A humanidade pode chegar a Saturno?

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Há mais de seis décadas, a exploração espacial vem ampliando os limites da presença humana fora da Terra. Ainda assim, as missões tripuladas percorreram distâncias relativamente pequenas em escala astronômica até agora. O recorde pertence à missão Artemis 2, que chegou a cerca de 406 mil km da Terra. Mas até onde conseguiríamos chegar – e voltar – vivos? Os projetos mais ambiciosos, por enquanto, miram Marte. Seria possível alcançar destinos ainda mais distantes, como Saturno?

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Na prática, uma missão humana ao gigante gasoso ainda está totalmente fora da realidade. Segundo especialistas, a maior dificuldade não seria apenas chegar ao planeta, mas manter uma tripulação viva durante uma jornada tão longa e perigosa.

Hoje, Marte já é considerado um enorme desafio. Mesmo em momentos mais favoráveis, quando Terra e Marte estão mais próximos em suas órbitas ao redor do Sol, a viagem levaria cerca de sete meses. Ainda assim, cientistas acreditam que uma missão tripulada ao Planeta Vermelho poderia funcionar com a tecnologia atual, embora envolvesse riscos elevados. Mas Saturno está em outro patamar. 

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Saturno é um destino distante (em todos os sentidos) para a humanidade – Crédito: Artsiom P/Shutterstock

Viagem de ida e volta a Saturno levaria 17 anos

O planeta dos anéis fica a bilhões de quilômetros da Terra, e uma missão até lá exigiria uma operação espacial muito mais complexa. Um estudo liderado pelo físico Geoffrey Landis, do Centro de Pesquisas John Glenn, da NASA, estimou que o tempo necessário para uma missão de coleta de amostras no sistema de Saturno seria de cerca de 17 anos, entre ida e volta.

O plano analisado pelos pesquisadores inclui visitas a duas luas de grande interesse científico: Encélado e Titã. A primeira abriga um oceano sob uma espessa camada de gelo, enquanto a segunda possui lagos de metano e uma química atmosférica que lembra a Terra em seus estágios iniciais.

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Representação artística das montanhas e o mar de metano na lua Titã, com vista de Saturno ao fundo. – Crédito: RyanRad – Shutterstock

Nesse tipo de missão, seria necessário recorrer ao uso de recursos disponíveis no próprio espaço, uma estratégia conhecida como utilização de recursos in situ. Em vez de transportar todo o combustível desde a Terra, parte dele seria produzida diretamente no destino da viagem.

No caso de Titã, a proposta seria aproveitar o metano presente na atmosfera da lua e combinar esse material com gelo de água subterrâneo para fabricar combustível. Isso reduziria bastante o peso inicial da espaçonave, um fator decisivo em qualquer missão espacial.

Os pesquisadores chegaram a estudar diferentes veículos para operar em Titã. Entre as possibilidades estavam até aeronaves semelhantes a quadricópteros. Um dos conceitos mais curiosos envolvia um veículo que aumentaria de tamanho conforme o combustível fosse produzido no local.

Mesmo com essas soluções, a viagem continuaria extremamente longa. Para melhorar as chances de sobrevivência da tripulação, o estudo sugere enviar missões robóticas antes dos astronautas. Essas sondas preparariam uma espécie de “posto de abastecimento” em órbita de Titã, deixando combustível pronto para a nave tripulada usar no retorno à Terra.

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Representação artística da lua Encélado, de Saturno, local com potencial para abrigar vida alienígena. – Crédito: Naeblys – Shutterstock

Ainda assim, os desafios continuariam gigantescos. Um dos principais obstáculos é o chamado delta-v, termo usado para medir a quantidade de impulso necessária para acelerar, frear e mudar a trajetória de uma espaçonave. Em resumo: quanto maior e mais pesada for a nave, mais combustível será necessário.

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E o peso cresce rapidamente. Apenas a alimentação da tripulação já seria um problema enorme. Astronautas consomem mais calorias no espaço do que pessoas na Terra. Como ainda não existe produção de comida em larga escala fora do planeta, seria necessário transportar praticamente todas as refeições.

Fazendo uma estimativa simples, cada astronauta precisaria de cerca de dois quilos de alimentos por dia. Em uma missão de 17 anos, isso representaria mais de 12 toneladas de comida por pessoa, sem contar água, equipamentos médicos, roupas, peças de reposição e sistemas de sobrevivência.

Outro risco crítico é a radiação espacial. Fora da proteção do campo magnético terrestre, astronautas ficariam expostos durante anos a partículas altamente energéticas vindas do Sol e do espaço profundo. Para reduzir esse perigo, seria necessário adicionar blindagem à nave, aumentando ainda mais o peso total da missão.

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Missão exigiria foguete de propulsão nuclear

Por causa dessas limitações, muitos cientistas acreditam que os foguetes atuais simplesmente não seriam adequados para lançar uma jornada humana até Saturno. Landis defende o desenvolvimento de sistemas de propulsão mais avançados, especialmente motores nucleares.

A ideia não é nova: na década de 1960, a NASA estudou o Projeto de Aplicação de Motores Nucleares para Veículos de Foguetes (NERVA), que investigava motores movidos a energia nuclear. Mais recentemente, esse tipo de tecnologia voltou a ser analisado como alternativa para reduzir o tempo de viagem até Marte.

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Desenho do motor NERVA, de 1970 – Crédito: NASA/Imagem adaptada por Inteligência Artificial (Gemini)

Algumas propostas indicam que um motor nuclear poderia levar astronautas ao nosso vizinho em apenas 45 dias. Saturno ainda continuaria a vários anos de distância, mas a redução no tempo de viagem tornaria missões tão ambiciosas menos improváveis no futuro.

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Com a tecnologia disponível hoje, seria até possível enviar uma tripulação rumo a Saturno. O grande obstáculo estaria em garantir o retorno com segurança, já que a viagem exigiria tempos muito longos e altos níveis de risco. Sem avanços significativos em sistemas de propulsão mais rápidos e eficientes, Saturno permanece um destino fora do alcance humano.

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O desafio impossível: por que nunca vamos “pousar” em Saturno

Diferente da Lua ou de Marte, Saturno é um gigante gasoso e não possui uma superfície sólida onde uma espaçonave possa pousar. Qualquer tentativa de descida faria um veículo e a tripulação a bordo simplesmente afundarem em camadas cada vez mais densas de hidrogênio e hélio.

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À medida que se desce, a atmosfera deixa de ser um gás leve e se transforma em um fluido extremamente denso. A pressão cresce rapidamente a níveis capazes de esmagar qualquer nave conhecida, como uma lata de alumínio.

Em regiões mais profundas, o hidrogênio é comprimido em um estado exótico chamado hidrogênio metálico, com características de metal líquido sob condições extremas de pressão.

Embora o topo das nuvens tenha temperaturas próximas de -180 °C, o interior do planeta atinge valores extremos. A compressão gravitacional eleva o calor para mais de 11.000 °C, superior à superfície do Sol.

Além disso, Saturno possui ventos que chegam a 1.800 km/h, tornando qualquer tentativa de aproximação ou descida completamente inviável do ponto de vista tecnológico atual.

Diante desse cenário, não existe “pouso” possível em Saturno. Se a humanidade um dia chegar ao sistema saturniano, o uso seguro seria restrito às suas luas sólidas, como Titã e Encélado, mas o próprio planeta permaneceria apenas como um alvo para observação orbital.

Com informações do site IFLScience

Olhar Digital

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