Ozempic e Mounjaro podem ampliar desigualdades, dizem cientistas

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Medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, como Wegovy, Ozempic e Mounjaro, vêm transformando o tratamento da obesidade. No entanto, pesquisadores da University College London (UCL) e da Universidade de Cambridge alertam que os benefícios dessas terapias podem não ser distribuídos de forma igualitária se os pacientes não tiverem acesso a alimentação saudável, orientação nutricional e acompanhamento médico contínuo.

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O alerta foi publicado em uma correspondência na revista Nature Medicine. Os autores defendem que, embora os chamados tratamentos baseados em incretinas tenham mudado o cenário do combate à obesidade, seus resultados de longo prazo dependem de fatores que vão além dos medicamentos em si, incluindo condições sociais e econômicas dos pacientes.

Pessoa segurando uma fita métrica ao redor da barriga de outra pessoa
Apesar de transformar o tratamento da obesidade, medicamentos podem elevar desigualdades, dizem cientistas – Imagem: Freshystock / Shutterstock

Benefícios podem variar conforme a realidade dos pacientes

Segundo os pesquisadores, o acesso a aconselhamento nutricional, alimentos saudáveis e suporte de saúde contínuo influencia diretamente a capacidade de utilizar os medicamentos de forma segura e de manter os ganhos obtidos ao longo do tempo.

O autor sênior do trabalho, Dr. Adrian Brown, da UCL Medicine, afirma que o tratamento da obesidade não deve ser visto apenas como uma questão médica. Para ele, sem suporte alimentar integrado e atenção ao custo dos alimentos, esses medicamentos podem aprofundar desigualdades já existentes.

Brown destaca que os tratamentos têm potencial significativo, mas que seu impacto na saúde pública dependerá da existência de sistemas de apoio capazes de garantir acesso seguro e equitativo para todos os pacientes.

Dados citados pelos pesquisadores mostram que cerca de 1,6 milhão de adultos na Inglaterra, País de Gales e Escócia utilizaram medicamentos como Wegovy e Mounjaro para perder peso entre o início de 2024 e o início de 2025. Outros 3,3 milhões de pessoas afirmaram ter interesse em usar esses tratamentos no ano seguinte.

Os autores observam que o custo pode ser um obstáculo importante. O Mounjaro, que contém tirzepatida, custa normalmente £200 por mês, valor considerado inacessível para muitas pessoas. No Brasil, quatro doses custam em torno de R$ 1.400.

Para a autora principal, Dra. Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, a questão central não é apenas quem consegue obter os medicamentos, mas quem consegue se beneficiar deles a longo prazo. Segundo ela, se o acesso a alimentos saudáveis, apoio nutricional e acompanhamento médico for desigual, os resultados positivos também tendem a ser distribuídos de forma desigual.

Risco de um sistema em duas camadas

Os pesquisadores alertam para a possibilidade de surgir um sistema de tratamento da obesidade dividido em duas realidades distintas. De um lado, pacientes com acesso ao medicamento aliado a suporte abrangente e continuidade do cuidado. De outro, pessoas que enfrentam barreiras tanto para obter os remédios quanto para receber acompanhamento adequado.

A preocupação é ainda maior em áreas mais desfavorecidas, onde a população costuma enfrentar mais dificuldades para acessar serviços de saúde e alimentos saudáveis, além de apresentar maior incidência de doenças relacionadas à obesidade.

Alimentação adequada é parte do tratamento

Os autores lembram que grandes ensaios clínicos demonstraram que as terapias baseadas em incretinas podem gerar perda de peso significativa e sustentada, além de melhorias na saúde metabólica. Entretanto, os resultados observados na prática podem variar conforme as condições sociais e econômicas de cada paciente.

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Esses medicamentos costumam reduzir o apetite e a ingestão alimentar, além de poder provocar efeitos gastrointestinais como náusea e sensação precoce de saciedade. Sem orientação nutricional e monitoramento adequados, a redução no consumo de alimentos pode aumentar o risco de dietas de baixa qualidade, ingestão insuficiente de nutrientes e perda de massa corporal magra em alguns indivíduos.

A coautora Dra. Cara Ruggiero, da Universidade de Cambridge, ressalta que a insegurança alimentar continua sendo uma realidade importante no Reino Unido, afetando 12% dos lares. Ela afirma que alimentos mais saudáveis geralmente têm custo mais elevado e que recomendações nutricionais que ignoram essa realidade podem ser pouco realistas e injustas.

Os pesquisadores concluem que, à medida que o uso dos medicamentos para emagrecimento continua crescendo, garantir que todos os pacientes tenham acesso ao suporte necessário para utilizá-los de forma segura e eficaz deverá se tornar uma prioridade cada vez mais relevante para a saúde pública.

Ana Luiza Figueiredo

Ana Luiza Figueiredo

Ana Figueiredo é repórter de tecnologia do Olhar Digital. É formada em jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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