A troca de experiências entre produtores rurais de Mato
Grosso e dos Estados Unidos ganhou novos caminhos nesta quinta-feira (03.09),
durante o penúltimo dia da Missão Estados Unidos 2026, organizada pela
Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT).
Depois de uma programação que passou pelo mercado
internacional de commodities, propriedades rurais, universidade, empresas
ligadas ao agronegócio e uma das maiores feiras agrícolas do mundo, a comitiva
chegou a um dos pontos centrais da viagem: conhecer como os produtores
norte-americanos se organizam, enfrentam desafios semelhantes e projetam o
futuro da atividade.
O encontro com a Iowa Soybean Association (Associação de
Soja de Iowa) aproximou os produtores mato-grossenses de uma entidade que
representa os interesses dos sojicultores do estado norte-americano e abriu
espaço para discussões sobre custos de produção, utilização de fertilizantes,
seguro agrícola, organização institucional e perspectivas para a soja.
Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, a
visita reforçou justamente a importância de colocar produtores de diferentes
países em contato direto. “Mais um dia de missão, hoje aqui na Iowa Soybean
Association, na qual nossos associados puderam aprender muito sobre esse
estado, sobre esses produtores e também tirar muitas dúvidas, tanto de custos,
de uso de fertilizantes, do seguro rural agrícola, de como essa entidade se
mantém, de como o produtor norte-americano enxerga o futuro. Mais uma grande
oportunidade de fazer esse intercâmbio de informações e aprender mais”,
destacou.
Ao longo da missão, os produtores puderam perceber que as
diferenças entre Brasil e Estados Unidos não eliminam os desafios comuns
enfrentados por quem vive da agricultura. Custos elevados, pressão sobre as
margens, comportamento da demanda mundial, produtividade e necessidade
constante de incorporar tecnologia fazem parte da realidade dos dois países.
Durante o encontro, Grant Kimberley, diretor sênior de
Desenvolvimento de Mercado da Iowa Soybean Association, ressaltou que a
aproximação entre os agricultores é uma oportunidade para que os dois lados
compreendam melhor suas realidades. “É ótimo receber o grupo aqui hoje. Nós
gostamos de aprender com nossos colegas brasileiros. Agricultores são
agricultores, não importa onde estejam no mundo”, afirmou.
Segundo Grant Kimberley, apesar dos desafios registrados nos
últimos anos, as perspectivas para a soja permanecem positivas diante do
crescimento da demanda mundial. Ele avaliou que o período recente de produção
superior ao consumo contribuiu para pressionar os preços, mas existe
expectativa de reequilíbrio entre oferta e demanda nos próximos anos.
“O futuro parece promissor para a soja; é uma cultura
agrícola incrível. Continuamos observando um aumento na demanda global. É claro
que tivemos alguns desafios nos últimos dois anos. Acho que todos nós estamos
bem cientes dos altos custos de produção que afetam os agricultores em todo o
mundo. Esperamos que isso possa voltar a um equilíbrio e que continuemos vendo
a demanda crescer mais rapidamente do que a produção nos próximos dois anos”,
comenta.
A experiência também permitiu aos participantes comparar os
modelos produtivos dos dois países. Nas visitas realizadas ao longo da semana,
os agricultores conheceram propriedades, instituições de pesquisa e empresas
que atuam diretamente na cadeia de soja e milho.
Para os produtores de Mato Grosso, entretanto, um dos
principais aprendizados foi entender como essas ferramentas estão inseridas em
um sistema de gestão. O produtor rural Fábio Kasprzak, do núcleo do Vale do
Arinos, avaliou que a realidade norte-americana demonstra que ainda existe
espaço para ganhos de produtividade, mesmo em um país com décadas de
experiência na produção de grãos.
“Eles continuam melhorando o sistema produtivo deles, estão
sempre fazendo ajustes porque vão aparecendo tecnologias novas, sementes novas,
modernidade em si, e eles estão conseguindo aumentar a produtividade”, afirmou.
Ao comparar os dois modelos, Fábio também chamou atenção
para o potencial de Mato Grosso. Para ele, a missão mostrou que o produtor
brasileiro não deve olhar apenas para aquilo que existe nos Estados Unidos, mas
também reconhecer as oportunidades que possui dentro do próprio território.
Se a tecnologia e a rentabilidade estiveram presentes em
praticamente toda a agenda da missão, o encontro com a Iowa FFA Foundation
(Fundação FFA de Iowa) trouxe outro tema estratégico para o futuro do
agronegócio: a formação das novas gerações.
A organização atua junto a estudantes ligados à educação
agrícola e busca desenvolver liderança, crescimento pessoal e preparação
profissional para carreiras relacionadas ao setor. Atualmente, a Iowa FFA reúne
mais de 20,9 mil estudantes em 273 capítulos espalhados pelo estado.
A produtora rural Alexandra Cossul, do núcleo de Ipiranga do
Norte, destacou a importância de conhecer uma iniciativa que estimula os
estudantes a compreenderem o funcionamento do setor, mesmo aqueles que não
possuem uma família ligada diretamente ao campo.
“Quanto mais a gente incentivar os nossos jovens a
conhecerem mais sobre a agricultura, saber como funcionam as coisas, melhor
será para o nosso setor. É importante levarmos esse tipo de conhecimento para o
Brasil e cada vez mais incentivar os nossos jovens a aprender mais sobre a
agricultura”, afirmou.
Para Shannon Latham, diretora executiva da fundação, a
organização teve papel importante em sua própria trajetória e também na
formação dos filhos. “É também uma grande satisfação para mim compartilhar o
impacto que a organização FFA teve na minha vida quando eu era um jovem
estudante e também na vida dos meus filhos, ajudando-os a desenvolver confiança
e a se preparar para carreiras na agricultura”, relatou.
A experiência observada nos Estados Unidos reforça uma
discussão cada vez mais presente no agronegócio brasileiro: garantir que as
novas gerações conheçam a agricultura e enxerguem possibilidades profissionais
no setor é parte fundamental da continuidade da atividade.
A Missão Estados Unidos 2026 começou em Chicago, com uma
imersão no mercado global de commodities, e avançou para o campo,
universidades, empresas, entidades representativas e a Farm Progress Show. O
roteiro foi planejado para permitir que os produtores enxergassem diferentes
partes da cadeia produtiva e, principalmente, relacionassem essas informações
com a realidade de Mato Grosso. Neste ano, a comitiva reúne 42 integrantes e
percorre principalmente Illinois e Iowa.
Ao chegar ao penúltimo dia, a Missão Estados Unidos 2026
deixa como principal resultado uma visão mais ampla sobre os caminhos da
agricultura. Para os produtores mato-grossenses, conhecer a realidade
norte-americana significa compreender como outro dos grandes produtores
mundiais de soja e milho administra custos, utiliza tecnologia, organiza sua
representação institucional, investe em pesquisa e prepara seus jovens para o
mercado de trabalho.
Para os norte-americanos, receber agricultores de Mato
Grosso também significa conhecer melhor um dos principais polos agrícolas do
mundo e entender como os produtores brasileiros lidam com clima, segunda safra,
produtividade, logística e expansão da produção.











