O agronegócio brasileiro chega ao próximo mandato presidencial com uma contradição que resume os últimos quatro anos: o País ampliou a produção de alimentos, conquistou mercados internacionais e consolidou sua posição entre os maiores fornecedores agrícolas do mundo, mas uma parcela crescente dos produtores enfrenta dificuldades para financiar as lavouras, pagar dívidas e proteger a produção contra perdas climáticas. Encerrada a disputa eleitoral, as entidades do setor sinalizam disposição para negociar com o governo federal uma agenda que inclui crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, tributação e condições de competitividade.
A mudança de tom ficou evidente na primeira reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) após as eleições. O presidente da bancada, deputado Pedro Lupion, afirmou que o grupo pretende apoiar propostas convergentes com os interesses dos produtores, mantendo independência para contestar medidas consideradas prejudiciais. A disposição para o diálogo não elimina as divergências acumuladas durante o atual mandato, mas coloca questões econômicas e produtivas no centro das negociações para os próximos quatro anos.
O maior problema imediato é o endividamento. Dados do Banco Central mostram que a inadimplência nas operações de crédito rural direcionado a pessoas físicas, considerando valores com atraso superior a 90 dias, chegou a 9,7% em agosto de 2026, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011. Em setembro, o índice recuou para 8,7%, uma queda mensal de 10,3%, mas permaneceu elevado diante dos níveis registrados no início do mandato.
A situação é ainda mais ampla quando consideradas operações renegociadas, prorrogadas ou classificadas como problemáticas. Levantamento de pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), apontou aproximadamente R$ 205 bilhões em operações rurais com algum grau de comprometimento financeiro. O montante demonstra que a dificuldade não se restringe aos produtores que já deixaram de pagar suas parcelas.
O agravamento das dívidas ocorreu em meio a uma combinação de juros elevados, margens menores em determinadas culturas, perdas provocadas pelo clima e aumento das exigências bancárias. Muitos produtores que financiaram a produção em condições mais favoráveis passaram a enfrentar custos financeiros maiores justamente quando os preços recebidos pelos grãos recuaram em relação aos picos anteriores.
O governo adotou medidas de renegociação, entre elas a Medida Provisória 1.376/2026, mas as condições de acesso continuam sendo questionadas. Produtores relatam exigências de novas garantias e pagamentos iniciais que dificultam a adesão. A revisão dessas regras está entre as prioridades imediatas da bancada ruralista, que também cobra soluções capazes de evitar sucessivas renegociações a cada ciclo de dificuldades.
O crédito para a nova safra revela outro desafio. Embora o Plano Safra 2026/2027 tenha anunciado R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, a contratação efetiva depende da disponibilidade dos recursos, das taxas cobradas e da avaliação de risco realizada pelas instituições financeiras. Nos primeiros três meses do ciclo, foram contratados aproximadamente R$ 80 bilhões, abaixo dos R$ 113,4 bilhões registrados no mesmo período da safra anterior.
A diferença evidencia a distância entre o volume anunciado e o dinheiro que efetivamente chega às propriedades. Para o produtor, pouco adianta a existência de uma linha de financiamento se o banco exige garantias que ele não consegue oferecer ou se os juros tornam a operação economicamente inviável.
A questão do seguro rural completa esse quadro. Durante o atual mandato, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), pelo qual o governo paga parte do custo das apólices, enfrentou bloqueios orçamentários e instabilidade na liberação de recursos. O resultado foi a dificuldade de ampliar a cobertura justamente em um período marcado por secas, enchentes e perdas de produtividade em diferentes regiões.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) chegou a defender R$ 4 bilhões para o programa em 2026, diante da necessidade de ampliar a proteção das lavouras. A modernização do marco legal do seguro rural avançou no Congresso, mas a efetividade das mudanças dependerá da regulamentação e, principalmente, de recursos suficientes para que as apólices cheguem a um número maior de propriedades.
Sem seguro, uma quebra de safra frequentemente se transforma em endividamento. O produtor perde parte da receita, deixa de cumprir compromissos e encontra mais dificuldades para financiar o plantio seguinte. Romper essa sequência é uma das tarefas que permanecerão na agenda do próximo governo.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende (foto), lembra que os números da produção mostram a capacidade do agronegócio brasileiro de crescer e ganhar mercados, mas não revelam toda a situação financeira das propriedades. ”
O produtor enfrenta uma combinação de custos elevados, crédito mais caro e riscos climáticos que comprometem sua margem. O próximo mandato precisa olhar para a rentabilidade de quem produz, porque recorde de safra não significa, necessariamente, dinheiro sobrando no campo”.
“Uma política agrícola consistente não pode depender apenas de medidas emergenciais quando a situação já se agravou. Precisamos de financiamento com previsibilidade, seguro rural acessível e mecanismos que permitam ao produtor administrar seus riscos. Quando esses instrumentos falham, o prejuízo deixa de ser apenas individual e alcança toda a cadeia, dos fornecedores de insumos às indústrias e ao comércio”, diz Isan.
“Além das dificuldades financeiras, o próximo mandato terá de enfrentar problemas estruturais que persistiram apesar dos avanços produtivos. O custo do transporte continua sendo um deles. A dependência das rodovias, as deficiências de armazenagem e os gargalos de acesso aos portos reduzem a competitividade das exportações e diminuem a parcela da receita que permanece com o produtor”, comenta o presidente do IA.
A expansão da produção de grãos aumenta essa pressão. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra brasileira superior a 360 milhões de toneladas em 2026/2027. Transportar e armazenar volumes dessa dimensão exige investimentos permanentes em ferrovias, hidrovias, rodovias e estruturas de estocagem. Sem esses avanços, parte dos ganhos de produtividade acaba consumida pelas despesas logísticas.
O comércio internacional também permanecerá entre as prioridades. A abertura de novos mercados foi um dos resultados positivos do atual mandato, com centenas de habilitações e acordos sanitários que ampliaram as possibilidades de exportação. Entretanto, o acesso comercial passou a depender cada vez mais do cumprimento de exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade.
As regras europeias de combate ao desmatamento, as restrições sanitárias impostas por compradores internacionais e o endurecimento dos limites de resíduos de agrotóxicos e medicamentos veterinários exigirão investimentos e adaptações em diferentes cadeias produtivas. O desafio será atender às exigências sem comprometer a competitividade dos produtos brasileiros ou impor custos desproporcionais aos pequenos e médios produtores.
A reforma tributária representa outra frente de trabalho. Embora sua aprovação tenha definido uma nova estrutura de impostos sobre o consumo, a transição ainda exigirá regulamentações, ajustes nos sistemas fiscais e decisões empresariais sobre aproveitamento de créditos. Para o agronegócio, será necessário acompanhar os efeitos sobre insumos, transporte, industrialização e comercialização.
A agenda trabalhista também ganhou importância com a mudança nas regras da jornada semanal. Entidades do setor alertam para a dificuldade de reorganizar atividades que funcionam continuamente, como granjas, propriedades leiteiras e frigoríficos. A regulamentação das jornadas diferenciadas deverá ser discutida no Congresso, diante da necessidade de conciliar os direitos dos trabalhadores com as características da produção rural.
Há, ainda, a questão da segurança jurídica. A regulamentação de leis relacionadas aos defensivos agrícolas, bioinsumos, regularização fundiária e mecanismos de controle da produção continuará exigindo decisões administrativas e legislativas. Para empresas e produtores, a estabilidade das regras é importante porque investimentos em máquinas, estruturas de armazenagem e ampliação da produção são planejados para vários anos.
“O agronegócio não precisa de um governo que concorde com tudo o que o setor defende, mas de regras claras e condições para produzir com eficiência. Crédito, infraestrutura, segurança jurídica e acesso aos mercados são questões econômicas que ultrapassam qualquer disputa eleitoral. O Brasil já demonstrou que sabe produzir; agora precisa transformar essa capacidade em renda, estabilidade e desenvolvimento para o País”, disse Rezende.
O balanço do mandato que se encerra, portanto, não é exclusivamente positivo nem negativo. Houve expansão da produção, fortalecimento de mercados e avanços em instrumentos legais, ao mesmo tempo em que se agravaram o endividamento, as restrições ao crédito e a exposição financeira dos produtores às perdas climáticas. Parte desses problemas resulta de fatores externos, como oscilações internacionais de preços e condições meteorológicas, mas a capacidade de enfrentá-los depende também das políticas públicas.
Para o próximo governo, a principal cobrança será transformar anúncios de recursos e medidas emergenciais em instrumentos permanentes de financiamento e proteção da renda rural. A dimensão do desafio aparece na diferença entre os resultados da produção nacional e a situação financeira de milhares de propriedades.
A disposição de diálogo manifestada pelas lideranças do setor abre espaço para negociações, mas os resultados dependerão de decisões concretas sobre orçamento, crédito, seguro e investimentos. O agronegócio entra no novo mandato com capacidade produtiva ampliada e participação decisiva na economia brasileira. A questão que permanece é como garantir que esse crescimento também se traduza em maior segurança financeira para quem produz.













