A próxima disputa do varejo será pela preferência das máquinas

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O e-commerce que conhecemos foi desenhado para um consumidor paciente. Alguém disposto a buscar, comparar, abrir abas, ler avaliações, abandonar carrinhos, receber anúncios e voltar dias depois. Esse consumidor ainda existe, mas sua centralidade começa a ruir. A nova fronteira do varejo digital não será definida apenas por quem atrai mais visitantes, compra mais mídia ou reduz mais atrito no checkout. Será definida por quem consegue ser escolhido por agentes de inteligência artificial capazes de interpretar intenção, comparar alternativas e executar partes cada vez maiores da compra. 

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A mudança parece sutil porque surge dentro de interfaces familiares. O usuário pergunta, recebe opções, confirma uma compra. Mas, por baixo da superfície, o comércio deixa de ser uma sequência de cliques humanos e passa a operar como uma rede de decisões mediadas por sistemas. Em setembro de 2025, a OpenAI anunciou o Instant Checkout no ChatGPT. Começou com vendedores da Etsy nos Estados Unidos e previu integração com mais de um milhão de lojistas da Shopify. Também informou que mais de 700 milhões de pessoas usam o ChatGPT semanalmente. O dado importante vai além do volume de usuários e alcança o deslocamento. A conversa, antes restrita à descoberta, entra no território da transação. 

A diferença entre chatbot e agente, portanto, é menos estética do que executiva. O chatbot responde. O agente persegue um objetivo. Ele pode buscar, comparar, priorizar, acionar ferramentas, registrar preferências, reduzir opções e encaminhar uma decisão. No e-commerce, isso muda a natureza da competição. A marca não fala mais apenas com uma pessoa sujeita a impulso, status, layout e repetição publicitária. Ela passa a ser avaliada por um intermediário que tende a decompor a oferta em preço, prazo, disponibilidade, reputação, avaliações, política de devolução e adequação ao pedido. 

É por isso que a inteligência artificial no varejo não deve ser tratada como uma camada de atendimento. Segundo a McKinsey, 88% dos respondentes em sua pesquisa global disseram que suas organizações já usam IA regularmente em pelo menos uma função. Há adoção suficiente para criar pressão competitiva, mas maturidade insuficiente para transformar processos. A empresa que confunde uso pontual com capacidade instalada pode se sentir moderna enquanto permanece operacionalmente lenta. 

No varejo, essa distância entre entusiasmo e execução fica ainda mais crítica. A Salesforce, em levantamento com 8.350 consumidores e 1.700 decisores do varejo em 21 países, afirma que 75% dos varejistas consideram agentes de IA essenciais para competir dentro de um ano. Diz também que 39% dos consumidores e 54% da geração Z já usam IA para descoberta de produtos, e que 63% da geração Z demonstra interesse em agentes comprando itens em seu nome. Aponta uma mudança comportamental difícil de ignorar, pois parte relevante dos consumidores já aceita a IA como filtro de compra. 

Agentes podem resolver dúvidas complexas, acompanhar pedidos, processar devoluções, sugerir combinações de produtos, ajustar ofertas, identificar rupturas de estoque, monitorar concorrentes e acionar fluxos logísticos. Mas o impacto mais profundo é menos visível, pois eles comprimem a jornada. Se o consumidor delega comparação e triagem, desaparecem etapas em que marcas e varejistas costumavam influenciar a escolha. Menos navegação significa menor exposição a banners, a vitrines percorridas, a pageviews e a oportunidades de persuasão. Para o retail media, a pergunta incômoda é simples. O que acontece com um modelo baseado em atenção quando a atenção é substituída por delegação? 

A objeção séria é que agentes ainda erram, dependem de permissões, enfrentam barreiras de integração e podem gerar riscos de privacidade, fraude, discriminação, manipulação ou opacidade. Essa objeção procede. O erro está em concluir que, por serem imperfeitos, eles permanecerão periféricos. Toda infraestrutura estratégica começa limitada, cara, incompleta e sujeita a governança. O que separa líderes de retardatários não é a ausência de cautela; é a capacidade de transformar cautela em método, com métricas, responsáveis, limites, auditoria e integração real aos sistemas do negócio. 

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Agentes de IA não devem ser avaliados apenas como redução de custo. O ganho real está em redesenhar a decisão comercial. A próxima vantagem competitiva virá da capacidade de tornar dados, processos, pagamentos, atendimento, catálogo e governança legíveis para agentes. A loja que não puder ser compreendida por eles será invisível em parte crescente da decisão. A marca que depender apenas de seduzir olhos humanos descobrirá que a nova vitrine talvez não tenha tela, banner ou corredor. Terá critérios. 

O varejo digital foi construído para disputar atenção. O comércio agêntico será elaborado para disputar confiança, contexto e execução. A questão não é se agentes de IA substituirão o consumidor. O consumidor continuará decidindo o que importa, mas delegará cada vez mais o trabalho de chegar até lá. E, quando a delegação virar hábito, a empresa que ainda estiver otimizando apenas cliques perceberá tarde demais que perdeu o momento decisivo da compra. Não o pagamento, o anúncio ou a visita ao site. Mas sim o instante crucial em que uma máquina escolheu quais marcas mereciam ser vistas. 

Norberto Maraschin Filho

Norberto Maraschin Filho

Vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia

Olhar Digital

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