Tudo sobre Elon Musk
Líderes do setor de inteligência artificial (IA) têm defendido que governos criem mecanismos amplos de apoio financeiro à população diante da possibilidade de uma eliminação em massa de empregos causada pela IA.
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A posição, que inclui propostas de renda básica universal e outras formas de redistribuição de renda, tem gerado críticas de especialistas que questionam se bilionários da tecnologia estariam dispostos a apoiar o aumento de impostos necessário para financiar esse modelo.
O empresário Elon Musk afirmou recentemente que tem um plano para um futuro em que empregos sejam eliminados pela inteligência artificial: um governo “benevolente” forneceria renda à população. “Renda universal ALTA por meio de cheques emitidos pelo governo federal é a melhor forma de lidar com o desemprego causado pela IA”, escreveu Musk em uma publicação no X.
O bilionário tem defendido pagamentos governamentais não como uma solução temporária, mas como um plano permanente para um mundo de “abundância incrível” que, segundo ele, será criado pela IA. “IA/robótica produzirão bens e serviços muito acima do aumento da oferta monetária”, afirmou. “Portanto, não haverá inflação.”
As declarações chamam atenção porque Musk é um crítico frequente dos gastos públicos e há anos ataca programas de grande escala financiados pelo governo. Durante sua atuação na supervisão do DOGE, órgão dos Estados Unidos, ele chegou a defender cortes de US$ 2 trilhões (R$ 10 trilhões) no orçamento federal.
Agora, porém, o empresário propõe uma expansão radical da rede de proteção social, em um modelo que superaria amplamente programas públicos dos EUA, como Medicare, Medicaid e Previdência Social.

O que Musk e outros empresários de IA querem
Musk faz parte de um grupo de líderes do setor de tecnologia que argumentam que a transformação provocada pela IA pode exigir grandes transferências de recursos para os cidadãos comuns. A posição representa uma mudança significativa em parte do Vale do Silício, onde muitos executivos historicamente demonstraram hostilidade a programas de assistência pública.
O CEO da Anthropic, Dario Amodei, também defendeu medidas de alívio financeiro público, incluindo potencialmente uma renda básica universal.
Segundo ele, em algum momento “nossa atual estrutura econômica deixará de fazer sentido”. Em uma publicação em blog, Amodei escreveu ainda que “haverá necessidade de uma conversa social mais ampla sobre como a economia deve ser organizada”.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, também já defendeu a renda básica universal no passado, embora tenha passado a apoiar uma estrutura em que o público tenha “propriedade coletiva” de aspectos da IA, segundo o Business Insider.
“Eu acho que qualquer versão do futuro com a qual eu possa realmente ficar animado significa que todo mundo precisa participar dos ganhos”, disse Altman em uma entrevista recente a um podcast.
Em abril, a OpenAI apresentou uma série de propostas de políticas públicas para lidar com a transformação provocada pela IA. A empresa comparou o momento atual à transição para a era industrial e ao New Deal.
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Segundo a companhia, a transição “exigirá uma forma ainda mais ambiciosa de política industrial”, que reflita “a capacidade das sociedades democráticas de agir coletivamente, em larga escala, para moldar seu futuro econômico de modo que a superinteligência beneficie a todos”.
As posições levaram críticos a afirmar que a empresa, responsável por boa parte do atual boom da IA, estaria, na prática, defendendo uma forma de socialismo.

Problemas
- As intervenções defendidas pelos executivos buscam responder a um problema que eles próprios afirmam ser consequência do sucesso de suas empresas;
- A Tesla, de Musk, pretende construir bilhões de robôs humanoides, tornando o trabalho humano efetivamente obsoleto. Outra empresa liderada pelo empresário, a SpaceX, deve estrear na bolsa de valores nas próximas semanas com um plano para apoiar o crescimento da IA colocando centros de dados no espaço;
- A Anthropic, cujo chatbot Claude ganhou popularidade rapidamente, divulgou uma análise apontando que grandes parcelas da força de trabalho estariam vulneráveis à substituição pela inteligência artificial, incluindo áreas de gestão, negócios, artes e mídia;
- Especialistas, no entanto, questionam se bilionários da tecnologia, que passaram décadas resistindo à regulação, sindicatos e impostos mais altos, apoiariam de fato o nível de redistribuição necessário para financiar programas como a renda básica universal.
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“A única maneira de pagar por uma renda básica universal é taxar massivamente aquelas pessoas extremamente ricas que possuem as máquinas da renda básica universal”, afirmou Jesse Rothstein, professor de políticas públicas e economia da Universidade da Califórnia em Berkeley e ex-economista-chefe do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, ao The Washington Post. “É uma boa surpresa ouvir Elon Musk defender isso.”
Segundo Rothstein, a proposta de Musk, que prevê uma versão de renda básica universal muito mais generosa do que modelos considerados otimistas no passado, exigiria que líderes empresariais aceitassem pagar mais impostos — algo que eles ainda não indicaram estar dispostos a fazer.
No início deste mês, Musk reclamou no X sobre o que descreveu como uma conta de impostos de US$ 10 bilhões (R$ 50,3 bilhões), “mais do que qualquer pessoa na história”. “No geral, provavelmente acabarei pagando trilhões em impostos”, escreveu.
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Rothstein foi coautor de um estudo de 2019 que estimou o custo de conceder uma pequena renda a toda a população dos Estados Unidos. Segundo o trabalho, o gasto seria gigantesco — quase o dobro das despesas totais combinadas com Previdência Social, Medicare e Medicaid.
De acordo com o estudo, pagar US$ 12 mil (R$ 60,3 mil) anuais a adultos estadunidenses “exigiria quase dobrar a arrecadação federal de impostos”.
Embora o plano de Musk não apresente um valor específico para a “renda universal alta”, o financiamento necessário provavelmente seria exponencialmente maior.
Parte dos defensores da renda básica universal vê com ambivalência o interesse recente dos magnatas da tecnologia. Embora o entusiasmo desses empresários possa ampliar a discussão sobre o tema, há desconfiança em relação às motivações deles.
“Eu acho que é uma estratégia de marketing”, afirmou Scott Santens, defensor da renda básica universal e CEO da organização sem fins lucrativos Income to Support All Foundation. Segundo Santens, Musk tenta equilibrar a defesa de uma tecnologia que pode eliminar empregos com a necessidade de evitar reação pública negativa.
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“Ele está tentando encontrar um meio-termo de ‘eu quero resolver essas coisas que potencialmente vão tirar muitas pessoas do mercado de trabalho’. E como você evita que as pessoas fiquem realmente furiosas com isso? Bem, vocês ainda vão receber dinheiro, tudo será ótimo, vocês simplesmente não precisarão mais trabalhar”, afirmou.
Alguns conservadores, incluindo apoiadores públicos do trabalho do DOGE, criticaram a posição do empresário.
“Os novos profetas do apocalipse da IA sofrem de uma falha de imaginação. Eles simplesmente não conseguem imaginar quais empregos o futuro trará, então concluem que ele não trará nenhum”, disse Jay W. Richards, vice-presidente de políticas sociais e domésticas e pesquisador sênior da Heritage Foundation.
“No mundo real, Washington colocaria uma renda básica universal em cima dos programas existentes, adicionando trilhões a um orçamento que já está caminhando para a insolvência”, afirmou. Economistas parecem apoiar de forma mais ampla outras soluções além da redistribuição de renda, como programas de requalificação profissional.

Um estudo preliminar publicado nesta primavera pelo Federal Reserve Bank de Chicago (EUA) mostrou apoio entre economistas a soluções mais direcionadas para lidar com a disrupção econômica causada pela IA.
No fim de abril, a Meta pareceu seguir esse caminho ao anunciar “uma iniciativa de vários anos que oferece treinamento rápido e gratuito para transformar milhares de estadunidenses sem experiência prévia em técnicos de fibra óptica bem remunerados” para projetos, incluindo centros de dados.
Na visão de Santens, aliado do empresário Andrew Yang, que fez da renda básica universal o tema central de sua campanha presidencial em 2020, Musk poderia demonstrar facilmente a sinceridade de sua posição: financiando a ideia com recursos próprios.
“A falta de seriedade deles em realmente fazer algo a respeito leva as pessoas a acreditarem que isso não é verdade”, afirmou Santens.
“Se ele anunciasse de repente que está colocando US$ 150 milhões [R$ 754,8 milhões] em um super PAC para apoiar candidatos favoráveis à renda básica universal [e] fazer algo acontecer o mais rápido possível… seria uma sensação totalmente diferente de ‘isso é real — isso é realmente real’”, concluiu.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.










