Vírus sabiá circula escondido há 142 anos e tem mutação que engana teste

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O vírus sabiá (SABV), causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica grave, está em circulação silenciosa no Brasil há 142 anos. E passou por mutações genéticas que o tornaram invisível aos testes de diagnóstico tradicionais. 

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A descoberta foi publicada em 2026 por pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, após a identificação tardia de dois casos fatais ocorridos no estado de São Paulo entre o final de 2019 e o início de 2020.

As falhas na detecção ocorreram porque os exames disponíveis no país utilizavam como padrão o genoma da cepa-referência da década de 1990, coletada em Cotia (SP). Diante do problema, os cientistas sequenciaram o patógeno e desenvolveram novos primers (fragmentos de DNA para testes laboratoriais).

Assim, eles atualizaram o método de diagnóstico, encaminhado ao Instituto Adolpho Lutz para garantir a identificação correta de futuras infecções.

(Curiosidade: o vírus sabiá não tem relação biológica com a ave sabiá. O patógeno recebeu esse nome porque a primeira paciente humana identificada com a doença, em 1990, morava no bairro Jardim Sabiá, no município de Cotia, onde foi infectada. É uma prática comum na virologia batizar novos vírus com o nome da localidade onde foram descobertos.)

Cientistas mapeiam mutações no vírus sabiá e alertam para a falta de laboratórios de segurança máxima no Brasil

Os dois casos fatais recentes envolveram um homem de 52 anos, morador de Sorocaba (SP), com histórico de caminhadas em áreas florestais, e um trabalhador rural de 63 anos, de Assis (SP)

O morador de Sorocaba testou negativo para febre amarela e também para o vírus sabiá tradicional nos exames iniciais. Já o caso de Assis foi descoberto de forma retrospectiva, quando os cientistas decidiram analisar amostras de outros sete pacientes que tinham testado negativo apenas para febre amarela. 

Infográfico mostrando casos de vírus sabiá no mapa do estado de São Paulo e do Brasil
Mapa de casos nos quais pessoas foram infectadas pelo vírus sabiá – Imagem: Ingra M. Claro/FM-USP

A identificação correta só foi possível por meio de uma abordagem rápida de metagenômica, técnica que rastreia múltiplos microrganismos diretamente na amostra sem precisar saber previamente o que procurar.

A análise genômica revelou que o vírus atual possui 89% de identidade genética em comparação com a cepa registrada em 1999. “Ao analisar o genoma dos casos novos, identificamos mutações em regiões-alvo dos primers que impediram a detecção pelos testes diagnósticos existentes. Modificamos essas regiões e agora é possível identificar as cepas circulantes”, explicou a pesquisadora Ingra Morales Claro à Agência Fapesp.

Os dados obtidos por meio de análises filogenéticas indicam que o vírus sabiá não é uma ameaça recente, mas sim um patógeno antigo que se transforma continuamente. “Provavelmente houve outros casos no passado que não foram identificados. É importante conhecer o vírus, desenvolver os testes e estudar as alterações que ocorrem no seu genoma a fim de nos anteciparmos a futuros novos casos e mesmo surtos da doença”, alertou Ester Sabino, coordenadora do CADDE no Brasil, também à agência.

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Estrutura da proteína GP1 do vírus sabiá e as diferenças em relação a cepas previamente conhecidas na figura da direita, em azul
Estrutura da proteína GP1 do vírus sabiá e as diferenças em relação a cepas previamente conhecidas na figura da direita, em azul – Imagem: Ingra M. Claro/FM-USP

Até o momento, o reservatório natural do vírus permanece desconhecido. Mas cientistas suspeitam de roedores silvestres devido ao contágio concentrado em áreas rurais.

“Nesse contexto, abordagens de metagenômica têm se mostrado ferramentas essenciais para a detecção de patógenos raros ou inesperados, especialmente quando testes diagnósticos direcionados falham. Essa estratégia foi fundamental tanto na identificação de casos fatais de sabiá em humanos como em animais silvestres e destaca o papel essencial da vigilância genômica na detecção de riscos à saúde pública”, afirmou Nuno Faria, coordenador do centro no Reino Unido, à Agência FAPESP.

O vírus sabiá apresenta alto risco de transmissão por aerossóis em laboratório, o que exige o nível máximo de biossegurança para sua manipulação. Como a América do Sul não possui estrutura desse tipo ativa, a cepa de referência do sabiá é mantida atualmente nos Estados Unidos

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O cenário nacional deve mudar apenas em 2030, ano previsto para a inauguração do Orion, o primeiro laboratório de segurança máxima do país. Ele está em construção no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP).

Pedro Spadoni

Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.

Olhar Digital

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