Linhagens “fantasma” deixaram DNA no genoma humano

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Um novo método de análise genômica revelou traços de duas linhagens extintas de humanos arcaicos preservadas no DNA de pessoas vivas hoje. O estudo foi publicado nesta quinta-feira (30) na revista Science e conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).

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Uma das linhagens deixou material genético em todos os seres humanos modernos. A outra, classificada como “super-arcaica”, remonta a quase dois milhões de anos.

“Essas populações extintas podem ter vivido centenas de milhares — ou até mais de um milhão — de anos atrás, mas traços de seu legado genético permanecem preservados em nossos genomas hoje”, disse, ao Live Science, Priya Moorjani, geneticista evolutiva da UC Berkeley e coautora do estudo.

O método e o que ele encontrou

Os pesquisadores desenvolveram uma técnica para escanear e comparar mais de 500 genomas completos de humanos modernos de diferentes partes do mundo. Com esses dados, reconstruíram as genealogias completas de cada trecho do genoma de cada pessoa, mapeando todas as vezes em que linhagens genéticas divergiram e se fundiram.

O foco foi em ancestrais com diferenças genéticas profundas em relação aos humanos modernos — um indicativo de que se separaram da linhagem humana há muito tempo.

Diferentemente de abordagens anteriores, o novo método não exige amostras de DNA de fósseis para identificar sequências genéticas antigas no genoma humano moderno.

“Não precisamos mais esperar por uma preservação fóssil extraordinária para aprender sobre populações humanas extintas”, disse Moorjani. “Os genomas das pessoas vivas contêm traços desses ancestrais antigos, e métodos genealógicos nos permitem recuperar parte dessa história oculta.”

A técnica foi testada experimentalmente e identificou corretamente ancestrais neandertais e denisovanos em genomas humanos modernos — além de revelar casos até então desconhecidos de cruzamento com grupos extintos.

O artigo cita ainda o contexto mais amplo que motivou a pesquisa: a maioria das pessoas sem ancestralidade subsaariana carrega entre 1% e 2,4% de DNA neandertal, enquanto asiáticos e oceânicos possuem entre 0,1% e 6% de DNA denisovano. A escassez de amostras de DNA antigo, no entanto, dificultava identificar outras linhagens extintas com as quais o Homo sapiens possa ter se cruzado.

Cadeia do DNA sendo selecionada e editada por um pesquisador
Pesquisadores desenvolveram uma técnica para escanear e comparar mais de 500 genomas completos de humanos modernos de diferentes partes do mundo – Imagem: ART STOCK CREATIVE/Shutterstock

Linhagem presente em todos os humanos modernos

  • O DNA da primeira linhagem fantasma foi encontrado em todos os humanos modernos, o que indica que esse grupo se cruzou com o Homo sapiens na África há mais de 50 mil anos — antes da migração mais recente da espécie para fora do continente africano;
  • Esse material genético corresponde a cerca de 0,5% a 1% do genoma dos humanos modernos, proporção comparável à quantidade de DNA neandertal presente em muitas pessoas vivas hoje;
  • Os cientistas estimaram que essa linhagem fantasma divergiu dos ancestrais dos humanos modernos há cerca de 800 mil anos, aproximadamente no mesmo período em que neandertais e denisovanos também se separaram.

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“Publicações anteriores sugeriram que poderia haver ancestralidade fantasma em humanos modernos, mas não haviam concluído se essa ancestralidade desconhecida estava presente apenas em africanos ou não, e quando esse evento de introgressão ocorreu”, disse Yulin Zhang, biólogo computacional da UC Berkeley e coautor do estudo.

“Conseguimos encontrar e mapear localizações genômicas em humanos modernos que vêm dessa linhagem fantasma e mostrar que essa ancestralidade está em todos os humanos modernos, não apenas em africanos.”

Um possível candidato para essa linhagem é o Homo heidelbergensis, espécie que viveu entre cerca de 700 mil e 200 mil anos atrás na África e na Europa, segundo os autores do estudo.

Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres que não participou da pesquisa, disse concordar com essa especulação, apontando que o H. heidelbergensis estava presente na África há pelo menos 300 mil anos.

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Linhagem super-arcaica e os povos da Oceania

Os pesquisadores também encontraram evidências de que populações da Oceania herdaram traços de uma linhagem humana “super-arcaica” que divergiu dos ancestrais dos humanos modernos há cerca de 1,8 milhão de anos — antes do surgimento do ancestral comum de humanos modernos, neandertais e denisovanos.

Esse DNA super-arcaico representa, em média, cerca de 0,002% dos genomas oceânicos analisados e aparece dentro de regiões de DNA denisovano, o que indica que chegou aos humanos modernos por meio de cruzamento com denisovanos.

A idade desse DNA super-arcaico levou Fernando Villanea, geneticista populacional da Universidade do Colorado Boulder (EUA), que não participou do estudo, a sugerir que ele pode ter chegado aos denisovanos — e depois aos humanos modernos — a partir do Homo erectus.

Villanea acrescentou que crânios de H. erectus encontrados em Yunxian (China), compartilham algumas características com fósseis denisovanos, mas ressaltou que, até o momento, apenas uma quantidade limitada de material genético de H. erectus foi analisada.

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Os achados reforçam, segundo Villanea, que “a hibridização é a norma e não a exceção” na evolução humana e ajudam a reformular o pensamento científico para afastá-lo de uma mentalidade de excepcionalismo humano. Os estudos da espécie mostram que “somos o produto de múltiplas espécies”, disse ele.

Distribuição no genoma e próximos passos

Os segmentos de DNA dessas linhagens estão distribuídos por todo o genoma humano, mas são mais numerosos em regiões associadas ao sistema imunológico e à função metabólica.

Moorjani disse que isso faz sentido, pois a necessidade de adaptação a novos patógenos e fontes de alimento foi um dos principais motores da evolução humana — e que o cruzamento com grupos extintos permitiu aos humanos modernos adquirir DNA potencialmente benéfico.

Stringer avaliou que a nova técnica oferece “formas indiretas de reconstruir partes dos genomas de espécies mais primitivas, como o H. erectus e o H. heidelbergensis“. No futuro, os cientistas pretendem usar o método para detectar mais linhagens fantasma, especialmente em regiões, como África e Sul da Ásia, que permanecem sub-representadas nos estudos de DNA antigo.

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Moorjani também apontou que a técnica pode ajudar pesquisadores a estudar a história evolutiva de outras espécies nas quais o DNA fóssil é escasso ou inexistente. “Em vez de uma árvore genealógica simples, a história humana está emergindo cada vez mais como uma teia complexa de populações conectadas por episódios repetidos de divergência, migração e mistura”, disse Moorjani.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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