Clima desafia produtividade da soja de Norte a Sul do país

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Uma mesma cultivar de soja pode apresentar resultados completamente diferentes quando plantada no Paraná, em Mato Grosso ou em Roraima. A explicação está na combinação entre genética, solo, temperatura, disponibilidade de água e época de semeadura. Pesquisas nacionais e internacionais mostram que as condições ambientais têm influência decisiva sobre a produtividade, o que ganha importância diante da seca que atinge o Norte e parte do Nordeste, incluindo áreas do Matopiba, uma das principais fronteiras de expansão agrícola do Brasil.

O contraste entre as regiões ficou mais evidente neste ano. Segundo o Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em setembro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estavam livres do fenômeno, enquanto Maranhão, Piauí, Tocantins e Roraima apresentavam algum grau de seca em 100% de seus territórios. Na Bahia, também houve agravamento das condições climáticas.

Isso não significa que todas as lavouras desses estados tenham sofrido perdas. A intensidade da seca varia entre municípios, assim como seus efeitos dependem do estágio de desenvolvimento das plantas. A diferença, porém, ajuda a explicar por que uma cultivar de elevada produtividade em determinada região pode não repetir o mesmo desempenho em outra.

Em Roraima, os efeitos já aparecem na colheita. Informações divulgadas pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Roraima (Aprosoja-RR) apontam redução de 42% na produtividade da soja em relação ao ano passado, atribuída à estiagem. A queda do nível do Rio Branco também prejudicou o transporte da produção, mostrando que os efeitos da seca ultrapassam os limites das lavouras.

No Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a preocupação está concentrada na irregularidade das precipitações e no estabelecimento da safra 2026/27. A região reúne áreas de forte expansão da soja e do milho, mas depende da regularidade das chuvas para avançar com a semeadura em propriedades de sequeiro, que não utilizam irrigação.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, enquanto as precipitações favoreceram o avanço do plantio em Mato Grosso e Goiás durante outubro, a baixa umidade ainda limitava as operações em parte do Norte e do Nordeste. No oeste baiano e em áreas do Tocantins, a distribuição irregular das chuvas exige atenção especial para evitar a implantação das lavouras em solos sem umidade suficiente.

O problema não está apenas na quantidade de água recebida durante a safra, mas no momento em que ela chega. Uma lavoura que enfrenta restrição hídrica durante o crescimento vegetativo pode reagir de maneira diferente daquela submetida à estiagem no florescimento ou no enchimento dos grãos, fases fundamentais para a definição da produtividade.

Essa relação é conhecida no melhoramento vegetal como interação entre genótipo e ambiente. Na prática, significa que o potencial produtivo de uma cultivar não é um resultado fixo, mas uma característica que se manifesta de acordo com as condições encontradas pela planta.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, avaliou genótipos de soja em 19 localidades, utilizando informações de duas décadas sobre 19 variáveis climáticas. Os pesquisadores verificaram que os fatores ambientais explicaram entre 53,89% e 60,56% das diferenças de produtividade observadas. A interação entre genética e ambiente respondeu por outros 28,82% a 33,72%, enquanto o efeito exclusivamente genético representou de 4,98% a 7,51%.

Esses percentuais correspondem aos materiais e às condições analisadas, não sendo uma regra aplicável a todas as lavouras. O resultado, entretanto, demonstra que escolher uma semente apenas pelo histórico de produtividade pode não ser suficiente para garantir seu desempenho em ambientes diferentes.

Uma das ferramentas utilizadas para compreender essas variações é a caracterização ambiental, conhecida internacionalmente como envirotyping. A metodologia considera as condições efetivamente enfrentadas pelas plantas durante seu desenvolvimento, incluindo distribuição das chuvas, temperatura, radiação solar e disponibilidade de água no solo.

Em outra pesquisa, publicada na revista Field Crops Research, cientistas analisaram 602 ambientes de cultivo de soja, distribuídos entre a França e a Rússia. O trabalho identificou cinco grupos de ambientes e conseguiu explicar 88% da interação entre genética e condições ambientais observada na produtividade.

No Brasil, instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e universidades desenvolvem pesquisas voltadas à adaptação regional de cultivares e à utilização de informações climáticas para melhorar as recomendações de plantio.

Um estudo publicado em 2024 na revista Theoretical and Applied Genetics, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Embrapa Arroz e Feijão, apresentou um modelo que combina informações ambientais, dados geográficos e resultados de experimentos para estimar o comportamento de diferentes genótipos em locais ainda não testados diretamente.

A tecnologia também avança em outras culturas. Pesquisa publicada em 2025 na revista Advanced Science, utilizando dados de milho, registrou melhoria de até 28,42% na precisão das previsões genômicas após a inclusão de parâmetros ambientais. O resultado representa maior capacidade de previsão dos modelos, e não aumento equivalente na produtividade das lavouras.

Para o produtor brasileiro, a aplicação prática desses conhecimentos está na escolha de materiais adaptados às condições da propriedade. Uma cultivar que apresenta elevado potencial em áreas com boa distribuição de chuvas não será necessariamente a melhor opção para regiões sujeitas a veranicos frequentes. Da mesma forma, a genética escolhida para solos mais arenosos pode exigir avaliação diferente daquela recomendada para áreas com maior capacidade de retenção de água.

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), os resultados de ensaios regionais e o histórico de produtividade da propriedade são instrumentos importantes nesse processo. Eles ajudam a definir a época de semeadura e a identificar condições mais favoráveis para cada cultura, embora não eliminem os riscos climáticos.

A expansão da agricultura para regiões com características ambientais distintas amplia a importância dessas ferramentas. No Matopiba, onde a soja ocupa milhões de hectares e continua avançando, a combinação entre genética adequada, manejo do solo e planejamento da semeadura será decisiva para sustentar o crescimento da produção.

A principal conclusão das pesquisas é que não existe uma cultivar capaz de expressar seu máximo potencial em todas as condições. Em um país que produz soja do Rio Grande do Sul a Roraima, conhecer o ambiente onde a semente será plantada é tão importante quanto conhecer sua capacidade genética. Para o agricultor, essa diferença pode representar mais estabilidade na colheita, melhor aproveitamento dos investimentos e menor exposição aos riscos do clima.

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