Mato Grosso sediará Congresso Mundial da Carne: entre protagonismo econômico e desafios da rastreabilidade ambiental

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Cuiabá será o centro das atenções globais do setor de proteína animal entre os dias 27 e 30 de outubro de 2025. Pela primeira vez no Brasil, o World Meat Congress (Congresso Mundial da Carne) escolheu Mato Grosso como sede. A escolha reflete a posição estratégica do estado, líder nacional na produção de grãos e com o maior rebanho bovino do país: mais de 32 milhões de cabeças. No último ano, o estado exportou cerca de US$ 2,6 bilhões em carne bovina para 65 países, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec).

 

A realização do evento em território mato-grossense é vista pelo governo estadual e pelo setor produtivo como uma chancela do protagonismo conquistado ao longo das últimas décadas. “Se fôssemos um país, já seríamos uma potência exportadora”, disse o secretário de Desenvolvimento Econômico e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac), César Miranda. “Estamos reforçando nossa imagem como um dos principais players do mercado da carne, com uma produção sustentável e de qualidade”, completou.

 

No entanto, a projeção internacional também acarreta responsabilidades. A poucos dias da COP30 — Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em Belém do Pará entre 10 e 21 de novembro —, Mato Grosso estará no centro das discussões sobre sustentabilidade e rastreabilidade das cadeias produtivas. A vitrine aberta pelo congresso mundial poderá amplificar tanto os acertos quanto as fragilidades do setor pecuário no Brasil.

 

Uma das maiores delas está na rastreabilidade. Apesar dos avanços pontuais, grande parte da carne brasileira ainda carece de controle pleno sobre a origem do gado, especialmente nas fases iniciais de produção. A rastreabilidade obrigatória no país atualmente cobre apenas o rebanho que passa por áreas livres de febre aftosa com vacinação, como é o caso de Mato Grosso. No entanto, essa rastreabilidade tem como foco a sanidade animal, e não necessariamente aspectos ambientais.

 

Estudos como o do MapBiomas mostram que a pecuária está entre os principais vetores de desmatamento no Brasil. Muitas vezes, o gado é criado em áreas desmatadas ilegalmente e transferido posteriormente para fazendas regulares, uma prática conhecida como “lavagem de gado”. Segundo uma investigação publicada pelo The Guardian em parceria com o Bureau of Investigative Journalism, cerca de 17% das exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia em 2021 tiveram algum nível de risco de desmatamento associado — especialmente pela dificuldade em rastrear toda a cadeia produtiva.

 

Para Caio Penido, presidente do Imac, o evento é uma oportunidade para mostrar os esforços de Mato Grosso em adotar práticas mais sustentáveis. “O congresso traz os maiores exportadores e produtores do mundo. É uma chance de destacar o modelo de produção responsável que estamos construindo. A expectativa é muito positiva, principalmente porque estaremos nos projetando internacionalmente em um momento em que o mundo olha para a Amazônia”, afirmou.

 

De fato, o estado tem avançado em algumas frentes. Programas como o Carne Legal e acordos de cooperação com frigoríficos e compradores internacionais têm buscado ampliar a rastreabilidade e reduzir a pressão sobre áreas sensíveis. Contudo, o desafio é escalar essas práticas e garantir transparência em um setor que ainda opera em grande parte com dados fragmentados e autorregulação limitada.

 

Entre os países que mais importam carne bovina de Mato Grosso estão a China — que responde por mais de 50% das exportações —, seguida por Estados Unidos, Egito, Emirados Árabes, Chile e União Europeia. Todos esses mercados têm ampliado exigências socioambientais para a entrada de produtos agropecuários. A União Europeia, por exemplo, aprovou em 2023 a Lei de Produtos Livres de Desmatamento, que deverá impactar diretamente as exportações brasileiras.

 

A realização do WMC em Cuiabá é, portanto, mais do que um marco para o setor pecuário. É um teste de coerência entre discurso e prática. Em meio à pressão internacional por cadeias livres de desmatamento e com a COP30 se aproximando, Mato Grosso terá a oportunidade — e a responsabilidade — de mostrar ao mundo que é possível ser potência agropecuária sem abrir mão da conservação ambiental e da credibilidade internacional.

 

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