O tarifaço do Trump, que chegou a impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, foi formalmente derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, em decisão proferida em dezembro. O entendimento foi de que a adoção generalizada de tarifas, sem base técnica individualizada por produto ou setor, extrapolou os limites legais do Executivo.
Na prática, a decisão anulou o chamado “tarifaço” e obrigou o governo norte-americano a suspender a cobrança das sobretaxas. No entanto, dois pontos seguem em aberto em março de 2026: a eventual devolução dos valores pagos a mais por importadores e exportadores ao longo de 2025, ainda sem regulamentação clara, e a substituição das tarifas amplas por medidas mais específicas, que continuam afetando o fluxo comercial.
O impacto econômico do episódio foi imediato e relevante. Entre julho e outubro de 2025, período de vigência das tarifas mais elevadas, as exportações brasileiras totais para os EUA recuaram cerca de 40%. No agronegócio, a queda foi de aproximadamente 35% em receita e 41% em volume embarcado, segundo dados consolidados do setor.
Café: perda de até US$ 300 milhões no auge da crise
Principal produto do agro brasileiro exportado aos Estados Unidos, o café foi um dos mais afetados. De acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, as compras norte-americanas caíram cerca de 50% entre agosto e novembro de 2025 na comparação anual. Considerando o histórico de exportações, o setor estima perdas próximas de US$ 250 milhões a US$ 300 milhões no período. Em 2026, os embarques mostram reação, mas ainda operam abaixo do nível pré-crise, com contratos mais curtos e maior pressão sobre preços.
Carne bovina: recuo de receita e aumento de custo operacional
No caso da carne bovina, além da retração nas vendas durante o tarifaço, o setor passou a enfrentar exigências sanitárias mais rígidas que permaneceram após a decisão judicial. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que o impacto combinado — queda de volume em 2025 e custos adicionais em 2026 — represente perdas da ordem de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões.
Suco de laranja e frutas: perda de competitividade e contratos
O setor de suco de laranja, historicamente dependente do mercado norte-americano, também sentiu o impacto. A redução de embarques ao longo do segundo semestre de 2025 e a substituição por fornecedores concorrentes geraram perdas estimadas entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões. Para frutas frescas — como manga e uva —, o prejuízo foi menor em valor absoluto, mas relevante em termos de mercado, com queda de até 30% nos embarques durante o pico das tarifas.
Madeira e florestais: pressão contínua
A indústria de produtos florestais foi duplamente afetada: primeiro pelas tarifas de 2025 e, agora, por investigações comerciais em curso nos EUA. O setor estima perdas superiores a US$ 100 milhões no ano passado, além da manutenção de um ambiente de incerteza que dificulta a retomada plena dos embarques.
Mel e pescados: impacto proporcional elevado
Embora menores em valor, esses segmentos sofreram forte impacto relativo. Em alguns casos, mais de 60% das exportações tinham como destino os Estados Unidos, o que resultou em retrações abruptas de receita e dificuldade de redirecionamento no curto prazo.
Isan Rezende
PASSIVO – Apesar da derrubada do tarifaço, o cenário em março de 2026 está longe da normalidade. Os Estados Unidos mantiveram uma postura mais restritiva, substituindo tarifas amplas por barreiras técnicas, sanitárias e investigações comerciais direcionadas. Além disso, parte dos importadores já migrou para outros fornecedores ao longo de 2025, o que dificulta a recuperação imediata do market share brasileiro.
Outro ponto de atenção é o passivo financeiro gerado durante a vigência das tarifas. Exportadores e importadores aguardam definição sobre a devolução dos valores pagos a mais — tema que ainda tramita no sistema jurídico e administrativo norte-americano, sem prazo claro para resolução.
Para o produtor rural, o efeito prático permanece: o mercado dos Estados Unidos continua acessível, mas mais exigente, mais caro e menos previsível. O episódio acelerou a diversificação de destinos — com avanço das vendas para Ásia, Europa e Oriente Médio —, mas não eliminou a relevância do mercado norte-americano, que segue estratégico para produtos de maior valor agregado.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, lembra que a superação dos entraves ainda existentes passa, прежде de tudo, por uma atuação mais assertiva do governo brasileiro no campo diplomático e técnico.
“O Brasil precisa atuar com mais firmeza nas negociações bilaterais com os Estados Unidos, apresentando dados técnicos e sanitários robustos que comprovem a qualidade e a segurança dos nossos produtos. Não basta esperar a normalização do mercado; é necessário reconstruir a confiança comercial e garantir previsibilidade para o exportador”, afirma.
Segundo ele, outro ponto central é o alinhamento interno da cadeia produtiva para atender às exigências cada vez mais rigorosas impostas pelos mercados internacionais.
“Os setores que mais sofreram com o tarifaço precisam acelerar investimentos em rastreabilidade, certificação e padronização. Hoje, o acesso a mercados como o norte-americano depende de comprovação técnica detalhada, e isso exige integração entre produtor, indústria e governo. Quem não se adequar rapidamente tende a perder espaço de forma definitiva”, diz o Presidente.
Rezende também defende uma estratégia mais ampla de inserção internacional para reduzir a vulnerabilidade a decisões unilaterais. “O episódio mostrou que não podemos concentrar nossas exportações em poucos destinos. É fundamental avançar em acordos comerciais e abrir novos mercados, mas sem abrir mão de recuperar o espaço nos Estados Unidos. O produtor brasileiro é competitivo; o que falta é transformar essa competitividade em acesso efetivo ao mercado, com menos barreiras e mais segurança jurídica”, conclui.











