Um estudo internacional feito por pesquisadores da Unesp, em parceria com o Cemaden e a NASA, mapeou as inundações globais ocorridas ao longo do ano de 2025. O levantamento revelou que os desastres hidrológicos do ano em questão causaram 4,2 mil mortes e geraram um prejuízo de US$ 28 bilhões mundo afora. A pesquisa combinou modelos computacionais de rios e monitoramento por satélite para identificar áreas de risco elevado e avaliar os impactos das mudanças climáticas.
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Apesar de o período ter registrado uma das menores exposições a enchentes das últimas duas décadas devido ao enfraquecimento temporário do El Niño, os cientistas alertam que a crise ambiental não retrocedeu. O cruzamento de dados de satélite com registros populacionais permitiu detalhar como episódios severos concentrados geograficamente castigaram a população e a economia de diferentes continentes.
Publicado na revista científica Nature Reviews Earth & Environment, o trabalho serve como uma ferramenta tecnológica crucial para subsidiar sistemas de alerta e prevenção de riscos, especialmente em locais sem monitoramento terrestre.
Tecnologia de satélites ajuda a mapear ciclo de catástrofes extremas pelo planeta
Para alcançar os diagnósticos, os cientistas integraram simulações digitais do comportamento dos rios a dados do Global Land Data Assimilation System (GLDAS), o sistema de monitoramento ambiental da NASA.
A análise mediu o nível máximo alcançado por cada rio em 2025, comparando-o com o histórico dos últimos 22 anos. “Quando um rio ultrapassou o nível associado a uma enchente grave, aquela área foi classificada como zona de risco elevado”, explicou o pesquisador Enner Alcântara, um dos autores do mapeamento, ao Jornal da Unesp.
Essa triagem foi cruzada com a densidade populacional e dados do banco belga EM-DAT, da Universidade de Louvain, o que permitiu calcular a exposição humana real ao perigo.
O posicionamento de 2025 na faixa inferior de exposição a cheias decorreu de fases mais frias e menos intensas do El Niño e da Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), fenômenos oceânicos e atmosféricos que regulam as chuvas no mundo.

No entanto, os pesquisadores ressaltam que isso não representa uma melhora estrutural do meio ambiente. “O estudo deixa claro que as emissões de gases de efeito estufa continuaram elevadas e as temperaturas globais seguiram excepcionalmente altas em 2025”, ponderou Alcântara. Segundo o especialista, o alívio temporário decorreu de uma combinação fortuita de fatores naturais específicos daquele ano.
Nas Américas, os impactos foram amplificados por condições meteorológicas severas e pela umidade prévia do solo. No Texas, nos Estados Unidos, 135 pessoas morreram por conta de um extremo convectivo que gerou cheias abruptas no início de julho. No Brasil, a região de atenção concentrou-se no Rio Grande do Sul, onde chuvas de junho de 2025 superaram os 170 mm e atingiram o sistema hidrográfico Uruguai-Ibicuí.
“O artigo deixa claro que o solo ainda estava saturado quando as novas chuvas chegaram em junho de 2025, o que amplificou significativamente os impactos. Isso nos mostra que enchentes sucessivas numa mesma região não são eventos independentes. Uma catástrofe pode deixar o território mais vulnerável à próxima, criando um ciclo de risco que precisa ser levado em conta no planejamento de reconstrução e na política de prevenção”, disse Alcântara.
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A Ásia concentrou a maior letalidade e vulnerabilidade do período, com 56% de toda a população mundial exposta às cheias (cerca de 202 milhões de pessoas) e aproximadamente 60% das mortes registradas no mundo por conta de desastres hidrológicos.
Os recordes asiáticos foram impulsionados por diferentes eventos extremos. Enquanto monções intensas e o derretimento acelerado de geleiras do Himalaia provocaram enxurradas no Paquistão e na Caxemira, o Sri Lanka registrou centenas de mortes devido a um ciclone isolado. A marca de mais de mil óbitos concentrou-se no Sudeste Asiático, em países como Vietnã, Tailândia, Malásia e Indonésia, severamente atingidos por uma sequência de tufões.

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O continente africano também sofreu impactos extremos com chuvas prolongadas no Lago Tanganica, que mataram mais de 100 pessoas. E o fenômeno cut-off low (baixas desprendidas) na África do Sul, que despejou mais de 300 mm de água em 48 horas em East London, vitimou cerca de 80 pessoas.
Na Europa, registrou-se a maior proporção de moradores em áreas de risco, com 9% dos habitantes do continente afetados. Já na Oceania, um sistema de baixa pressão lento provocou uma das piores cheias históricas da costa da Nova Gales do Sul.
A intensidade e a confluência desses fatores excepcionais levaram a comunidade científica a enquadrar tais episódios fora dos padrões históricos sazonais. “Sistemas de alerta eficientes e comunicação acessível à população salvam vidas, e o artigo aponta que investir em melhores ferramentas de monitoramento e previsão é um caminho essencial para alcançar esse objetivo”, concluiu Alcântara.
Pedro Spadoni
Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.










