Trump, Xi, Musk, Altman, Zuckerberg… jantar na Casa Branca reúne quem dita o futuro da tecnologia

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Como escrevi recentemente na coluna Primeiro Olhar, tecnologia e poder estão cada vez mais associados. E o jantar de gala na Casa Branca ilustra muito bem o momento que vivemos.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofereceu um jantar de Estado ao presidente da China, Xi Jinping. O evento marcou o fim do segundo dia de visita oficial do líder de Pequim a Washington. Alguns dos principais nomes da tecnologia marcaram presença, como veremos nas linhas a seguir.

Durante a tarde desta quinta-feira (24), os dois presidentes se reuniram para tratar de um pouco de tudo: de pandas chegando ao zoológico de Atlanta a inteligência artificial.

Xi e Trump: visões distintas sobre IA

Como noticiamos ontem, Trump e Xi parecem ter caminhos diferentes para o futuro das IAs.

Trump tinha dito que inteligência artificial – ou superinteligência, como ele vem chamando a tecnologia – seria um dos principais temas da reunião:

“Um dia importante com o Presidente Xi, da China. A Superinteligência artificial (SI) será um grande tema de discussão, mas quero deixá-la exatamente onde está. Essa também é a posição da China. Nossa salvaguarda é o Departamento de Justiça!”, declarou.

Na ONU, lembrando, Trump afirmou que os Estados Unidos “rejeitam totalmente” qualquer tentativa de construir um sistema global para controlar a inteligência artificial. Para ele, o desenvolvimento da tecnologia deve continuar, ainda que acompanhado de mecanismos para lidar com eventuais problemas.

Ao falar sobre a disputa tecnológica, Trump afirmou que os Estados Unidos atualmente lideram a área de “superinteligência” e continuarão nessa posição. “Quem vencer a SI, quem vencer a superinteligência, vence”, declarou.

O presidente também disse que os Estados Unidos estão à frente da China “por muito” e que seu governo pretende manter essa vantagem.

Do outro lado…

Xi Jinping não discursará na ONU e enviou um representante do governo chinês, priorizando o encontro com Trump.

Em discurso na Casa Branca, o líder chinês mencionou a importância de garantir que a IA “esteja sempre sob controle humano”.

“Temos tanto a capacidade quanto a responsabilidade de desenvolver e gerir a IA para o bem e garantir que o desenvolvimento da IA ​​permaneça sempre sob controle humano e sirva ao bem-estar das pessoas” – disse Xi.

O presidente chinês também disse entender que “tanto a China quanto os Estados Unidos são nações líderes em inteligência artificial”.

A imprensa estatal chinesa divulgou um comunicado depois trazendo mais detalhes da visão de Xi.

O presidente chinês disse que, apesar da competição no setor, os dois países “têm ainda mais motivos para cooperar”.

De acordo com a nota, em suas conversas com o presidente dos EUA, Xi observou que, “como ambos os países são importantes na área de IA, os dois lados devem aproveitar seus respectivos pontos fortes em IA, em vez de se protegerem um do outro”.

Xi afirmou, ainda segundo a agência Xinhua, que os dois lados podem continuar dialogando sobre IA, trocar opiniões sobre seus riscos e benefícios e trabalhar juntos para evitar o uso indevido e o abuso da IA.

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Os ministros das finanças dos dois países se reuniram no início desta semana. Os EUA propuseram um novo “mecanismo de notificação” para incidentes de IA entre as duas nações.

China e EUA ainda administram uma trégua comercial considerada frágil. Segundo as informações fornecidas, os governos haviam concordado em ampliar por dois meses a duração da atual trégua comercial, que passaria a vigorar até 10 de janeiro.

Taiwan

O comunicado chinês ainda informa que Xi Jinping enfatizou que a posição de Pequim sobre “a salvaguarda da reunificação nacional e da integridade territorial é clara e inequívoca”.

“Xi espera que os Estados Unidos mantenham a posição correta de se opor à ‘independência de Taiwan’ e lidem com a questão taiwanesa com cautela, a fim de estabelecer uma base sólida para a cooperação estratégica entre a China e os EUA e o desenvolvimento das relações bilaterais” – traz a nota.

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Vale lembrar:

Os Estados Unidos ocupam posição central no design de chips semicondutores e no desenvolvimento de softwares e tecnologias essenciais para o setor. Também concentram empresas importantes no avanço de áreas estratégicas, como inteligência artificial.

Já a produção dos chips mais avançados está concentrada principalmente na Ásia. Mais precisamente, em Taiwan. Mais precisamente ainda, na Taiwan Semiconductor Manufacturing Company Limited – ou TSMC.

Taiwan se consolidou como o principal polo global nesse segmento. A TSMC, maior fabricante de semicondutores do mundo, é responsável por uma parcela significativa da produção de chips mais avançados.

Essa concentração tem implicações diretas na geopolítica. A posição de Taiwan, próxima à China e em um contexto de tensões regionais, faz com que qualquer instabilidade na região seja vista como um risco global para a cadeia de tecnologia.

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Nos últimos anos, o governo americano adotou restrições para limitar o acesso chinês a tecnologias avançadas, especialmente equipamentos e softwares usados na produção de chips de ponta.

Esse cenário marcou uma virada: o que antes era uma disputa comercial passou a ser tratado como questão estratégica. A partir daí, governos passaram a considerar os semicondutores como tema de segurança nacional, com políticas industriais mais agressivas e iniciativas voltadas a reduzir a dependência externa.

Agora sim, o jantar

xi jantar
Xi Jinping discursa em jantar oferecido por Donald Trump. Executivos de grandes empresas de tecnologia estavam presentes. – Foto: (Xinhua/Liu Bin)

A lista de convidados incluiu executivos de gigantes da tecnologia. Entre eles estavam Jensen Huang, da Nvidia; Mark Zuckerberg, da Meta; Sundar Pichai, do Google; Tim Cook, da Apple; Sam Altman, da OpenAI; Elon Musk, da Tesla/SpaceXAI/X, e Jeff Bezos, fundador da Amazon.

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As companhias estão envolvidas diretamente no desenvolvimento de chips, sistemas de inteligência artificial, plataformas digitais e infraestrutura tecnológica.

A cena me lembra um pouco os filmes do 007: adversários declarados e rivais históricos usando roupa de gala como se nada tivesse acontecendo nos bastidores.

Vamos recapitular?

Entre abril e julho, falhas de segurança fizeram com que modelos de IA escapassem de ambientes de teste e atacassem servidores. No início de setembro, cientistas fizeram novos alertas sobre os riscos da tecnologia, com pesquisadores chegando a pedir demissão. Chegou-se a falar nas IAs destruindo a humanidade… Em 12 de setembro, o debate chegou aos líderes da indústria: parte dos CEOs passou a defender um freio no avanço da IA, enquanto outros discordaram da proposta.

A gente contou essa história muito bem contada neste vídeo. Aqui vai um resumo:

  • O CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um artigo no dia 12 de setembro admitindo que o desenvolvimento de modelos de IA está rápido demais por conta do “autoaperfeiçoamento recursivo”, ou seja, sistemas de IA impulsionando cada vez mais o próprio desenvolvimento. Por isso, o executivo propôs a desaceleração coordenada entre empresas do setor.
  • Nos dias seguintes, os CEOs Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da SpaceXAI, e o ex-CEO do Google DeepMind Demis Hassabis concordaram com o artigo assinado por Amodei.
  • Os CEOs Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, se posicionaram contra a desaceleração coordenada. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos de sobra para construir IAs seguras por conta própria. E Huang declarou que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já cobrem a confiabilidade dos produtos.
  • O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump minimizou os possíveis riscos puxados pela IA. E defendeu que os EUA mantenham a liderança sobre a China. Para a administração do republicano, manter a liderança tecnológica é uma questão de segurança nacional. 
  • Pequim respondeu ao artigo do CEO da Anthropic de maneira contundente. Por meio de um editorial do jornal estatal Global Times, o país asiático disse que a intenção por trás do ensaio de Amodei seria criar um “manual da Guerra Fria” voltado a conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. 
  • No texto, o veículo de comunicação chinês ainda classificou a postura dos executivos americanos como “hipócrita e míope”, argumentando que excluir a China da inovação global em IA aumentaria os riscos de perda de controle sobre a própria tecnologia.

E não para por aqui.

Em julho, noticiamos que a China acusou empresas americanas de inteligência artificial de usar modelos chineses em processos de treinamento. O caso envolve a técnica de destilação de modelos e aumentou a tensão entre os dois países na corrida pelo domínio da IA.

Autoridades dos EUA também investigam companhias chinesas por suposto uso indevido de tecnologias americanas, colocando propriedade intelectual no centro do debate.

Ah! E caso você tenha curiosidade no cardápio do jantar que concentra uma fatia considerável do PIB global, aqui vai:

  • Entrada: velouté de abóbora amarela com cogumelos silvestres, ervas frescas, pancetta crocante e um fio de azeite de cebolinha.
  • Prato principal: robalo com crosta de gergelim, acompanhado de bok choy refogado, berinjela assada e molho verde.
  • Sobremesa: creme de baunilha com cereja ácida confitada e frangipane de nozes, além de sorvete com mel das colmeias da Casa Branca.

O menu, segundo um comunicado, traz ingredientes americanos, com uma “sutil influência chinesa”.

Bruno Capozzi

Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

Olhar Digital

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