“Novo governo” terá de enfrentar juros, dívida rural e falta de recursos

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Passadas as eleições, o agronegócio brasileiro entra em um período de expectativa sobre as decisões econômicas que orientarão o País a partir de 2027. A continuidade da administração federal não elimina a necessidade de mudanças, alerta Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA).

Com juros elevados, endividamento crescente no campo, orçamento limitado para o seguro rural e investimentos insuficientes em infraestrutura, o próximo mandato começa diante de problemas que afetam diretamente o custo de produzir, a competitividade das exportações e a capacidade de financiar novas safras.

O desafio mais imediato está na recuperação da confiança econômica. A forte oscilação do dólar após as eleições evidenciou a sensibilidade do mercado às expectativas sobre as contas públicas, a inflação e a condução da política fiscal. Para o produtor rural, essa instabilidade representa uma combinação difícil: de um lado, a moeda valorizada favorece a receita das exportações; de outro, encarece fertilizantes, defensivos e equipamentos importados, além de dificultar o planejamento financeiro.

A reorganização das contas públicas será um dos primeiros testes da nova etapa administrativa. A meta fiscal de 2026 prevê superávit primário de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), com margem de tolerância de 0,25 ponto percentual. O resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas do governo, sem considerar os juros da dívida. A discussão envolve a necessidade de controlar gastos permanentes sem comprometer investimentos e serviços essenciais.

O debate ganhou força com a sinalização da equipe econômica de ampliar os mecanismos de contenção de despesas para perseguir o centro da meta fiscal. A medida, entretanto, depende de alterações legais e de entendimento com o Congresso Nacional. Para a atividade produtiva, o ponto central não está apenas no anúncio de ajustes, mas na capacidade de estabelecer regras duradouras que permitam reduzir a incerteza e criar condições para investimentos de longo prazo.

Na avaliação de Isan Rezende, a estabilidade econômica precisa ser tratada como uma condição para o crescimento da produção. “O produtor rural trabalha com planejamento de longo prazo. Ele assume compromissos antes de plantar, depende do clima, dos preços internacionais e de financiamento para manter a atividade. Quando as regras econômicas mudam constantemente, o risco aumenta e o investimento fica mais difícil. O País precisa oferecer previsibilidade para quem produz.”

O custo do dinheiro é uma das principais preocupações. Mesmo com a expectativa de redução gradual da taxa básica de juros, as projeções disponíveis antes do segundo turno apontavam Selic de 13,25% ao fim de 2026 e 11,75% em dezembro de 2027. São patamares elevados para uma atividade que exige grandes desembolsos antes da colheita e cuja receita depende de condições climáticas e comerciais nem sempre previsíveis.

A situação se agrava diante do crescimento da inadimplência rural. Dados do Banco Central mostram que, em agosto, 9,69% das operações de crédito rural contratadas por pessoas físicas apresentavam atraso superior a 90 dias, ante 5,23% no mesmo mês de 2025. O avanço revela dificuldades financeiras que não se resolvem apenas com a oferta de novos empréstimos.

Para Rezende, a recuperação da capacidade de pagamento precisa acompanhar qualquer estratégia de expansão da produção. “Não basta anunciar volumes recordes de crédito se uma parcela crescente dos produtores já enfrenta dificuldades para honrar os financiamentos anteriores. É necessário olhar para o custo efetivo dos recursos, os prazos de pagamento e as condições reais de cada atividade. O crédito rural precisa voltar a ser instrumento de desenvolvimento, e não se transformar em mais um fator de pressão sobre a propriedade.”

A questão orçamentária também alcança o seguro rural, a armazenagem e a infraestrutura. São instrumentos que ajudam a reduzir riscos e melhorar a competitividade, mas dependem de recursos públicos e de planejamento continuado. Com a possibilidade de um El Niño intenso na safra 2026/27, a proteção contra perdas climáticas assume importância ainda maior.

O Plano Safra 2026/27 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial. Entretanto, estudo do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) aponta que o aumento nominal de 1,7% sobre o ciclo anterior corresponde a uma redução real de 0,8%, depois de descontada a inflação utilizada no levantamento. O resultado demonstra que anunciar mais recursos não significa necessariamente ampliar a capacidade de financiamento.

Rezende considera que o próximo mandato precisa estabelecer prioridades claras para os instrumentos de proteção da atividade rural. “O seguro rural não pode continuar sendo tratado como uma despesa secundária, sujeita a cortes e incertezas todos os anos. O produtor investe antes de saber se terá chuva suficiente, se enfrentará uma seca ou se conseguirá colher no momento adequado. Quando o seguro funciona, ele protege a propriedade, o financiamento e toda a cadeia que depende daquela produção. É uma política que precisa de continuidade.”

A infraestrutura representa outro desafio. A produção brasileira de grãos tem condições de superar 366 milhões de toneladas na safra 2026/27, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Esse crescimento aumenta a necessidade de armazéns, estradas, ferrovias e terminais portuários. Sem investimentos compatíveis, parte dos ganhos obtidos nas lavouras acaba consumida pelo transporte e pelas dificuldades de comercialização.

A reforma tributária também exigirá atenção em 2027, com o início de uma nova etapa de implantação do sistema de tributação sobre o consumo. Para cooperativas, agroindústrias e produtores, será necessário acompanhar os efeitos sobre créditos tributários, capital de giro, contratos e custos administrativos. A transição deve oferecer regras claras para evitar que mudanças operacionais se transformem em despesas adicionais.

Há ainda a necessidade de conciliar o controle das contas públicas com políticas de apoio à produção. A revisão de subsídios e benefícios tributários pode melhorar a eficiência do gasto, mas exige distinguir incentivos sem resultados comprovados de mecanismos que reduzem riscos e sustentam investimentos produtivos. Cortes indiscriminados em pesquisa, defesa sanitária, seguro e infraestrutura poderiam comprometer a própria capacidade de crescimento que ajudaria a elevar a arrecadação.

O comércio exterior completa essa agenda. A ampliação dos mercados compradores de alimentos brasileiros exige continuidade das negociações sanitárias, fortalecimento da fiscalização e investimentos em rastreabilidade. Barreiras comerciais e exigências ambientais representam desafios permanentes para cadeias como carne bovina, soja, café, algodão e produtos florestais.

Para Rezende, o período entre o encerramento das eleições e o início do novo mandato deve servir para definir compromissos econômicos que ultrapassem o calendário político.

“O Brasil tem capacidade de produzir mais, agregar valor e ampliar sua presença no mercado internacional. Mas isso exige um ambiente em que o investimento seja estimulado, o crédito seja acessível e as políticas públicas tenham continuidade. O campo não precisa de promessas renovadas a cada safra. Precisa de condições para trabalhar, competir e crescer.”

A construção dessa agenda dependerá também do Congresso Nacional, responsável pela aprovação do Orçamento e de mudanças na legislação fiscal, tributária e econômica. A capacidade de negociação entre os Poderes será decisiva para transformar propostas em medidas concretas, independentemente das diferenças de orientação política.

O desafio do próximo mandato será, portanto, encontrar espaço para reduzir a pressão sobre as contas públicas sem enfraquecer os instrumentos que sustentam a produção. Para o agronegócio, a recuperação da confiança econômica só terá resultado efetivo quando se refletir em financiamento menos oneroso, proteção contra riscos climáticos, infraestrutura adequada e maior previsibilidade para investir.

A produção brasileira mantém potencial de crescimento, mas transformar esse potencial em renda exige mais do que recordes de safra. Exige condições econômicas que permitam ao produtor colher, comercializar, pagar seus compromissos e continuar investindo.

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