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Um grupo de 13 parlamentares dos Estados Unidos enviou uma carta ao presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, cobrando explicações sobre denúncias de tratamento desigual às campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas plataformas da empresa durante as eleições brasileiras de 2026.
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O documento foi enviado nesta quinta-feira (22), três dias antes do segundo turno da disputa presidencial, marcado para domingo (25). Os congressistas querem saber se mecanismos de moderação, recomendação de conteúdo e inteligência artificial (IA) da Meta prejudicaram publicações relacionadas à campanha de Lula ou favoreceram conteúdos ligados ao adversário.
A iniciativa ocorre após uma sequência de denúncias sobre restrições a perfis e anúncios políticos, diferenças no comportamento da IA da empresa e possíveis falhas na distribuição de publicações. A Meta nega favorecer qualquer candidato e atribui os episódios relatados a problemas técnicos e erros não intencionais.
Os parlamentares solicitaram reunião com representantes da companhia para sexta-feira (23) e estabeleceram 4 de novembro como prazo para o envio de respostas por escrito.
O que os congressistas querem saber?
- A carta questiona quais regras orientam a moderação de conteúdo político durante eleições realizadas fora dos Estados Unidos e se houve comunicação entre a Meta e integrantes do governo de Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro, a regulação das plataformas ou as eleições de 2026;
- Os parlamentares também querem explicações sobre quando a empresa identificou possíveis diferenças de tratamento entre as candidaturas e quais medidas adotou para corrigir os problemas;
- Outro ponto é o acesso de auditores independentes aos dados internos da companhia. O grupo quer saber se especialistas externos poderão examinar informações sobre moderação, recomendação e distribuição de conteúdo político para verificar se as regras foram aplicadas de maneira equivalente às duas campanhas;
- A carta ainda questiona o funcionamento do sistema de revisão humana anunciado pela Meta. Pelo mecanismo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), restrições automatizadas aplicadas às contas de anúncios das campanhas presidenciais devem passar por análise humana em até duas horas;
- Os congressistas argumentam que empresas de tecnologia têm responsabilidade na preservação de condições equilibradas para a participação política, especialmente quando seus sistemas influenciam a circulação de informações durante eleições.
Restrições atingiram anúncios da campanha de Lula
Entre os episódios mencionados está a desativação da conta de anúncios de Lula no Facebook em 23 de setembro, 11 dias antes do primeiro turno. A campanha também enfrentou limitações que impediram o impulsionamento de publicações no Instagram por quase 24 horas, entre 9 e 10 de outubro.
Segundo a campanha petista, o bloqueio no Instagram comprometeu o alcance potencial de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas.
Reportagens da Folha de S.Paulo também revelaram mensagens internas da Meta nas quais funcionários reconheceram que restrições haviam prejudicado contas de Lula. Os registros mencionados pelo jornal apontaram ainda recomendações do perfil de Flávio Bolsonaro e de um canal de WhatsApp associado à candidatura.
A empresa contestou a interpretação de que os episódios representariam favorecimento político deliberado. A Meta afirma que os problemas tiveram causas técnicas distintas e que seus sistemas não são projetados para distribuir conteúdo com base em ideologia política.
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A ferramenta de IA da empresa também entrou na discussão. Testes e relatos de usuários apontaram diferenças na geração de imagens eleitorais: a Meta AI teria recusado alguns pedidos relacionados a Lula, enquanto atendia solicitações semelhantes envolvendo Flávio.
A empresa informou ter adotado medidas para corrigir o problema e garantir tratamento igual às duas candidaturas.
TSE elevou multa e exigiu tratamento igualitário
A controvérsia também chegou à Justiça Eleitoral brasileira. Após reclamações da campanha de Lula, o TSE determinou que a Meta assegurasse tratamento isonômico às duas candidaturas na distribuição e recomendação de conteúdos políticos.
Na semana anterior, o tribunal havia aplicado uma multa à empresa e estabelecido medidas para impedir restrições discriminatórias. Quatro dias depois, a penalidade foi elevada diante da cobrança por comprovação do cumprimento da decisão.
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Em resposta enviada à Corte em 20 de outubro, a Meta afirmou ter concluído a implementação de 17 medidas para atender às determinações. Entre elas está a revisão humana de restrições aplicadas automaticamente às contas de anúncios das campanhas.
A companhia também declarou que conteúdos relacionados às duas candidaturas são tratados de forma igualitária e não discriminatória.
A decisão judicial estabelece que a empresa não pode reduzir a distribuição, excluir da recomendação ou restringir a busca de conteúdos eleitorais de uma candidatura em relação à outra, salvo nas exceções previstas na própria decisão, como regras previamente divulgadas e aplicadas de forma idêntica.

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Conselho de Supervisão também apontou falhas
A pressão sobre a Meta não vem apenas dos parlamentares estadunidenses. Em 20 de outubro, o Conselho de Supervisão da empresa apontou falhas recorrentes na aplicação das regras de integridade eleitoral no Brasil.
O órgão criticou tanto o excesso de rigor, que pode suprimir manifestações políticas legítimas, quanto a aplicação insuficiente das regras, que pode comprometer a integridade do processo eleitoral.
Um dos exemplos citados foi a aplicação excessivamente rigorosa de políticas antifraude às contas de anúncios de Lula. Para o conselho, o episódio deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas responsável por analisar casos dessa natureza.
O colegiado também cobrou indicadores públicos que permitam avaliar de maneira transparente a eficácia das medidas de proteção eleitoral e identificar suas principais deficiências.
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Em paralelo, especialistas independentes vinculados a mecanismos da Organização das Nações Unidas (ONU) questionaram se os sistemas de moderação, recomendação e IA da Meta restringiram de forma desproporcional conteúdos relacionados a um dos lados da disputa brasileira.
As manifestações ampliam a pressão para que a companhia explique como suas ferramentas funcionam e demonstre que as regras são aplicadas de maneira consistente.
Entidades também pediram investigação nos EUA
A carta dos 13 parlamentares foi precedida por uma iniciativa de organizações da sociedade civil que pediram ao Congresso estadunidense uma investigação sobre a atuação da Meta nas eleições brasileiras.
Em documento enviado em 20 de outubro, cinco organizações solicitaram esclarecimentos técnicos e a preservação de registros internos relacionados à moderação, à distribuição de publicações e à veiculação de anúncios políticos.
Entre os dados apresentados está um levantamento do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou pelo menos 1.613 anúncios político-eleitorais irregulares pagos em moeda estrangeira nas plataformas da Meta entre julho e setembro de 2026.
Segundo o levantamento, as publicações movimentaram aproximadamente R$ 2 milhões e acumularam 171,1 milhões de impressões. Entre os anúncios cuja origem pôde ser identificada, 98,1% indicavam os Estados Unidos.
As organizações defenderam auditorias independentes e maior transparência sobre os mecanismos usados pela empresa para identificar propaganda eleitoral irregular e aplicar suas políticas.
A Meta nega interferência eleitoral e afirma que trata as candidaturas de forma igualitária. Os questionamentos dos parlamentares estadunidenses, do Conselho de Supervisão e de organizações da sociedade civil, porém, ampliam a cobrança por explicações sobre o funcionamento dos sistemas da empresa em momento decisivo da eleição brasileira.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.












