O cultivo de sorgo pode ocupar cerca de 200 mil hectares no Tocantins na próxima temporada, impulsionado pela organização da cadeia comercial e pela abertura do mercado chinês ao cereal brasileiro. Se a projeção do setor produtivo se confirmar e a produtividade permanecer próxima de três toneladas por hectare, o Estado terá potencial para colher aproximadamente 600 mil toneladas — mais de três vezes o volume estimado para a safra atual.
A produção tocantinense de sorgo foi estimada em 180 mil toneladas em 2025/26, crescimento de 22,9% sobre o ciclo anterior. O volume ainda representa pouco mais de 2% da safra nacional, mas mostra que a cultura começa a ganhar espaço no planejamento das propriedades, principalmente nas áreas cultivadas depois da colheita da soja.
No Brasil, o sorgo vive uma expansão mais ampla. A produção deve alcançar o recorde de 7,62 milhões de toneladas nesta temporada, avanço de quase 25%, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. A área cultivada cresceu 31,8%, para 2,15 milhões de hectares, enquanto a produtividade média nacional foi calculada em 3.542 quilos por hectare. Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia e São Paulo lideram a produção.
O avanço coloca o Tocantins diante da possibilidade de aumentar sua participação nesse mercado. A cultura apresenta ciclo relativamente curto e suporta melhor períodos de restrição hídrica do que o milho, característica importante para o cultivo de segunda safra. O sorgo pode ser destinado à fabricação de rações para aves, suínos e bovinos, à produção de silagem, ao processamento industrial e, mais recentemente, às exportações.
A temporada de 2026, porém, mostrou que a resistência à seca não elimina os riscos climáticos. O atraso na implantação de parte das lavouras empurrou o desenvolvimento das plantas para um período de menor disponibilidade de chuva. As áreas semeadas mais cedo apresentaram resultados melhores, enquanto talhões tardios sofreram durante o enchimento dos grãos.
A colheita está praticamente encerrada no Estado, com produtividade média próxima de três mil quilos por hectare, segundo estimativa da Aprosoja Tocantins. O rendimento ficou abaixo da média nacional, mas não interrompeu o movimento de expansão da cultura, especialmente no sul tocantinense.
A principal mudança para os próximos ciclos está no mercado. A China autorizou a compra do sorgo brasileiro em setembro de 2025 e recebeu o primeiro carregamento no início de 2026. O país asiático responde por aproximadamente 80% das importações mundiais do cereal, enquanto Estados Unidos, Austrália e Argentina dominam atualmente as vendas internacionais.
O comércio exterior brasileiro ainda é pequeno e irregular. O país exportou somente 105 toneladas em 2025, depois de ter embarcado 178,4 mil toneladas em 2024. A habilitação chinesa, portanto, representa mais uma perspectiva de expansão do que um mercado já consolidado.
Para o Tocantins, a proximidade com a Ferrovia Norte-Sul e com os corredores de exportação do Arco Norte pode favorecer a formação de cargas destinadas ao exterior. O aproveitamento dessa oportunidade dependerá, contudo, da oferta de volumes regulares, padronização dos grãos, armazenagem, contratos de comercialização e preços capazes de competir com o milho.
Caso alcance os 200 mil hectares projetados, o sorgo deixará definitivamente a condição de cultura complementar para assumir maior peso na agricultura tocantinense. Além de oferecer uma segunda opção de renda depois da soja, poderá ampliar o aproveitamento das áreas agrícolas, fortalecer a produção regional de ração e inserir o Estado em uma cadeia exportadora que começa a ser estruturada no país.












