Think outside the bot

Publicidade

Passamos décadas sendo mandados pensar fora da caixa. Agora a caixa pensa sozinha, responde em segundos — e acha todas as suas ideias ótimas. Talvez seja hora de desconfiar do elogio.

Continua após a publicidade

Passei semanas pensando em como estrear esta coluna. Testei aberturas, descartei teses, escrevi e joguei fora. Em algum momento de fraqueza, fiz o que todo mundo faz em 2026: perguntei para a inteligência artificial.

Ela achou todas as minhas ideias excelentes. Todas. A ruim, a mediana e as mais absurdas.

Foi aí que percebi que eu tinha um problema. E um tema.

A resposta veio dias depois, do outro lado do mundo. Eu estava em Nova York, em frente à Times Square, tomando um chá gelado do Starbucks da China — a história desse lugar merece um artigo próprio, fica a promessa — olhando os telões sem olhar de verdade, do jeito que a gente olha publicidade. Até que li: think outside the box.

Só que li errado.

O anúncio dizia think outside the bot.

Alguém tinha pagado pelo espaço publicitário mais caro do planeta para anunciar contra o bot. E meu erro de leitura contava a história inteira. Passamos décadas sendo cobrados a pensar fora da caixa — o mantra de todo workshop de inovação, toda dinâmica com post-it; confesso que também tenho um slide com essa frase. Era o que separava os criativos dos executores.

Hoje, pensar fora da caixa virou commodity. A IA faz isso por você, em segundos, sem post-it e sem coffee break. Peça vinte ideias não óbvias sobre qualquer assunto e receba vinte e cinco. O que era escasso ficou abundante — e o que fica escasso quando a criatividade barata inunda o mercado?

Pensar fora do bot.

O superpoder que ninguém confere

O discurso do momento você já ouviu, provavelmente hoje: agora todo mundo tem superpoderes. Todo mundo virou advogado, contador, programador, nutricionista. Basta pedir. A expertise foi “democratizada”, dizem os entusiastas, geralmente vendendo um curso.

Eu convivo com esse discurso pelos dois lados — trabalho com IA em produção e formo profissionais há mais de vinte anos. E de onde eu vejo, o filme é outro.

Conheço quem gerou o próprio contrato com IA. Ficou bonito: cláusulas numeradas, juridiquês convincente, cara de documento sério. Bonito não é o mesmo que certo. A diferença apareceu — como sempre aparece — na pior hora possível, quando o contrato precisou ser executado e faltava exatamente o que um advogado de verdade teria colocado. E agora? Culpamos quem?

Em todos os casos assim, um detalhe se repete: ninguém mostrou o resultado para um especialista humano antes. Não por economia. Por convicção. A IA já tinha confirmado que estava ótimo.

Aqui está a linha que separa o ganho real da ilusão: a IA estende o superpoder que você já tem. Ela não concede superpoderes em assuntos que você nunca estudou.

O advogado que passou anos estudando direito voa com IA. Produz em uma tarde o que levava uma semana — não porque a ferramenta dele é melhor que a sua, é a mesma, mas porque ele sabe o que pedir e reconhece o erro quando ele chega disfarçado de parágrafo bem escrito. O leigo, com a mesma ferramenta, recebe um documento com cara de profissional e nenhuma capacidade de julgá-lo.

A ferramenta é a mesma. O multiplicador é você. E multiplicador de zero segue sendo zero — só que agora com acabamento premium.

O espelho que sorri de volta

Continua após a publicidade

O detalhe mais incômodo eu não li em relatório de consultoria. Vivi, construindo sistemas com IA no dia a dia.

Estou desenvolvendo uma plataforma, o trabalho fluindo, e pergunto: “espera — não seria melhor versionar esses fontes no GitHub?”

“Ótima ideia! Você tem razão.”

Semanas depois: “não deveríamos ter uma rotina de backup do banco?”

“Verdade! Deveríamos.”

Espera um pouco. Versionamento e backup não são ideias geniais minhas. São o feijão com arroz de qualquer operação de tecnologia. A IA conhece essas práticas melhor do que qualquer manual. Ela sabia. E não ofereceu. Só aplaudiu quando eu levantei a mão.

Esse é o mecanismo que ninguém coloca no anúncio: a IA não te entrega o que você precisa. Ela te entrega o que você soube pedir — e ainda te parabeniza pela diferença. Quem sabe perguntar, recebe. Quem não sabe, recebe um resultado incompleto, um elogio caloroso e a nítida sensação de estar indo muito bem.

Continua após a publicidade

A IA é um espelho que sorri de volta.

Junte as peças: quem não domina o assunto não sabe o que pedir, não recebe o que não pediu, não percebe o que faltou — e sai da conversa com a autoestima renovada, porque cada mensagem veio com um “excelente pergunta!”. É o ciclo perfeito da incompetência confiante — agora disponível por assinatura mensal.

Acha exagero? Um teste: leve a mesma pergunta a três IAs diferentes.

Receberá três respostas diferentes, cada uma com a mesma convicção serena.

Se até as máquinas discordam entre si, alguma está errada. Com médico, diante de um diagnóstico importante, você pede segunda opinião. Com IA, aceita a primeira — porque veio rápida, bonita e concordando com você.

Repare no critério: não aceitamos a resposta porque está certa. Aceitamos porque é agradável.

Pensar fora do bot não é abandonar a ferramenta — quem escreve isto usa IA todos os dias e a defende em reunião de diretoria. É se recusar a terceirizar o julgamento. É ser, na conversa com a máquina, quem ainda pergunta: por quê? E se estiver errado? O que você não está me dizendo? É tratar a resposta da IA como um advogado trata a minuta do estagiário brilhante: ponto de partida, nunca palavra final.

Continua após a publicidade

O paradoxo da era agêntica talvez seja esse: quanto mais a inteligência fica artificial, mais valioso fica o que ela não faz — discordar de você quando você precisa, saber o que não foi perguntado, assumir a decisão às três da manhã, quando o sistema cai e alguém precisa escolher o que fazer.

É nessa fronteira que esta coluna vai viver: entre a tecnologia que impressiona na demonstração e a que precisa funcionar na operação. Entre o hype e a segunda-feira de manhã. Entre o código e o conselho.


Eduardo Endo

Tecnologia nunca foi apenas sobre máquinas, códigos ou tendências. Sempre foi sobre pessoas.

Minha carreira começou há algumas décadas, quando Inteligência Artificial ainda parecia assunto de filme — e eu decidi fazer um mestrado na área mesmo sem saber exatamente onde aquilo nos levaria. Para ser honesto, naquela época ninguém sabia. Talvez ainda não saiba.

Continua após a publicidade

Desde então, construí minha trajetória transitando entre dois mundos que deveriam conversar mais: o corporativo e o acadêmico. Trabalhei, ensinei, aprendi, errei, recomecei e continuei estudando. Passei por instituições como Harvard, Babson, Kellogg, Nova School of Business and Economics e FGV.

Palestrei em eventos no Brasil e pelo mundo, incluindo o SXSW. Mas nenhum diploma, palco ou cargo ensina tanto quanto a vida real.

Cheguei a uma fase em que acumular conhecimento já não basta. É preciso compartilhá-lo.

Esta coluna nasce com essa missão: falar sobre tecnologia, carreira, educação, liderança e transformação sem esconder os bastidores. Trazer as dúvidas, os erros, os conflitos e a vida como ela realmente é — não como aparece nos posts perfeitamente editados.

Muitos vão concordar comigo. Muitos vão discordar.

O que vou escrever aqui é a verdade?

Não.

É a minha verdade.

E talvez ela ajude você a questionar a sua.

!function(f,b,e,v,n,t,s){
if(f.fbq)return;
n=f.fbq=function(){n.callMethod?n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)
}(window, document,’script’, ‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘1221644929160171’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);

Olhar Digital

Compartilhe essa Notícia:

publicidade

publicidade

plugins premium WordPress