A dependência de fertilizantes importados custou ao Brasil aproximadamente R$ 77,3 bilhões em 2025, quando o país comprou 45,5 milhões de toneladas desses insumos no exterior. Diante de uma despesa que pesa diretamente no custo das lavouras, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram uma tecnologia capaz de transformar resíduos do tratamento de água em fertilizantes de liberação lenta, com potencial para melhorar o aproveitamento de nutrientes e reduzir parte da necessidade de adubação convencional.
Os números do comércio exterior mostram o tamanho do desafio. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 28,4 milhões de toneladas de fertilizantes químicos, desembolsando o equivalente a R$ 55,8 bilhões, pelo câmbio de referência de R$ 5 por dólar. Embora o volume comprado tenha recuado 15,7% em relação ao mesmo período do ano passado, o preço médio por tonelada aumentou 14,6%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
Para o produtor rural, essa dependência significa exposição permanente às oscilações do dólar, aos custos do transporte marítimo e às alterações nos preços internacionais. Uma valorização dos fertilizantes pode comprometer as margens de culturas como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, principalmente quando os preços de venda da produção não acompanham a elevação dos custos.
É nesse cenário que ganha importância a pesquisa desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Depois de quatro anos de trabalho e investimentos superiores a R$ 2,7 milhões, os pesquisadores conseguiram converter o lodo retirado das estações de tratamento de água em um material utilizado na fabricação de fertilizantes enriquecidos com nitrogênio e potássio.
A inovação não consiste simplesmente em aplicar o resíduo no solo. O lodo passa por um tratamento com temperatura e pressão controladas, que modifica sua estrutura e incorpora o alumínio potencialmente tóxico a cristais de sodalita, um mineral da família das zeólitas. O produto resultante é combinado com outras substâncias para formar grânulos capazes de reter nutrientes e liberá-los gradualmente.
A principal vantagem agronômica está justamente nessa liberação. Em fertilizantes convencionais, parte do nitrogênio aplicado pode ser perdida por volatilização ou outros processos antes de ser aproveitada pelas plantas. Ao prolongar a disponibilidade do nutriente, a nova formulação busca aumentar a eficiência da adubação.
Nos experimentos conduzidos pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), os tratamentos com sodalita granulada apresentaram eficiência agronômica duas a três vezes superior à do grupo de controle no cultivo de azevém. Também foram observados resultados positivos no capim-piatã, embora com diferenças menores.
Isso não significa que o produtor poderá reduzir o uso de fertilizantes na mesma proporção. Os resultados foram obtidos em condições experimentais e ainda precisam ser confirmados em lavouras comerciais, com avaliações de produtividade, doses de aplicação e custos por hectare.
A importância econômica da pesquisa também está relacionada ao nitrogênio. Segundo a Embrapa, aproximadamente 80% da ureia consumida no Brasil é importada. Trata-se de um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura, especialmente em culturas que exigem adubações de cobertura, como o milho.
A tecnologia não elimina a necessidade de ureia, já que a substância também participa da fabricação dos grânulos desenvolvidos pelos pesquisadores. O benefício esperado está na possibilidade de utilizar o nitrogênio com maior eficiência, reduzindo perdas e, eventualmente, a quantidade necessária para atingir determinada produtividade.
Economia também pode chegar ao saneamento
Além do potencial agrícola, a pesquisa abre uma alternativa econômica para as empresas de saneamento. Atualmente, a Sabesp produz aproximadamente 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano em 208 estações de tratamento de água no estado de São Paulo.
Com custo médio estimado em R$ 300 por tonelada para transporte e destinação, a movimentação desse material representa uma despesa potencial de R$ 37,2 milhões anuais. Parte desses recursos poderia deixar de ser destinada ao descarte caso o reaproveitamento industrial se mostrasse economicamente viável.
A economia efetiva, entretanto, dependerá dos custos de processamento, da logística entre as estações e as fábricas e do volume de resíduo que conseguir ser aproveitado.
O projeto também investigou a incorporação de microrganismos benéficos aos grânulos. Nos testes, a bactéria Bacillus megaterium, associada ao crescimento vegetal e ao aproveitamento de nutrientes, permaneceu viável por quase cinco meses, indicando potencial para integrar fertilização mineral e aplicação de inoculantes biológicos.
Desafio agora é chegar à escala industrial
Apesar dos resultados positivos, o novo fertilizante ainda não está disponível comercialmente. A próxima etapa será a implantação de um projeto-piloto industrial, acompanhada de testes agronômicos em campo e avaliações necessárias para eventual registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Também será necessário determinar o preço final do produto e compará-lo com o custo da adubação convencional. Para o agricultor, a vantagem econômica dependerá não apenas do valor pago pela tonelada, mas principalmente da quantidade de nutrientes efetivamente aproveitada pelas plantas e do resultado obtido por hectare.
A pesquisa representa, portanto, uma possibilidade de reduzir desperdícios em duas atividades distintas: no saneamento, ao aproveitar um resíduo que hoje exige gastos com destinação; e na agricultura, ao desenvolver uma alternativa para melhorar a eficiência dos fertilizantes.
Em um país que desembolsa dezenas de bilhões de reais anualmente para abastecer suas lavouras com insumos estrangeiros, tecnologias capazes de ampliar a eficiência da adubação ganham relevância econômica. O desafio da Embrapa será demonstrar que os resultados obtidos em laboratório também se traduzem em produtividade e redução de custos dentro da porteira.












