Um estudo publicado nesta quarta-feira (8) na revista Science Advances indica que uma intervenção capaz de diminuir ou “bloquear” uma quantidade significativa da radiação solar que chega ao oceano Pacífico poderia reduzir a intensidade de futuros episódios de El Niño e seus impactos globais.
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A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego e da Scripps Institution of Oceanography, que analisaram a técnica de clareamento de nuvens marinhas como uma possível estratégia regional contra eventos climáticos extremos.
A proposta, chamada de geoengenharia solar, envolve aumentar a capacidade de reflexão das nuvens sobre o oceano. Os pesquisadores avaliaram a ideia a partir de modelos climáticos inspirados em um fenômeno observado após grandes incêndios na Austrália.
Como a redução da luz solar poderia interferir no El Niño

O El Niño é um fenômeno natural do Pacífico tropical associado ao enfraquecimento dos ventos alísios, que permite o deslocamento de calor oceânico em direção à costa da América do Sul. Seus efeitos podem alterar padrões climáticos em várias partes do planeta, favorecendo períodos de seca, chuvas intensas, enchentes e mudanças na atividade de ciclones.
A equipe liderada pela cientista climática Katherine Ricke investigou se uma diminuição localizada da energia solar recebida pelo Pacífico poderia evitar que determinados episódios de El Niño atingissem níveis mais severos. Para isso, os pesquisadores recorreram ao clareamento de nuvens marinhas, técnica que consiste em pulverizar água do mar na atmosfera para tornar determinadas nuvens mais refletivas.
A estratégia ainda não foi testada em larga escala no mundo real. No entanto, os pesquisadores encontraram uma referência natural para desenvolver seus modelos: a temporada de incêndios florestais da Austrália entre 2019 e 2020, que liberou uma enorme quantidade de fumaça na atmosfera.
Estudos anteriores indicaram que as partículas provenientes desses incêndios contribuíram para a ocorrência de uma rara sequência de três episódios consecutivos de La Niña, fenômeno contrário ao El Niño. A partir desse caso, os cientistas criaram simulações para avaliar como uma alteração semelhante na quantidade de radiação solar poderia afetar eventos históricos de El Niño.

Os resultados dos modelos apontaram que uma redução da luz solar incidente sobre o Pacífico teria potencial para diminuir a força desses episódios e amenizar consequências climáticas associadas a eles. A pesquisa, porém, não apresenta a técnica como uma solução pronta para aplicação imediata.
A geoengenharia costuma ser discutida como uma forma de resfriar o planeta inteiro e compensar parte do aquecimento causado pela queima de combustíveis fósseis. O novo estudo sugere uma abordagem diferente: usar determinadas intervenções de forma localizada, voltadas para acontecimentos específicos do sistema climático.
Apesar do potencial indicado pelos modelos, especialistas alertam para riscos e dificuldades. Andrew Dessler, professor de ciência atmosférica da Universidade do Texas A&M, avaliou que a proposta possui uma base científica plausível, mas destacou que sua execução poderia gerar conflitos políticos e consequências inesperadas.
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Os pesquisadores também reconhecem que ainda existem muitas incertezas antes de qualquer aplicação prática. A alteração deliberada de processos atmosféricos pode produzir efeitos não previstos, tornando necessário ampliar os estudos antes de uma eventual tentativa no mundo real.
Segundo Katherine Ricke, a investigação desse tipo de tecnologia ocorre diante da possibilidade de que a humanidade precise recorrer a alternativas desse tipo caso não consiga reduzir a poluição causada pelos combustíveis fósseis.
Wagner Edwards
Wagner Edwards é Bacharel em Jornalismo e atua como Analista de SEO e de Conteúdo no Olhar Digital. Possui experiência, também, na redação, edição e produção de textos para notícias e reportagens.











