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A ideia que ficou popularizada no filme de ficção científica Perdido em Marte pode ter base em experimentos reais: o uso de resíduos humanos combinados ao regolito lunar ou marciano para viabilizar o cultivo de plantas fora da Terra. Um estudo recente indica que esse material pode ajudar a liberar nutrientes essenciais, tornando o solo desses ambientes mais adequado para a agricultura.
Na história, o astronauta Mark Watney utiliza seus próprios resíduos para fertilizar o solo marciano e produzir alimentos. Segundo os pesquisadores, esse conceito ajuda a ilustrar um desafio real: como garantir a produção de comida em missões de longa duração, especialmente em Marte, onde o envio constante de suprimentos da Terra seria caro e demorado. Os resultados foram publicados em 7 de janeiro na revista científica ACS Earth and Space Chemistry.

Desafios do solo lunar e marciano para a agricultura
O regolito — termo usado para descrever o “solo” da Lua e de Marte — não é considerado um solo verdadeiro. Isso porque ele é inorgânico e, embora contenha nutrientes em sua composição mineral, esses elementos estão presos e indisponíveis para as plantas.
Para viabilizar a agricultura nesses ambientes, cientistas buscam maneiras de transformar esse material em algo mais próximo de um solo fértil. Métodos como tratamento térmico, hidroponia e uso de sais líquidos já foram testados, mas apresentam limitações por exigirem energia, tecnologia e insumos adicionais que precisariam ser levados da Terra.
A proposta de usar resíduos humanos
A alternativa estudada envolve o uso de resíduos orgânicos produzidos pelos próprios astronautas, combinados com o regolito disponível localmente. A proposta segue o conceito de utilização de recursos in situ, ou seja, aproveitar apenas o que já está disponível na Lua ou em Marte.
No experimento, os pesquisadores utilizaram um sistema com biorreatores e filtros que processam o esgoto e geram um efluente rico em nutrientes, com substâncias tóxicas removidas. Esse material foi então misturado a simulantes de regolito lunar e marciano.
Após o processo, foram identificadas liberações de nutrientes importantes. No caso do regolito lunar, houve liberação significativa de enxofre, cálcio e magnésio. Já o simulante marciano também apresentou esses elementos, além de sódio. Esses nutrientes tornam-se acessíveis para o crescimento das plantas.
Estudos e simulações em laboratório
Como não há regolito marciano disponível na Terra e as amostras lunares são limitadas, os testes foram realizados com materiais simulados que imitam a composição desses solos. As misturas foram agitadas por 24 horas, processo que ajudou a “intemperizar” as partículas.
A análise microscópica mostrou mudanças físicas nos materiais: o simulante lunar apresentou pequenas cavidades, enquanto o marciano ficou coberto por nanopartículas. Esse tipo de alteração é considerado um passo importante para aproximar o regolito de um solo mais adequado ao cultivo.
Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que o experimento ainda não fornece todos os nutrientes necessários para as plantas. Elementos como ferro, zinco e cobre não foram obtidos nesse processo, indicando a necessidade de estudos adicionais.
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Implicações para o futuro da exploração espacial
A produção de alimentos fora da Terra é considerada essencial para missões de longa duração e possíveis bases permanentes. O uso de resíduos humanos surge como uma alternativa para reduzir a dependência de suprimentos enviados da Terra e tornar esses ambientes mais autossuficientes.
Os resultados fazem parte de uma série de estudos que investigam como recursos disponíveis na Lua e em Marte podem ser aproveitados para sustentar a presença humana. Ainda há limitações técnicas e incertezas, incluindo diferenças entre os simulantes e o regolito real, mas a pesquisa aponta caminhos para o desenvolvimento de sistemas agrícolas em ambientes extraterrestres.









