Entenda por que Plutão não é mais considerado um planeta

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Desde que a New Horizons sobrevoou Plutão em 2015, descobrimos que ele é um dos mundos mais fascinantes do Sistema Solar. Com uma superfície diversificada, coberta por montanhas de gelo e uma grande planície em forma de coração,  além de uma atmosfera surpreendentemente complexa. O astro que até pouco tempo era conhecido como o nono planeta, certamente não ficou menos interessante quando, em 2006, a União Astronômica Internacional tomou uma decisão que ainda provoca discussões acaloradas: Plutão deixou de ser oficialmente classificado como planeta e passou a integrar uma nova categoria, a dos planetas-anões. 

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Isso deveria ser apenas uma definição de termos, mas acabou gerando uma polêmica interminável. O último capítulo dessa treta científica foi protagonizada por Jared Isaacman, atual administrador da NASA, depois que ele declarou apoio à ideia de “trazer Plutão de volta”.  Mas será que ele tem razão em questionar essa definição da IAU?

Toda essa história começa um século atrás, em 1930, quando o jovem astrônomo Clyde Tombaugh descobriu, meio que por coincidência, o “nono planeta” a partir do Observatório Lowell, no Arizona. Na época, acreditava-se que existia um grande planeta além de Netuno, perturbando gravitacionalmente sua órbita. Quando foi procurar, na região do céu onde se esperava que esse suposto objeto estaria,  Tombaugh encontrou Plutão. Só havia um pequeno detalhe: Plutão não poderia influenciar na órbita de Netuno, principalmente porque ele é minúsculo. Muito menor do que qualquer planeta conhecido. Menor até do que a nossa Lua. É quase um “planeta de bolso”.

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[ Clyde Tombaugh, o descobridor de Plutão, ao lado de um telescópio artesanal construído por ele – Imagem: wikimedia.org ]

Bom, durante décadas, isso não foi problema algum. Plutão permaneceu confortavelmente instalado como o nono planeta. Afinal, ele estava sozinho naquela região distante do Sistema Solar. Ou pelo menos era o que pensávamos. A partir da década de 1990, telescópios mais poderosos e técnicas modernas de busca, começaram a revelar uma população inteira de objetos gelados além de Netuno: o Cinturão de Kuiper. Plutão não era uma exceção. Era apenas o membro mais famoso de uma vasta família.

Então veio 2005. Astrônomos anunciaram a descoberta dos transnetunianos Haumea, Makemake e Eris. Este último inicialmente estimado como sendo até maior que Plutão. E aí surgiu o dilema: se Plutão era planeta, Eris também deveria ser. E se Eris fosse planeta, outros objetos semelhantes inevitavelmente seriam. O Sistema Solar poderia acabar com dezenas de planetas. Professores teriam pesadelos e os livros didáticos teriam mais e mais páginas a cada ano. 

Foi nesse contexto que, em 2006, durante a assembleia da União Astronômica Internacional em Praga, entre muita discórdia, surgiu pela primeira vez uma definição formal para a palavra “planeta”. Pode parecer estranho que isso só tenha acontecido tão tarde, mas nunca essa discussão havia sido tão necessária.

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[ Votação da resolução da Assembléia Geral da União Astronômica Internacional em Praga, 2006 – Créditos: IAU/Robert Hurt (SSC) ]

Segundo a definição adotada, um objeto deve satisfazer três critérios para ser considerado planeta. Primeiro, deve orbitar o Sol. Segundo, precisa ter massa suficiente para que sua própria gravidade o torne aproximadamente esférico. E terceiro, deve ter “limpado a vizinhança” de sua órbita.

Os dois primeiros critérios Plutão cumpre com facilidade. Ele orbita o Sol e é redondo. O problema está no terceiro critério. Limpar a vizinhança orbital significa que o objeto se tornou gravitacionalmente dominante em sua região. Em outras palavras, ao longo de bilhões de anos, ele incorporou, expulsou ou capturou a maior parte dos corpos de tamanho comparável próximos à sua órbita.

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A Terra faz isso. Júpiter faz isso com maestria. Até o pequeno Mercúrio, lá no canto dele, consegue cumprir essa tarefa. Plutão, porém, divide aquela região do Sistema Solar com inúmeros objetos do Cinturão de Kuiper. Ele é o maior membro conhecido dessa população, mas está longe de ser dominante. Hoje sabemos que Eris é apenas um pouco menos e é ligeiramente mais massivo que Plutão.

Foi por isso que, naquele mesmo ano, a IAU criou a categoria “planeta-anão”. Um corpo que orbita o Sol, é esférico, mas não domina gravitacionalmente sua vizinhança orbital. Plutão tornou-se o exemplo clássico dessa nova classe, ao lado de Eris, Haumea, Makemake e, mais perto de casa, Ceres.

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[ Alguns objetos do Cinturão de Kuiper e suas luas – Imagem: wikimedia.org ]

Essa decisão gerou enorme comoção pública. Para muitos, parecia uma espécie de rebaixamento para a segunda divisão cósmica. Afinal, Plutão era o nono planeta havia 76 anos. Mas a resolução adotada pela IAU visava unificar o entendimento científico sobre o que é um planeta, e não caberia, para satisfazer nossos apegos sentimentais, adicionar um “menos Plutão” nesta definição. 

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Recentemente, Jared Isaacman declarou que apoia a reclassificação de Plutão como planeta, mencionando, entre outras coisas, o legado de Clyde Tombaugh. É um argumento emocionalmente compreensível, mas cientificamente frágil. Tombaugh descobriu Plutão, e isso jamais mudará. Seu nome permanece para sempre na história da astronomia. Aliás, parte de suas cinzas foi levada a bordo da sonda New Horizons em sua vistita à Plutão. Poucos cientistas receberam uma homenagem tão marcante.

A classificação de Plutão não diminui a importância da descoberta de Tombaugh nem a relevância científica deste mundo extraordinário. Vale lembrar também que a decisão de 2006 não foi tomada por um burocrata entediado em uma sala sem janelas. Ela foi resultado de debates intensos e de uma votação entre astrônomos de todo o mundo, reunidos na principal organização internacional da área. É assim que a ciência funciona: por consenso técnico, não por popularidade ou autoridade política momentânea. A ciência não é estática, mas também não muda porque alguém famoso ou influente resolveu opinar. Mudanças acontecem quando novas evidências ou argumentos robustos surgem e convencem a comunidade especializada.

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Todos nós gostamos de Plutão. A visita da New Horizons mostrou um mundo incrivelmente ativo, com atmosfera, geleiras de nitrogênio, montanhas de gelo e paisagens que rivalizam com alguns dos planetas mais interessantes do Sistema Solar. Em termos científicos, Plutão se tornou muito mais importante depois de 2006, mesmo com a nova classificação. Afinal, o que mudou foi apenas um termo.

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[ Plutão registrado pela sonda New Horizons da NASA em 2015 – Créditos: NASA ]

Então, chame de planeta ou de planeta-anão, não importa. Chame até de Maria ou de João. Tanto faz. Não é o nome ou a classificação científica que irá tornar Plutão mais ou menos interessante. Ele continuará sendo o mesmo objeto fascinante que Tombaugh descobriu em 1930, e que nós redescobrimos em 2015.

Marcelo Zurita

Marcelo Zurita

Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil

Olhar Digital

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