Conheça o FC Magdeburg: o rival de Kane pós-Bola de Ouro que desafiou a Stasi e venceu o Milan

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O primeiro adversário de Harry Kane após a conquista da Bola de Ouro pode não ter em sua galeria de troféus as mesmas glórias bávaras, e nem perto disso. Hoje na segunda divisão, o FC Magdeburg está longe dos holofotes do futebol. Mas tem uma história singular, de conquistas nos tempos de uma Alemanha dividida, sob o comando de um técnico revolucionário, mas controverso, e com direito a um título europeu em cima do Milan. 

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Para contar essa história, precisamos navegar pela Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, o país era uma peça de tabuleiro na mesa de um mundo que se dividiria entre o capitalismo e o socialismo. Em 1949, a Alemanha se dividiu em duas, cada qual influenciada por um eixo: a Alemanha Ocidental pelos países capitalistas, a Alemanha Oriental pelo socialismo soviético. 

A resistência na Alemanha Oriental 

Fundado em 1965, o FC Magdeburg se tornou, ao longo dos anos, uma resistência ao domínio do BFC Dynamo. Clube da capital, o Dynamo era o time de Erich Mielke, chefe da Stasi (polícia secreta da Alemanha Oriental). Mielke havia fugido para a União Soviética em agosto de 1931 após assassinar dois capitães da polícia de Berlim. No país, delatou diversos comunistas alemães que buscaram refúgio no país e acabaram presos ou executados. 

Retornou para a Alemanha e utilizou os métodos de Stalin primeiro na criação da K-5, polícia secreta, e depois quando comandou a Stasi, Ministério de Segurança do Estado. Usou o futebol como uma propaganda do regime (nada novo aqui) e obrigou todo o elenco do Dynamo Dresden a se transferir para o Dynamo da capital. 

O BFC Dynamo, segundo relatado na imprensa alemã, era constantemente favorecido não apenas com os reforços que queria, mas com a pressão feita por Mielke contra árbitros e adversários. Ele era figura presente não apenas nas arquibancadas, mas também nos vestiários e nos bastidores do futebol na época. 

Nesse cenário, o FC Magdeburg surgiu como oposição ao time que fora criado para espelhar o regime. No final da década de 1960, a equipe conquistou pela primeira vez a Copa da Alemanha Oriental. Em 1972, faturou o campeonato nacional pela primeira vez, e o conquistaria ainda em outras duas ocasiões até 1975. Algo que não agradou em nada o regime… 

O ápice europeu e o técnico controverso 

O sucesso do Magdeburg atingiu o ápice em 1974. Campeão nacional naquele ano, e já com experiência em Liga dos Campeões, a equipe alcançou a final da já extinta Recopa Europeia, que era disputada por times campeões de copas nacionais. 

Depois de eliminar rivais de Holanda, Checoslováquia e Bulgária, o time alemão bateu na semifinal o Sporting, com vitória por 2 a 1 em casa após empate em Lisboa. A decisão foi contra o Milan, de Giovanni Trapattoni, que estava apenas começando sua lendária carreira como técnico após a demissão de Nereo Rocco e a saída de Cesare Maldini. 

Claro que o favoritismo era todo rossonero, comandado em campo pelo “Menino de Ouro”, Gianni Rivera, capitão e lenda do clube. Nas arquibancadas, apenas cerca de 350 alemães, devido às restrições do regime. O público no estádio de Kuip foi pequeno: 4.641 pessoas. 

Um gol contra de Enrico Lanzi, após cruzamento de Raugust, começou a pintar a zebra. Na segunda etapa, após contragolpe perfeito, Wolfgang Seguin acertou um petardo para estufar a rede de Albertosi e garantir o histórico título dos alemães, o único europeu da história do clube e uma das grandes zebras de torneios europeus. O clube foi o único da Alemanha Oriental a ser campeão de um título europeu. 

O grande arquiteto daquele time, e presente também no bicampeonato nacional, foi o técnico Heinz Krügel, figura controversa do futebol alemão que seria investigado, anos mais tarde, por crimes de guerra. 

O Magdeburg campeão da Recopa @Getty /

Guerra e futebol 

A história do futebol da Alemanha Oriental é escrita por diversos personagens ativos no campo militar. Heinz Krügel foi um técnico revolucionário e atuou sempre contra o regime. Ele construiu elencos vencedores usando os talentos locais, se recusou a aceitar qualquer interferência do regime e falou uma das frases mais marcantes de um treinador alemão contra o socialismo: “O sol brilha em Nice, e o mundo inteiro ri de nós”. 

Irônico ao criticar o isolamento que o país vivia, categórico ao afastar a interferência do regime em seu time, Krügel viveu um episódio curioso em 1974. O Magdeburg enfrentou o Bayern, de uma Munique localizada na Alemanha Ocidental, pela Liga dos Campeões, e o técnico se recusou a usar o material criado pela polícia secreta contra os bávaros. 

A Stasi montou uma grande operação de espionagem, com escutas e grampos dentro do vestiário do time ocidental. Quando recebeu fitas e transcrições do conteúdo, Krügel se recusou a usar, e falou que ganharia por méritos próprios. Não foi o caso. O Bayern venceu, se classificou, e Krügel acabou se tornando “inimigo” do regime, sendo afastado e banido do futebol em 1976.  Só foi reabilitado após a reunificação alemã. 

Hoje, o técnico, falecido em 2008, tem uma estátua de bronze na frente do estádio. A homenagem foi feita em 2014, antes de sua participação na Segunda Guerra Mundial ter sido tornada pública. Esse capítulo de sua história foi analisado por um grupo de historiadores que concluiu, em 2022, que Krügel não cometeu nenhum crime de guerra. Ao divulgar sobre a investigação, o Magdeburg ressaltou, ainda, que Krügel não era membro do Partido Nazista.

O ‘amigo’ galês

Ao longo da história, o Magdeburg criou um curioso laço com um clube galês hoje na moda: o Wrexham, de Ryan Reynolds. As equipes se enfrentaram na Recopa Europeia de 1979, com classificação alemã. 

Após derrota na Inglaterra (3 a 2), o Magdeburg repetiu o placar em casa e se classificou na prorrogação. O Wrexham participava do torneio pelo título da copa do País de Gales. 

Quatro décadas depois, o reencontro foi para lá de inusitado. Viajando ao Reino Unido para um amistoso, cerca de 200 torcedores do Magdeburg resolveram acompanhar no estádio um jogo do Wrexham. Apoiando o time galês, fizeram a festa com a vitória da equipe sobre o Torquay United, por 4 a 0, pela National League. 

Dias depois, o Magdeburg venceu o Bolton em amistoso, por 3 a 2. O curioso caso foi contado em vídeo nas redes sociais do Wrexham. 

Os duelos contra o Bayern

O duelo entre Magdeburg e Bayern de Munique tem muita história, como começamos a abordar. Os bávaros avançaram com duas vitórias apertadas na Liga dos Campeões de 1974. Aquele Bayern era uma máquina, com nomes como Franz Beckenbauer, Uli Hoeneß e Gerd Müller, e acabaria campeão. 

A revanche, entretanto, veio na virada do século. No dia 01 de novembro de 2000, as duas equipes se enfrentaram pela segunda fase da Copa da Alemanha. Com Oliver Kahn, Paulo Sérgio e depois Élber, o Bayern não passou de um empate em 1 a 1 e acabou eliminado nos pênaltis. O Magdeburg chegou até as quartas de final, caindo para o Schalke 04, por 1 a 0. 

A trajetória do clube depois da queda do Muro de Berlim é de todo difícil. Da elite da Alemanha Oriental, passou a jogar a terceira divisão, caindo em seguida para a quarta. Mesmo com a campanha histórica de 2000, o time não conseguiu se reestruturar e passou por um processo de insolvência financeira. 

Sem a torcida abandonar o clube, porém, o retorno ao profissionalismo veio em 2015, após o acesso para a terceira divisão. Três anos depois, o clube chegou na 2.Bundesliga, segunda divisão, com o título da 3.Liga. Atualmente, está em quinto lugar na tabela, e sonha com mais um milagre na copa. O duelo será nesta quarta-feira (28), em Munique, pela segunda fase, como há 26 anos… 

Festa após derrubar o Bayern @Getty /

Notícias ogol.com.br

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