Uma múmia infantil guardada no Museu Arquidiocesano de Wrocław, na Polônia, acaba de ter seus segredos revelados por tecnologias modernas. Pela primeira vez, cientistas realizaram exames radiológicos sistemáticos nos restos mortais, que chegaram à cidade em 1914 como parte da coleção do Cardeal Adolf Bertram. Os resultados, publicados na revista Digital Applications in Archaeology and Cultural Heritage, trazem novas pistas sobre a vida e a morte de uma criança do Egito ptolomaico.
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A pesquisa, conduzida por uma equipe da Universidade de Wrocław e do Centro Internacional de Pesquisa de Múmias, revelou que o corpo pertence a um menino de aproximadamente oito anos. A análise de tecidos moles preservados e do desenvolvimento dentário permitiu determinar a idade e o sexo com precisão.
Os exames também confirmaram que o cérebro foi removido pela cavidade nasal — uma prática comum no embalsamento egípcio. A maioria dos órgãos internos também foi retirada. O corpo, envolto em bandagens e cartonagem (material feito de camadas de linho ou papiro), mede 123 centímetros de comprimento. A cabeça e o pescoço estão parcialmente descobertos, escurecidos e com crostas brancas de sal; o rosto da criança é visível, já que grande parte das bandagens foi removida.
Os cientistas especulam que o rosto pode ter sido originalmente coberto por uma máscara funerária. Uma camada escura de substância de embalsamamento reforça as bandagens na região da cabeça e pescoço.

Origem e próximo mistério
A comparação da cartonagem — a camada que envolve a múmia — sugere que o menino veio do sul do Alto Egito, provavelmente da região de Kom Ombo, Aswan ou alguma necrópole vizinha. A pesquisa, no entanto, está longe de terminar.
Radiografias revelaram a presença de um objeto no peito da criança. “Pode ser um papiro contendo, por exemplo, o nome do menino”, diz a professora Agata Kubala, do Instituto de História da Arte da Universidade de Wrocław. O problema é que a cartonagem está danificada e frágil, e os pesquisadores ainda não desenvolveram um método seguro para removê-la sem causar danos irreversíveis.
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A equipe também trabalha na interpretação detalhada da iconografia da cartonagem — uma tarefa complexa para o período ptolomaico. O objetivo é refinar a datação da múmia e confirmar sua origem na região de Aswan.
Os exames radiológicos foram realizados pelo médico Maciej Mazgaj no Hospital Regional de Lublin. A equipe incluiu ainda Marzena A. Ożarek-Szilke, Stanisław Szilke e o dr. Wojciech Ejsmond. A descoberta reforça o valor das tecnologias não invasivas para o estudo de múmias — e mantém viva a esperança de que, em breve, o nome do menino possa finalmente ser conhecido.
Lucas Soares
Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.










