Com o avanço da semeadura da soja em
Mato Grosso, as primeiras semanas após a emergência passam a concentrar a
atenção no campo. É nesse período que a planta desenvolve as raízes, se firma
no solo e começa a construir seu potencial produtivo. Parte dos problemas que
surgem nessa etapa pode ser difícil, ou até inviável, de corrigir mais adiante,
e por isso a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja
MT) reforça a importância do acompanhamento próximo da lavoura logo após a
emergência.
“Os primeiros 30 dias são
decisivos para garantir um bom estabelecimento da lavoura”, afirma Rodrigo
Knevitz Hammerschmitt, coordenador de pesquisa do Centro Tecnológico Parecis
(CTECNO Parecis), da Aprosoja MT e do Instituto Mato-grossense do Agronegócio
(Iagro MT).
Segundo ele, o cuidado começa ainda
na escolha de sementes com alto poder germinativo e vigor, e segue com o
acompanhamento da emergência, do estande de plantas, das falhas de plantio e do
desenvolvimento inicial das raízes.
Para o vice-presidente Norte da
Aprosoja MT, Diogo Balistieri, essa é uma das fases mais importantes da safra.
“A gente depende, logicamente, das tecnologias que vêm sendo aplicadas no
tratamento de sementes, mas conta também com o clima e com as chuvas”, diz. Na
propriedade, o primeiro passo é medir a população de plantas que se estabeleceu
na área. De acordo com ele, o produtor tem optado cada vez mais por não
replantar, já que a semente e o tratamento somados chegam a quase 10% do custo
da lavoura.
Competição com plantas daninhas –
Um dos pontos de maior atenção nessa fase é o controle das plantas
daninhas, que disputam água, luz e nutrientes com a soja. Além de afetar a
produtividade, elas podem prejudicar a colheita, gerar impurezas nos grãos e
facilitar a disseminação de sementes na área.
“De modo geral, enquanto a soja não
tiver finalizado o fechamento das linhas, esse deve ser considerado o período
crítico, embora perdas por competição possam ocorrer em qualquer fase de
desenvolvimento da cultura”, explica André Somavilla, coordenador de pesquisa
do Centro Tecnológico Araguaia (CTECNO Araguaia), da Aprosoja MT e Iagro MT.
A orientação é controlar as plantas
daninhas ainda nos estágios iniciais e aproveitar as cultivares com tecnologias
de resistência a herbicidas disponíveis no mercado. “É necessário ajustar o
planejamento de herbicidas para melhor utilização das tecnologias”, completa
Somavilla. Ele lembra ainda que as doses de pré-emergentes devem ser ajustadas
conforme a textura do solo, já que solos argilosos toleram doses maiores do que
os arenosos, e os siltosos têm comportamento semelhante ao dos arenosos.
Para Rodrigo, a regra é não abrir
espaço para que essas plantas se estabeleçam. “Plantas daninhas são
oportunistas e aproveitam rapidamente falhas no estande, espaços livres e
atrasos no manejo. Por isso, quanto mais precoce for o controle, menor será a competição
com a soja e maior a eficiência do manejo”.
Monitoramento de pragas – Lagartas,
besouros, percevejos e pragas de solo também podem aparecer nas primeiras
semanas. O tratamento de sementes é um aliado, mas não dispensa o monitoramento
frequente da lavoura, que permite posicionar corretamente os defensivos
agrícolas quando eles forem necessários.“Quando houver plantas mortas ou com
desenvolvimento anormal, é importante investigar a causa antes de realizar
qualquer controle”, orienta.
O diagnóstico ganha ainda mais importância em
algumas áreas. “Em solos siltosos, falhas de emergência causadas por
encrostamento podem ser confundidas com danos de pragas. Por isso, é importante
diferenciar problemas físicos de ataques biológicos”.
Nodulação e planejamento – Outro
ponto a ser verificado é a fixação biológica de nitrogênio. Nas raízes da soja
se formam pequenos nódulos, resultado da associação entre a planta e bactérias
que captam o nitrogênio do ar e o transformam em nutriente.
Entre 20 e 30 dias
após a emergência, a recomendação é arrancar cuidadosamente algumas plantas e
conferir esses nódulos, que, quando ativos, normalmente apresentam coloração
rosada ou avermelhada por dentro.
“Também é importante evitar a ideia
de que qualquer deficiência inicial pode ser corrigida apenas com aplicações
foliares. A base da nutrição da soja está no solo, no sistema radicular bem
desenvolvido e na eficiência da fixação biológica de nitrogênio”, afirma
Rodrigo.
Com a lavoura estabelecida, o
desafio passa a ser cumprir o cronograma. Contando a partir do dia em que a
soja nasce, a adubação de cobertura com cloreto de potássio deve ocorrer entre
15 e 20 dias, e o início das aplicações de fungicidas, para prevenção e
controle de doenças, entre 20 e 25 dias. Aplicações foliares de cobalto,
molibdênio e manganês entram quando necessárias, e o controle de pragas e
plantas daninhas segue conforme o monitoramento. “A realização destas práticas
nos tempos adequadamente planejados é importante para evitar redução do
potencial produtivo da lavoura”, reforça André Somavilla.
Custo pesa nas decisões – Nesta
safra, o planejamento da adubação esbarra no custo de produção. “É um ano
desafiador. Vários produtores optaram por diminuir ou até tirar completamente a
adubação”, relata Balistieri. Segundo ele, o cenário reflete a situação
financeira no campo. “O produtor está descapitalizado, endividado e buscando
formas de conseguir plantar mais uma safra. Sem o fertilizante, o custo baixa
drasticamente, mas sabemos que lá na frente isso também pode baixar a produção.
É preciso pôr na balança o custo-benefício”.
O vice-presidente norte pondera que
muitos produtores vêm adubando bem as lavouras ao longo dos anos, o que mantém
uma reserva de fertilidade no solo. Com isso, ainda é possível alcançar
produtividades satisfatórias, mesmo que abaixo do que seria obtido com a
adubação completa.
Cada solo, um cuidado – Mato
Grosso tem diferentes tipos de solo, e o manejo inicial precisa considerar
essas diferenças. Os solos arenosos, de textura mais leve, armazenam pouca
água, e as plantas tendem a sofrer estresse mais rápido quando falta chuva.
Eles também têm maior potencial de perda de alguns nutrientes, o que torna
preferível o parcelamento da adubação. Nessas áreas, a recomendação é evitar
semeaduras muito antecipadas, com chuvas ainda irregulares. “Depois que a soja
está implantada, há pouca possibilidade de corrigir diretamente os efeitos de
um veranico”, alerta Rodrigo.
Os solos siltosos, formados por
partículas de tamanho entre a areia e a argila, podem desenvolver uma casca
dura na superfície depois de chuvas fortes, o chamado selamento superficial.
Essa camada dificulta a emergência da soja, favorece o escorrimento da água em
vez da infiltração e pode comprometer o estande de plantas.
Já os solos argilosos, mais
pegajosos quando úmidos, retêm mais água e nutrientes e, por isso, permitem
semeaduras mais antecipadas em situações de maior risco climático. Essa
vantagem, porém, se perde quando o solo está compactado, o que exige atenção ao
tráfego de máquinas com o solo úmido.
“Não existe um único manejo para
todos os ambientes. Conhecer a principal limitação física e química de cada
solo é fundamental para definir a estratégia mais adequada”, resume Rodrigo.
Entre os equívocos mais comuns nessa
fase, e que devem ser evitados, estão aplicar inseticidas sem monitoramento
adequado, deixar de controlar as plantas daninhas nos estágios iniciais e não
adaptar o manejo ao tipo de solo.













