A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) rastreia, neste momento, mais de 46,4 mil objetos girando em órbita da Terra. Entre eles estão satélites em funcionamento, peças de foguetes descartadas e fragmentos deixados por colisões e explosões.
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Juntos, esses objetos catalogados somam mais de 17 mil toneladas de massa, segundo o relatório mais recente do escritório de detritos espaciais da ESA, atualizado em julho de 2026.
Esse número, porém, é só a parte visível do problema. Radares e telescópios só enxergam os objetos maiores. Somando as estimativas de fragmentos entre um e dez centímetros (1,2 milhão) aos maiores que dez centímetros (54 mil), a ESA calcula que existam cerca de 1,25 milhão de pedaços maiores que um centímetro em órbita, bem mais que os 46,4 mil catalogados de fato.
Como o lixo pode virar uma bola de neve
Vale separar o que é contagem do que é estimativa. Os 46,4 mil objetos catalogados são medidos diretamente por radares e telescópios, com órbita conhecida.
Já o milhão de fragmentos menores vem de um modelo estatístico chamado Master, mantido pela própria ESA. Ele calcula quantos pedaços as colisões e explosões registradas devem ter produzido, sem que seja possível enxergar cada um deles individualmente.
O risco por trás desses números tem nome: síndrome de Kessler. A hipótese foi proposta em 1978 pelo físico Donald Kessler, da NASA, junto com Burton Cour-Palais, em artigo publicado no Journal of Geophysical Research.
Os dois descreveram um efeito cascata: quanto mais objetos em órbita, maior a chance de colisões. Cada colisão cria novos fragmentos, que aumentam a chance de novas colisões, até a região ficar perigosa demais para novos lançamentos.
A ESA trata esse processo como uma tendência real em curso, não mais como hipótese distante, ainda que em estágio inicial. Dois eventos aumentaram bruscamente a quantidade de destroços catalogados nas últimas duas décadas: a colisão acidental entre os satélites Iridium 33 e Kosmos 2251, em 2009, e o teste antissatélite chinês de 2007, que destruiu o satélite Fengyun-1C.
Nessas altitudes, os fragmentos viajam a vários quilômetros por segundo. Nessa velocidade, até um parafuso solto tem energia suficiente para inutilizar um satélite inteiro.

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Brasil também vigia os destroços
O Brasil participa desse rastreamento desde 2017, com um telescópio russo-brasileiro instalado no Observatório do Pico dos Dias, no sul de Minas Gerais.
O equipamento nasceu de uma parceria entre o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a agência espacial russa Roscosmos. Segundo o LNA, ele mapeia entre 500 e 800 objetos por noite e envia as coordenadas para os catálogos internacionais mantidos pela ESA e pela NASA.
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Desde 2024, o país também opera o sistema de alerta de colisões GSTT Orbit Guard, usado pelo Centro de Operações Espaciais da Força Aérea Brasileira e pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Há planos de expandir a rede de telescópios dedicados ao monitoramento para outros estados nos próximos anos.
Nem todo esse lixo fica lá em cima para sempre. Objetos em órbitas mais baixas perdem altitude aos poucos, freados pelo atrito com os últimos vestígios da atmosfera. Eles reentram e se desintegram pelo calor, que passa de milhares de graus. A maior parte vira poeira antes de chegar ao chão.
Peças mais densas, como tanques de combustível e motores de foguete, às vezes resistem e atingem a superfície. Ainda assim, o risco para uma pessoa é mínimo: mais de 70% do planeta é coberto por oceano, e agências espaciais tentam guiar reentradas maiores para áreas desabitadas, como o Ponto Nemo, o ponto do oceano mais distante de qualquer terra firme, no Pacífico Sul.
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Da próxima vez que um rastro de luz cruzar o céu à noite, há uma chance pequena, mas real, de não ser uma estrela cadente, e sim um pedaço desse lixo voltando para casa.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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