IA: substituição silenciosa de empregos e a necessidade de uma renda básica

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Na última semana, gravei uma entrevista com o Roberto Pena Spinelli, colunista do Olhar Digital, físico e especialista em IA. A ideia era incluir algumas aspas dele em um especial que fizemos sobre a história da corrida das inteligências artificiais. O resultado está em nosso YouTube e você pode conferir aqui embaixo:

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Mas dois assuntos ficaram de fora do especial por saírem um pouco do foco. Isso não significa, contudo, que não sejam duas discussões importantíssimas – que, aliás, são interligadas: futuro do trabalho e a possibilidade de uma renda básica universal.

De forma muito resumida, o avanço das IAs pode automatizar muitas funções e reduzir a oferta de empregos tradicionais em vários setores.

Nesse cenário, uma renda básica universal surgiria como forma de garantir sustento mínimo, mais estabilidade social e algum poder de consumo. A ideia é que os ganhos de produtividade trazidos pela IA sejam distribuídos de forma mais ampla, e não concentrados em poucos grupos. Pelo menos, na teoria.

Como noticiamos em 2024, o CEO da OpenAI, Sam Altman, até financiou um estudo sobre renda básica universal.

No começo deste mês, a mesma OpenAI divulgou um conjunto de recomendações de políticas públicas voltadas ao avanço da inteligência artificial. O documento, intitulado “Industrial Policy for the Intelligence Age: Ideas to Keep People First” (Política Industrial para a Era da Inteligência: Ideias para Manter as Pessoas em Primeiro Lugar, em tradução livre), apresenta propostas para lidar com impactos econômicos e sociais associados à tecnologia e iniciar um debate mais amplo sobre o tema.

Segundo a empresa, a proposta busca garantir que os ganhos gerados pela IA sejam distribuídos de forma mais ampla e que a sociedade esteja preparada para possíveis mudanças no mercado de trabalho.

A gente analisou o assunto neste outro vídeo que está em nosso YouTube.

Aproveitando esse contexto de discussão, resolvi trazer a análise do Pena para duas perguntas: “a IA nos fará trabalhar menos?” e “a IA pode gerar a necessidade de uma renda básica universal?”.

Acompanhe as respostas!

IA nos fará trabalhar menos?

Olha, eu nunca comprei essa história que a IA ia fazer a gente trabalhar menos. Essa é a história da tecnologia. Toda tecnologia, toda nova invenção tem essa promessa de que vai aliviar o sofrimento humano. E nunca foi assim. Eu nunca achei que fosse diferente agora.

De fato, a IA não vai fazer a gente trabalhar menos… quer dizer, pelo menos nesse formato que a gente tem hoje, esse formato abusivo que a gente vive, esse mundo que acaba espremendo a gente para tirar o máximo de produtividade. Então, pelo menos nesse primeiro momento, a IA não vai fazer isso.

A gente já está vendo algumas notícias, alguns estudos mostrando que as pessoas estão “fritando” o cérebro. Por mais que a IA ajude na produtividade, as pessoas viram o gargalo e elas precisam agora ter uma carga cognitiva maior para poder gerenciar as várias abas, as várias tarefas que elas estão fazendo… e a barra só sobe.

O empregador não vai dizer “Ah, você terminou o relatório mais cedo, vai embora antes”. Não… você vai fazer três relatórios agora.

Agora, pode ser que mais para frente acabe sim diminuindo o trabalho humano, mas como um efeito… por um outro motivo.

Porque pode ser que o humano não mais dê conta. Pode ser que a IA comece a fazer tão bem todas as tarefas humanas que colocar o humano é pior, prejudica o processo. A IA vai ser melhor do que o ser humano.

E eu não sei quão longe isso está, é difícil prever, mas eu acho que é plenamente possível, olhando a tendência de como a IA está se desenvolvendo, ficando mais inteligente. Pode ser que chegue a um ponto que, pelo menos, as tarefas intelectuais, cognitivas, ela vai fazer melhor. E colocar um humano em algum momento vai ser pior.

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Eu faço uma analogia: imagina que você pudesse colocar um chimpanzé para te ajudar em um trabalho qualquer. Você ensina ele a fazer alguma coisa, põe ele para te ajudar.

Eu duvido que na maioria das tarefas de escritório corporativas que a gente tem, o chimpanzé poderia ajudar em uma delas. Mas não dá, porque a diferença é muito grande. O chimpanzé não consegue nem entender o básico. Você está pensando três mil passos na frente.

Então, talvez a IA chegue num ponto que a diferença da IA para o ser humano vai ser a mesma que a gente para o chimpanzé. Simplesmente o ser humano não vai ajudar em nada, vai só piorar.

Nesse momento, a gente está falando de um cenário que o humano é forçado a sair do mercado de trabalho. E aí, o que que isso acontece? Porque a gente vai ser aposentado de maneira compulsória, vai ser obrigado a se aposentar. Será que isso vai ser um cenário melhor ou pior do que a gente vive hoje? Como é que a gente vai dar dignidade para todo mundo que teve seus trabalhos substituídos?

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Veja… não é que você substitui seu trabalho e faz outra coisa. Não! Você não tem outra coisa para fazer, porque a IA vai fazer melhor essa outra coisa também. Veja que é um problema grande, embora a gente ainda não esteja vendo isso acontecer agora.

Até agora, a IA era quase uma prova de conceito. A IA não estava ganhando ainda valor nas empresas. Ela era meio que só para os early adopters, as pessoas que estavam usando no começo, começavam a testar alguma coisa ou outra. Você tem alguns casos de uso que são muito bons, mas um monte de casos de uso muito ruins. Hoje ela, no máximo, é uma boa estagiária.

Isso está acontecendo, isso já é um problema. Porque a IA de hoje já é uma boa estagiária para várias tarefas. Então, várias empresas que contratariam estagiários ou funcionários de nível júnior, não contratam. Não… a gente tem a IA, então não preciso mais contratar.

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Então, você não está demitindo pessoas necessariamente – embora alguns segmentos já estejam demitindo. Digamos que, na maioria dos casos, você está não contratando novas.

E se você não contrata estagiários e funcionários iniciantes, eles nunca vão virar os plenos e sêniores. E no momento que esses funcionários plenos e sêniores começarem a se aposentar ou migrar e subindo de cargo, você não vai ter aqueles para ocupar os cargos intermediários. E quem vai ocupar é a IA, que vai estar ficando melhor.

Talvez já esteja acontecendo isso, essa substituição silenciosa de empregos. Porque para uma empresa demitir funcionário tem um custo. Sempre é uma questão, é sempre um processo difícil para uma empresa demitir funcionários. Então, elas tentam segurar ao máximo. Mas não contratar é fácil.

Você não está colocando ninguém na rua, você só não está colocando gente para dentro. Isso não tem dor, isso é silencioso. A gente talvez já esteja vivendo hoje essa substituição silenciosa, mas pode ser que no futuro isso se agrave e acabe indo cada vez mais rápido. Enfim… essa é uma questão bem relevante sobre se a IA vai ou não substituir os empregos e o que vai acontecer a partir disso.

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IA pode gerar a necessidade de uma renda básica universal?

Se esse cenário realmente acontecer, e a gente não sabe se vai acontecer, mas eu só posso dizer das tendências. E as tendências me parecem que, sim…

E aí, o que vai acontecer? A gente precisa ter um jeito de dar dignidade para as pessoas. Eu falo muito que esse momento talvez seja o colapso do capitalismo. Porque o que dá dignidade hoje para as pessoas, o jeito que a gente se organizou para a máquina funcionar, é: você recebe dinheiro, o valor pelo que você oferece para a sociedade, pelo seu trabalho. Tanto é que a palavra “desempregado” tem um estigma muito forte na nossa sociedade.

As pessoas não gostam de falar que foram demitidas, que estão desempregadas. Então, quer dizer: aquela pessoa que não faz nada, não é que ela não faz nada. Ela não faz nada de trabalho – como se fosse a única coisa útil que a gente tem que fazer.

Então, a gente viveu, a gente aprendeu… a nossa sociedade se criou com a ideia de que o ser humano precisa fazer algo pela sociedade para que ele tenha dignidade. Então a gente vai ter que revisitar primeiro essa questão, esse paradigma. A gente vai mudar o paradigma social do trabalho, a pessoa vai ter que ter algum jeito de ter sustento mesmo sem prover.

Imagina que as empresas vão conseguir aumentar a sua produtividade, criando um monte de produtos e serviços incríveis, porque elas têm a IA. Mas as pessoas estão desempregadas, não estão recebendo nada. E elas não vão poder consumir esses produtos.

Você vai vender para quem? Para a IA?

Isso que eu chamo de colapso do capitalismo, porque vai quebrar esse engrenagem do jeito que a gente entende o funcionamento. Ele precisa criar outra coisa. Então, uma das possibilidades seria você dar uma renda básica universal.

A IA, já que está sendo empregada no lugar das pessoas, e está aumentando a produtividade, ela vai ter que ser taxada de alguma maneira para que os governos recebam um valor. Então, você tem que criar algum jeito de taxar a automação, a tecnologia, a inteligência artificial, o que seja. Porque é isso que está gerando a produtividade, para que então os governos possam arrecadar e, de algum jeito, redistribuir para aquelas pessoas que agora não têm chance. Mesmo que elas queiram, elas não vão ter chance nem de ter trabalho.

É renda básica. Mesmo que você não trabalhe, você ganha. Talvez seja um caminho. Eu acho bem difícil ainda isso funcionar bem, porque imagina o tamanho da mudança.

Se a gente leva uma década para fazer uma reforma da previdência no Brasil, imagina uma mudança gigantesca. Imagina quanto tempo de discussão, de leis e politicagem no mundo inteiro, não só no Brasil.

É tão gigantesco que eu não acho que seja possível acontecer, a tecnologia é muito mais rápida. Então, eu acho que vão acontecer crises. Basicamente, as pessoas vão ficar desempregadas e vão se revoltar. Então, é só nesse momento.

E isso é um jeito muito doloroso de fazer uma mudança, porque ela não vai acontecer do melhor jeito no momento que você está no meio de uma crise, tendo que apagar um monte de incêndios, as pessoas revoltadas… Mas eu acho que, em última instância, a gente vai ter que inventar formas.

A sociedade vai passar por soluços grandes. Mas se a gente não sucumbir nesses processos de solução, a gente vai ter que encontrar outras formas. Que pode ser o movimento contra a IA. Por exemplo, de não poder mais usar IA. Você tem várias formas de resolver esse problema.

Tem também questões sobre o que te dá propósito na vida. São questões muito profundas. Dá para a gente ficar falando aqui horas. Continuando essa tendência, alguma solução a gente vai ter que encontrar sobre como dar dignidade para as pessoas se elas não vão ter como exercer o seu trabalho, já que vai ter a IA para fazer por elas.

Bruno Capozzi

Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

Olhar Digital

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