o conhecimento desse aplicativo e realizou o descredenciamento para tentar encobrir essa evidência”, afirmou o delegado Diego Traesel, diretor da Divisão de Inteligência Policial e Análise Criminal, ao g1.
Segundo o delegado, o software de clonagem de voz por IA teria sido utilizado por Cristiano para simular a voz de Silvana com o objetivo de despistar a polícia e atrair os pais da vítima.
“Tem também a questão do furto na residência (de Silvana), uma conduta totalmente incompatível com uma pessoa supostamente desaparecida e que deveria voltar. Verificamos que ambos se dirigiram à casa da vítima e de lá retiraram dois aparelhos televisores”, completou.
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Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, foi indiciado por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa.
“Eles (Cristiano e Wagner) somem em um período crítico e os próprios familiares ficam sem contato com ambos por cerca de 13 horas. Somado ao fato de o DNA dele ter sido encontrado junto ao telefone da vítima, leva-nos a crer que ele tenha participado dessa ocultação”, disse Traesel.
A investigação também aponta que Wagner pode ter participado da destruição de provas, incluindo a retirada de HDs de câmeras de monitoramento.
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Paulo da Silva, amigo de Cristiano, foi indiciado por falso testemunho, fraude processual e associação criminosa. “Esse amigo próximo da vítima, que tinha conhecimento de informática, concorreu nessa fraude estabelecida, nessa limpeza de evidências, apagando conteúdos”, afirmou o delegado.
Ainda segundo Traesel, Paulo teria mentido em depoimento. “Mentiu para nós na fase policial. Conseguimos comprovar que a fala em relação ao Cristiano foi orquestrada e organizada pela esposa. Isso aí está documentado.”
Maria Rosane Domingues Francisco, mãe de Cristiano, foi indiciada por fraude processual e associação criminosa. De acordo com a polícia, ela teria participado da retirada de HDs de sua residência e da manipulação de mensagens para apagar dados e conteúdos.
Ivone Ruppenthal, sogra de Cristiano, também foi indiciada por fraude processual e associação criminosa. Segundo o delegado, ela teria atuado na ação coordenada para apagar vestígios e encobrir rastros do crime.
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Na prática, o caso reúne acusações de feminicídio, homicídios e uma série de ações voltadas à ocultação de provas e manipulação de evidências após os crimes.
O que dizem as defesas dos acusados
Cristiano Domingues Francisco: “A Defesa de Cristiano aguarda o encaminhamento do inquérito, sendo que, pela finalização das investigações, deverá ter acesso amplo e irrestrito a todos os procedimentos cautelares que se encontram em segredo de justiça, possibilitando um posicionamento mais assertivo.”
Milena Ruppenthal Domingues (mulher de Cristiano), Paulo da Silva (amigo de Cristiano), Maria Rosane Domingues Francisco (mãe de Cristiano) e Ivone Ruppenthal (sogra de Cristiano):
“A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial.
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Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis.
A defesa reitera sua confiança na Justiça e no devido processo legal, certos de que os fatos serão esclarecidos de forma técnica e fundamentada.
Declaram-se absolutamente inocentes das acusações.”
Wagner Domingues Francisco (irmão de Cristiano): “A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO, com o senso de responsabilidade que o momento exige, vem a público manifestar-se acerca do Inquérito Policial que apura as circunstâncias envolvendo o desaparecimento da família Aguiar, no município de Cachoeirinha/RS.
A Defesa tomou conhecimento, exclusivamente por intermédio da mídia e de coletiva de imprensa, da existência de 37 medidas cautelares, além de buscas, apreensões e indiciamentos, sem que lhe tenha sido assegurado, até o presente momento, acesso aos respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas.
Importa destacar que as imputações até então divulgadas consistem, neste estágio, em meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral.
Reitera-se, por fim, que WAGNER DOMINGUES FRANCISCO sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades. A Defesa aguarda o acesso integral aos elementos de prova para manifestação oportuna e aprofundada, confiante de que o devido processo legal conduzirá ao pleno esclarecimento dos fatos, com a consequente demonstração de sua inocência e a prevalência da Justiça.”
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.









