Ubisoft testa NPCs que “pensam” com IA generativa

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Em março de 2024, a Ubisoft levou à GDC um protótipo em que o jogador conversava por voz com um NPC, sem árvore de diálogos e com respostas geradas em tempo real. Vinte meses depois, o projeto reapareceu com outro nome, outro motor e outro propósito.

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Nvidia, Ubisoft e o NEO NPC: o primeiro passo dos NPCs que “pensam”

O NEO NPC é um projeto desenvolvido pela pequena equipe de R&D do estúdio da Ubisoft em Paris, com a aplicação Audio2Face da Nvidia e LLM (Modelo de Linguagem de Grande Porte) da Inworld. Seu objetivo é utilizar IA generativa para explorar os limites da interação entre jogadores e NPCs, para gerar conversas que não dependem de árvores de diálogo tradicionais.

Apesar da automatização, o projeto promete plena participação humana: escritores e roteiristas contribuem para definir a personalidade, história de fundo e demais aspectos do personagem. Todo esse trabalho é utilizado pela IA para desenvolver diálogos diante das interações e ações do jogador.

Demonstração da NEO NPC

Ubisoft NEO NPC
Imagem: Reprodução / Ubisoft

A primeira demo do NEO NPC foi apresentada na GDC 2024 (Game Developers Conference). No evento, o projeto apresentava três cenários diferentes, e o objetivo era criar uma relação com o personagem da cena. Os NPCs eram capazes de interagir com o jogador sem escolhas pré-definidas, mas pela voz do próprio player.

Não havia uma dinâmica de jogo além dos diálogos, mas as cenas mantinham o foco e a relevância da situação, enquanto o NPC conseguia improvisar com precisão. Entretanto, era visível a demora em responder às perguntas do jogador, e algumas de suas respostas eram demasiadamente evasivas. Outro problema foi a interrupção das respostas por afirmações do NPC relacionadas aos acontecimentos no game, não pela pergunta feita pelo jogador. Mesmo com esses problemas, a ferramenta mostrou um grande potencial em seus recursos.

Ubisoft Teammates: algo completamente novo

A nova iniciativa da Ubisoft é desenvolvida pela mesma equipe por trás do NEO NPC. Mais aprimorado, e dessa vez com o uso do Snowdrop e Google Gemini, o Teammates traz um cenário ainda mais interativo em sua demonstração, apresentada em novembro de 2025. Dessa vez, o jogador assume o papel de comando de um esquadrão de três robôs, dos quais dois deles devem seguir ordens através dos comandos de voz do jogador.

Era possível se movimentar livremente durante a demo, nos moldes de um jogo de tiro em primeira pessoa. O jogador não tinha acesso a armas, visto que o objetivo era testar os comandos de voz. É uma visão completamente oposta, mas muito mais interessante, que transforma o uso de IA em um aditivo à jogabilidade e contribui para a imersão e o envolvimento no jogo.

Situação atual do Ubisoft Teammates

Atualmente, o projeto está em fase de testes fechados e de pesquisas para desenvolvimento. Não há mais atualizações até o momento, mas sabemos que a Ubisoft aumentou seus investimentos no Teammates, conforme apresentado em seu relatório financeiro de 2025-2026.

A visão dos roteiristas

Roteiristas e narrative designers tiveram reações diversas diante dessas tecnologias, divididas entre entusiasmo e ceticismo. Além disso, a recepção foi diferente em cada uma das iniciativas propostas.

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Reação ao NEO NPC

Ubisoft NEO NPC 2
Imagem: Reprodução / Ubisoft

Do lado positivo, Virginie Mosser, diretora narrativa da Ubisoft com oito anos de experiência na empresa, vê a tecnologia como uma alternativa para tornar a narrativa dos jogos mais centrada nos jogadores e na construção da sua própria história. Entretanto, ela também reconhece o desafio que é, especialmente para os roteiristas, abrir mão desses aspectos narrativos.

“Estou acostumada a construir a história de fundo de um personagem, suas esperanças e sonhos, as experiências que moldaram sua personalidade, e a usar todas essas informações para alimentar minha própria escrita de diálogos. É muito diferente, mas, pela primeira vez na vida, posso conversar com um personagem que criei. Sonho com isso desde criança.”

Virginie Mosser, diretora narrativa da Ubisoft Paris, na GDC 2024

De fora da empresa, críticos admitem que a IA teve êxito em textos introdutórios e expositivos. Além disso, com essa necessidade automatizada, é possível ter mais tempo e espaço para que os roteiristas trabalhem em pontos mais importantes à narrativa do jogo.

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Elogios à parte, os mesmos apontam algo deveras negativo no uso de IA nos diálogos, especialmente na visão artística. O texto, gerado automaticamente, carece de estrutura dramática, e não traz a tensão nem a emoção que o diálogo deveria. Ainda, há a preocupação de que a tecnologia culmine na redução dos orçamentos destinados à escrita e aos dubladores, em vez de elevar a profundidade narrativa.

Reação ao Teammates

Ubisoft Teammates
Imagem: Reprodução / Ubisoft

Ao abordar um panorama praticamente oposto, saindo do narrativo e indo para as mecânicas, a reação ao Teammates foi muito melhor. O projeto apresenta elementos que agregam à jogabilidade, além do comando por voz abrir uma gama de possibilidades tanto para designers quanto para escritores, possibilitando a integração do recurso à narrativa e à visão artística dos profissionais.

Além desses conflitos, alguns dos medos iniciais ainda pairam sobre o projeto, especialmente para o público gamer e devido ao anúncio de investimentos massivos em IA que sucederam à apresentação do projeto. A suspeita de uma integração agressiva da IA generativa às áreas de roteiro, arte e programação ainda está presente, o que gera forte resistência pelo receio da substituição da mão de obra humana e da perda na qualidade dos jogos.

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A influência da IA no desenvolvimento dos games

Desde os primórdios dos games, há um grande debate sobre se videogames são arte, o que é afetado pelo uso de IA. Ferramentas como o NEO NPC, DLSS 5 e outras automatizam um processo essencialmente humano, o criativo. Diálogos, designs e até luz e sombra se revolvem em torno de escolhas criativas que visam transmitir sentimentos, contar uma história que envolve, diverte e emociona. Tudo isso pode ser sacrificado pelo uso indiscriminado de IA, abandonando o papel de ferramenta auxiliar e se transformando em um substituto mais rápido e barato da criatividade humana.

Além da parte criativa, muito do que nos é apresentado sobre IA – apesar de promissor – ainda está em fase “primitiva”, longe do que nos é prometido. É uma questão que, de certa forma, pode ser vista na guinada radical do NEO NPC para o Teammates – em que uma ferramenta narrativa promissora se tornou um recurso de jogabilidade. É uma entrega bem diferente da proposta e, mesmo positiva, nos mostra que soluções com IA não são uma “panaceia” para todos os problemas.

Leonardo Bueno

Leonardo Bueno

Leonardo Bueno é entusiasta de arte, literatura, games e RPG. Trabalha com tecnologia e games há mais de 10 anos.

Rachele Victoria

Rachele Victoria

Rachele Victoria é formada em Letras, MBA em Inovação e atua há 10 anos com comunicação e conteúdo gamer.

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Olhar Digital

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