O município de Nova Mutum ainda nem existia quando Alcindo Uggeri chegou à região, em 1975. Hoje, após 51 anos no município, o produtor relembra sua trajetória na lavoura e sua contribuição para o desenvolvimento local. Associado à Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Alcindo acompanhou as transformações da cidade e também participou de iniciativas que ajudaram a construir sua história.
Nascido em Ijuí, no Rio Grande do Sul, Alcindo começou a trabalhar aos seis anos de idade, ajudando o pai na lavoura. Com o passar dos anos, ele e os irmãos cresceram, e surgiu o desejo de expandir os negócios da família. Durante a busca por novas terras para produzir, Alcindo passou por Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, mas foi em Mato Grosso que encontrou o lugar onde queria construir sua história. A decisão de investir no estado partiu de seu pai, que, segundo ele, tinha uma visão de futuro e acreditava no potencial das terras mato-grossenses.
“Porque, se tu comprar terra, tu fez um bom negócio. Porque terra, nem Deus não faz mais. Então vai lá e compre […]. O meu pai era um homem à frente do seu tempo. Ele tinha enxergado longe. Já faz mais de 30 anos que ele faleceu, e ele é o meu norte até hoje”, contou.
Alcindo deixou o Sul acompanhado da esposa, Enide Uggeri, e, desde então, os dois construíram sua história no município. Casados há 63 anos, o produtor destaca a importância da companheira ao longo dessa trajetória e agradece pela família que formaram, com os filhos Alessandro e Luciana. Hoje, ele também sente orgulho ao ver o filho à frente dos negócios da família, dando continuidade ao trabalho construído ao longo dos anos.
A realidade encontrada na chegada era bem diferente da atual. A BR-163 ainda não era asfaltada, o acesso à propriedade era difícil e a infraestrutura era limitada. Mesmo diante desses desafios, Alcindo se encantou com o lugar e decidiu permanecer. Embora seja formado em Economia, ele faz questão de se apresentar como produtor rural, profissão que escolheu por identificação e amor ao trabalho no campo.
“Eu me apaixonei por isso aqui. Foi paixão à primeira vista. Meu habitat é esse aqui, a fazenda. Quando eu tô nervoso, é pra cá que eu venho. Mas não troco Nova Mutum por lugar nenhum. É aqui que eu quero terminar meus dias”, disse.
A emancipação de Nova Mutum ocorreu em 1988. Na época, Alcindo ainda não participava tão ativamente das articulações locais, pois viajava com frequência ao Rio Grande do Sul, em deslocamentos que podiam levar até três dias. Com isso, acabava ficando de fora de algumas decisões sobre o futuro do município. A situação mudou quando um grupo de colegas, também pioneiros, foi até sua casa com um convite inesperado: assumir a presidência de uma cooperativa de crédito que seria fundada na cidade.
“Uma noite, apareceram lá em casa e disseram que nós íamos fundar uma cooperativa de crédito e que eu seria o presidente. Eu estava dormindo, me tiraram da cama. Eu disse que ainda precisava ter uma assembleia. Mas eles disseram que já estava resolvido. Aí eu falei: ‘Se vocês acham que eu sirvo, eu tô aí para ajudar”, relembrou.
A partir daquela noite, Alcindo ampliou sua participação nas instituições e nas iniciativas voltadas ao desenvolvimento de Nova Mutum. Ao longo dos anos, esteve à frente da Fundação Hospitalar e contribuiu para a fundação do frigorífico do município, que hoje emprega mais de mil trabalhadores. Sua trajetória passou, assim, a reunir não apenas a atividade rural, mas também o envolvimento com projetos que contribuíram para o crescimento da cidade.
Mesmo depois de tantas décadas, a relação de Alcindo com a agricultura continua sendo marcada pela satisfação e pelo orgulho de produzir. Para ele, o trabalho no campo tem um significado que vai além dos negócios: está diretamente ligado à produção de alimentos, essenciais para a vida das pessoas.
“Eu sou produtor rural. Essa é a coisa que eu mais gosto de fazer. Eu tenho muito orgulho mesmo, tanto que eu não uso, porque eu sou economista, não uso. Eu boto lá que eu sou produtor rural. Nós formamos a coisa mais importante que tem, que é a comida”, finalizou.
Mais de cinco décadas depois de chegar a Nova Mutum, Alcindo continua encontrando na fazenda o lugar onde se sente em casa. O orgulho de produzir alimentos e a satisfação com o trabalho no campo permanecem como marcas de sua trajetória, construída entre a lavoura, a família e a participação no desenvolvimento do município.













