Todo mundo sabe que o riso pode ser contagiante. Basta uma pessoa começar a gargalhar para outras ao redor sentirem vontade de rir também. Mas nenhum episódio do tipo chamou tanta atenção quanto a chamada “Epidemia do Riso”, registrada em 1962 na antiga Tanganica, atual Tanzânia.
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O caso ficou conhecido como um dos fenômenos psicológicos coletivos mais curiosos do século 20. O que começou com algumas estudantes rindo sem parar acabou se transformando em um surto que atingiu centenas de pessoas e provocou o fechamento de escolas inteiras.
Em resumo:
- Surto de risos incontroláveis assustou a Tanzânia em 1962;
- Gargalhadas espalharam-se rapidamente, fechando escolas e afetando comunidades;
- Sintomas incluíam choro, ansiedade, agressividade e dificuldades de concentração;
- Especialistas classificaram o fenômeno como doença psicogênica coletiva causada por estresse;
- Pesquisadores relacionam surtos semelhantes a pressão emocional e tensão social.

Riso teve efeito coletivo assustador
A epidemia começou em um internato feminino localizado na vila de Kashasha. Na época, a Tanganica havia conquistado recentemente sua independência do domínio britânico, e o país passava por um período de mudanças políticas e sociais profundas.
Em meio a esse cenário de incerteza, algumas alunas começaram a apresentar crises de riso incontrolável durante as aulas. O comportamento rapidamente se espalhou entre outras estudantes, criando um efeito coletivo que assustou professores, familiares e autoridades locais.
As gargalhadas não tinham relação com diversão ou felicidade. Muitas jovens alternavam momentos de riso intenso com crises de choro, ansiedade e agitação. Em alguns casos, os episódios duravam horas. Em outros, persistiam por vários dias seguidos.
Com o avanço do problema, a escola precisou ser fechada temporariamente. No entanto, o surto não terminou ali. As estudantes retornaram para suas comunidades e, pouco tempo depois, pessoas de outras regiões começaram a apresentar os mesmos sintomas.
Mil pessoas afetadas e escolas fechadas
Segundo estimativas, cerca de mil pessoas foram afetadas ao longo de cerca de 18 meses. Pelo menos 14 escolas interromperam suas atividades devido ao impacto da epidemia. O fenômeno se espalhou principalmente entre adolescentes e jovens mulheres.
Além do riso descontrolado, as vítimas apresentavam sinais de inquietação, dificuldades de concentração, correria sem direção e episódios ocasionais de agressividade. Apesar da gravidade da situação, exames médicos não encontraram qualquer doença física que explicasse os sintomas.
Especialistas classificaram o episódio como um caso de doença psicogênica em massa, também chamada de doença sociogênica coletiva. Esse tipo de fenômeno ocorre quando grupos de pessoas submetidos a forte estresse passam a desenvolver sintomas físicos ou emocionais sem causa orgânica identificável.
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O pesquisador Christian Hempelmann estudou o caso décadas depois e concluiu que o ambiente de pressão vivido pelas estudantes pode ter sido decisivo para o surgimento do surto.
Segundo ele, muitas jovens enfrentavam cobranças rígidas nas escolas administradas pelos britânicos. Ao mesmo tempo, o país recém-independente vivia um clima de insegurança sobre o futuro político e econômico. Toda essa tensão teria contribuído para o surgimento da epidemia.
Manifestação visível do sofrimento emocional das estudantes

Hempelmann afirma que o riso era apenas uma manifestação visível do sofrimento emocional vivido por aquelas pessoas. Em situações extremas, o corpo pode encontrar maneiras incomuns de expressar ansiedade, medo e pressão psicológica.
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O pesquisador também critica a interpretação simplista de que o caso prova apenas que o riso é contagioso. Para ele, o episódio da Tanganica é muito mais complexo e envolve questões sociais, emocionais e culturais.
Fenômenos semelhantes continuam sendo registrados em diferentes partes do mundo. Em muitos casos, eles aparecem em locais marcados por tensão constante, ambientes de trabalho desgastantes ou situações de conflito social.
De acordo com a revista Superinteressante, casos parecidos já foram observados em regiões como Kosovo, Afeganistão e África do Sul. Em algumas situações, grupos inteiros passaram a apresentar sintomas como tontura, náusea, dificuldade respiratória ou tremores sem explicação médica.
Hempelmann relembra um episódio ocorrido no Departamento de Trânsito de Lafayette, Indiana, nos Estados Unidos. Segundo ele, funcionários começaram a sofrer com problemas respiratórios recorrentes, levando o prédio a ser fechado várias vezes.
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Após testes detalhados, nenhuma contaminação foi encontrada. Especialistas concluíram que o ambiente extremamente estressante de trabalho pode ter provocado uma reação coletiva entre os funcionários, que acabaram reproduzindo inconscientemente os sintomas uns dos outros.
Médicos destacam que doenças psicogênicas coletivas ainda são cercadas de preconceito. Muitas pessoas acreditam que os sintomas são fingimento ou exagero, mas especialistas reforçam que o sofrimento é real, mesmo sem uma causa física aparente.
Atualmente, pesquisadores buscam compreender melhor a ligação entre emoções intensas e manifestações físicas. Estudos mostram que ansiedade, medo e pressão psicológica podem desencadear reações surpreendentes no organismo humano.
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Gelotologia estuda como o riso influencia o corpo e a mente
O tema também impulsionou pesquisas sobre os efeitos do humor na saúde. Existe até uma área científica dedicada ao assunto, chamada gelotologia, responsável por estudar como o riso influencia o corpo e a mente.
Nos últimos anos, práticas como terapia do riso, meditação do riso e ioga do riso ganharam popularidade. Essas técnicas defendem que o ato de rir pode ajudar a reduzir o estresse e melhorar o bem-estar emocional.
Pesquisas indicam que o riso pode diminuir hormônios ligados à tensão e aumentar a produção de endorfinas, substâncias associadas à sensação de prazer. Mesmo assim, especialistas alertam que o riso sozinho não resolve problemas emocionais profundos.
No caso da epidemia da Tanganica, as gargalhadas estavam longe de representar alegria. Para os pesquisadores, elas eram um reflexo do sofrimento psicológico vivido por centenas de pessoas em um período marcado por pressão social, medo e incertezas sobre o futuro.












