Telescópio encontra quasares mais antigos e desafia teorias

Publicidade

Uma equipe internacional de pesquisadores, que incluiu cientistas da Universidade de Michigan (EUA), utilizou o telescópio espacial Euclid da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) para descobrir 31 dos quasares mais antigos já observados.

Continua após a publicidade

Eles são tão antigos que remontam à chamada era de reionização do Universo, quando as primeiras estrelas, galáxias e buracos negros supermassivos estavam se formando. O estudo foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

“Isso é realmente empolgante”, disse Jinyi Yang, coautora do novo estudo e professora assistente do Departamento de Astronomia da Universidade de Michigan. “Esses quasares luminosos, brilhando lá do fundo da era de reionização, a última grande transição na história do nosso Universo, oferecem informações valiosas sobre como o cosmos emergiu da escuridão e como os primeiros buracos negros supermassivos se formaram.”

O que são quasares?

  • Os quasares estão entre os objetos mais brilhantes e energéticos do Universo e são alimentados por buracos negros supermassivos que devoram matéria no centro das galáxias;
  • Eles têm vida curta se comparados à duração de uma galáxia, mas, nesse momento relativamente breve, os quasares podem brilhar centenas a milhares de vezes mais do que o restante de suas galáxias hospedeiras;
  • Ao encontrar os quasares mais distantes, os astrônomos conseguem aprender mais sobre o universo primitivo. Porém, quasares antigos são raros, pois poucas galáxias tiveram tempo suficiente para crescer o bastante para hospedar um deles. Esses quasares também são difíceis de encontrar, porque sua luz primordial é fraca e facilmente confundida com estrelas.

O Euclid, que iniciou seu levantamento cosmológico em fevereiro de 2024, está inaugurando uma nova era nessa busca, segundo o coautor do estudo Feige Wang, cientista de pesquisa assistente em astronomia da Universidade de Michigan.

“A missão Euclid está mudando completamente o jogo”, disse Wang. “Desses 31 quasares, 12 estão acima do redshift 7, mais do que dobrando todos os quasares conhecidos além do redshift 7.”

O redshift, ou desvio para o vermelho, é uma medida de quanto o comprimento de onda da luz de um objeto astronômico foi esticado devido à expansão do Universo.

A luz que viaja por mais tempo para nos alcançar — isto é, a luz de fontes distantes emitida há muito tempo — terá redshifts maiores. Nesse sentido, observar objetos com altos redshifts permite aos astrônomos olhar para o passado e estudar o universo quando ele era mais jovem, explicou Wang.

Anteriormente, o recorde do quasar mais distante pertencia a um descoberto em 2021 por Wang e Yang, com redshift de 7,64. O novo estudo inclui dois quasares que quebram esse recorde: um com redshift de 7,69 e outro de 7,77. Isso significa que ambos surgiram dentro de 670 milhões de anos após o Big Bang e sua luz levou mais de 13 bilhões de anos para chegar até nós.

Vários quadrados com cada quasar
No centro de cada um dos 15 painéis acima está um dos 31 quasares recém-descobertos. Os dois primeiros quadros incluem os dois quasares mais antigos conhecidos – Imagem: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA; Processamento de imagem pelo Segmento Terrestre Científico do Euclid e Antoine Basset (CNES)

Alcance e profundidade sem precedentes

O que diferencia o Euclid é sua combinação inédita de profundidade e cobertura do céu. Isso permite ao telescópio espacial detectar quasares de dez a 100 vezes mais fracos do que os encontrados em levantamentos anteriores de campo amplo.

Continua após a publicidade

“É uma ferramenta única para caçar quasares”, disse Daming Yang, autor principal do novo estudo e estudante de doutorado na Universidade de Leiden (Holanda). “Antes, só conseguíamos encontrar um punhado dos quasares antigos mais brilhantes, mas o Euclid nos permite buscar de forma muito mais eficiente em grandes áreas do céu para captar luz muito mais fraca.”

Embora o Euclid esteja acelerando a descoberta de candidatos a quasares antigos, os astrônomos também dependem de uma série de outros telescópios e instrumentos para confirmar e caracterizar esses objetos.

Por exemplo, as equipes de Jinyi Yang e Wang, incluindo o pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Michigan Xiangyu Jin, lideraram esforços com os Telescópios Magellan no Observatório Las Campanas, no Chile, para analisar os candidatos a quasares do Euclid. Eles confirmaram dez dos 31 quasares encontrados neste estudo.

Continua após a publicidade

Leia mais:

Próximos passos

Daqui para frente, eles e seus colegas do Consórcio Euclid — composto por 2,6 mil membros de 18 países — continuarão buscando quasares mais antigos e em maior número para responder a perguntas sobre o universo primitivo.

A equipe de Yang investiga como esses primeiros buracos negros supermassivos crescem e impactam a evolução de suas galáxias hospedeiras. A equipe de Wang explora os ambientes em larga escala ao redor desses quasares, examinando seu lugar na teia cósmica de galáxias.

Os quasares recém-descobertos também podem ajudar em ambos os projetos, fornecendo alvos para o Telescópio Extremamente Grande (ELT, na sigla em inglês) quando entrar em operação, previsto para 2029.

Continua após a publicidade

O telescópio de 39 metros será o maior do mundo trabalhando com comprimentos de onda de luz visível e infravermelha, e a Universidade de Michigan é a única universidade dos EUA participando de seu design e construção.

Mapa celeste mostrando a localização dos 31 quasares de alto redshift descobertos pelo Euclid
Este mapa celeste mostra a localização dos 31 quasares de alto redshift descobertos pelo Euclid – Imagem: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA/Planck Collaboration/A. Mellinger, com agradecimentos a J.-C. Cuillandre e J. Dinis

“Queremos responder a perguntas sobre como esses quasares se formaram, como eram os buracos negros que os originaram e como eles cresceram”, disse Yang. “As observações atuais de quasares distantes estão desafiando os modelos existentes de sementes de buracos negros e crescimento inicial. Cada vez que obtemos novas evidências observacionais de novos quasares, conseguimos impor restrições cada vez mais rígidas a esses modelos.”

Continua após a publicidade

E o Euclid terá em breve mais reforços nesta nova era de descobertas de quasares. O Observatório Vera Rubin começou seu levantamento do céu no ano passado a partir do topo de uma montanha no Chile, usando a maior câmera do mundo. E o Telescópio Espacial Roman está previsto para ser lançado em 30 de agosto, com um campo de visão 100 vezes maior do que o do Telescópio Espacial Hubble.

“Basicamente teremos três telescópios de levantamento realmente poderosos no próximo ano, e eles nos permitirão empurrar a fronteira do redshift”, disse Wang. “Chegar ao redshift 9 pode levar alguns anos, mas acho que podemos ver um redshift de 8 muito em breve.”

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Olhar Digital

Compartilhe essa Notícia:

publicidade

publicidade