Em 2010, pesquisadores encontraram um esqueleto de baleia a cerca de 1.280 metros de profundidade, próximo à Ilha de Vancouver, no Canadá. Os ossos do animal já estavam expostos no fundo do mar e o tecido mole tinha desaparecido havia muito tempo. Na época, especialistas acreditavam que a carcaça não duraria mais de uma década antes de se desintegrar completamente.
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No entanto, de acordo com um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science, essa previsão não se confirmou. Pouco mais de quinze anos depois, os ossos continuam no mesmo local e a comunidade de organismos que se alimenta deles não apenas permaneceu, como cresceu ao longo do tempo.

Restos mortais seriam de baleia-azul ou baleia-fin
O esqueleto está localizado na Encosta de Clayoquot, uma região do fundo do mar ao largo do sudoeste da Colúmbia Britânica, província canadense na costa do Oceano Pacífico. Os restos pertenciam a uma baleia-azul ou a uma baleia-fin, com cerca de 16,5 metros de comprimento.
Uma equipe liderada pelo biólogo de águas profundas Fabio C. De Leo, da Universidade de Victoria (UVic) e da Ocean Networks Canada, monitorou o local entre 2009 e 2024, realizando cinco expedições com veículos operados remotamente e captando imagens em alta definição.
Os dados foram convertidos em modelos tridimensionais com precisão de nível centimétrico. O local fica em uma zona de baixo oxigênio no Pacífico, onde os níveis de oxigênio dissolvido são extremamente reduzidos, mas ainda assim a vida marinha continua ativa.
A carcaça passa por diferentes fases de decomposição. Primeiro chegam grandes necrófagos, seguidos por organismos menores que colonizam os ossos e o sedimento ao redor. Depois, bactérias internas quebram lipídios sem oxigênio e liberam sulfeto de hidrogênio, que sustenta uma comunidade especializada.

Ossos foram cobertos por tapetes microbianos
Um estudo de 2022 estimava que essa fase bacteriana duraria cerca de 10 anos, mas pesquisas em outros cânions submarinos sugeriam que poderia se estender por várias décadas, dependendo das condições locais.
Os ossos da encosta de Clayoquot mostraram comportamento diferente. Entre 2012 e 2023, quase não houve mudanças estruturais significativas, com perda média inferior a 2% em algumas vértebras e maior erosão apenas nas mandíbulas.
Além disso, a superfície dos ossos foi coberta por tapetes microbianos que aumentaram ao longo dos anos, indicando uma intensa atividade de bactérias que consomem compostos liberados pela decomposição interna.
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Em 2009, os ossos ainda abrigavam vermes do gênero Osedax, que perfuram esqueletos de baleias e se alimentam de sua gordura usando bactérias simbióticas. Em 2023, esses organismos desapareceram completamente do local.
O crânio também se tornou um berçário inesperado de caracóis de águas profundas, com dezenas de massas de ovos fixadas diretamente nos ossos, algo nunca observado nas visitas anteriores.
Outra mudança importante está relacionada à zona de mínimo oxigênio do Pacífico, que vem se expandindo ao longo da costa e reduzindo áreas habitáveis para diversas espécies do fundo do mar.
Cientistas alertam que, com menos oxigênio disponível, organismos como vermes comedores de ossos podem desaparecer, alterando a dinâmica de decomposição e prolongando ainda mais a permanência de esqueletos no fundo oceânico.
O novo estudo conclui que um único esqueleto pode sustentar comunidades complexas por décadas, funcionando como um ecossistema completo. Isso também ajuda cientistas a entender melhor o ciclo de carbono no oceano profundo.











