Uma pequena cidade no sul da Finlândia passou a contar com a maior bateria de areia comercial do mundo para enfrentar um dos principais obstáculos da transição energética: a intermitência das fontes renováveis. A instalação fica em Pornainen, município de cinco mil habitantes, e foi desenvolvida pela Polar Night Energy em parceria com a distribuidora local de aquecimento distrital Loviisan Lämpö.
Continua após a publicidade
A estrutura tem 13 metros de altura e 15 metros de largura. Dentro dela, duas mil toneladas métricas de pedra-sabão triturada armazenam energia limpa na forma de calor, totalizando capacidade de 100 megawatt-horas de energia térmica — suficiente para atender a quase um mês da demanda de aquecimento da cidade no verão e cerca de uma semana no inverno.
Como a bateria de areia funciona
O sistema opera em três etapas:
- Primeiro, a instalação capta eletricidade da rede nos momentos em que há abundância de energia solar ou eólica;
- Em seguida, essa eletricidade aquece a pedra-sabão a temperaturas muito elevadas;
- Por fim, o silo — fortemente isolado — retém esse calor por dias ou semanas até que seja liberado por trocadores de calor para aquecer a água da rede de aquecimento distrital local.
Annette Höglund-Dönnes, diretora comercial da Polar Night Energy, descreveu o processo à CNBC como algo semelhante a um gigantesco silo. “Três etapas — e a chave de tudo é que a areia permite um intervalo entre o momento em que você usa a eletricidade e o momento em que usa o vapor”, disse ela.
“Esse intervalo é a sua vantagem comercial, porque você aquece a areia quando a eletricidade é barata e usa o vapor quando normalmente seria muito caro produzi-lo a partir da rede — que é durante o dia, quando todos os outros também estão usando.” Ela comparou o processo ao ato de carregar um celular à noite, quando o custo pode ser menor do que durante o dia.
Impacto em Pornainen
Antes da bateria de areia, Pornainen dependia da queima de óleo e de cavacos de madeira para seu aquecimento. Segundo Tommi Eronen, CEO da Polar Night Energy, a instalação agora fornece aquecimento sem combustão para a maior parte do ano.
A empresa informou que o projeto reduziu as emissões de gases de efeito estufa da rede de aquecimento em quase 70% e o uso de cavacos de madeira em cerca de 60%. Uma usina a cavacos de madeira já existente permanece em operação como sistema de reserva e para atender picos de demanda.
Mikko Paajanen, CEO da Loviisan Lämpö, afirmou que a bateria permite separar a compra de eletricidade da produção de aquecimento distrital. “Podemos utilizar muito bem os preços baixos no mercado spot”, disse ele à CNBC.
A empresa declarou ter como meta produzir entre 55% e 60% do aquecimento distrital do município a partir da bateria de areia nos primeiros meses deste ano, ante aproximadamente 30% em 2025. O projeto foi lançado no ano passado e é cerca de dez vezes maior do que uma versão anterior inaugurada no país em 2022.
Leia mais:

Continua após a publicidade
Potencial e limitações da tecnologia
Eronen destacou que a transição de grandes usinas para fontes como solar e eólica exige uma quantidade expressiva de armazenamento de energia. “Esperamos que uma grande parte desses armazenamentos possa ser do tipo bateria de areia, na qual não precisamos de materiais de terras raras, como em muitas baterias químicas, como as de íons de lítio”, afirmou à CNBC.
Jan Rosenow, professor de política energética e climática da Universidade de Oxford (Reino Unido), concordou que tecnologias de armazenamento eletrotérmico, como as baterias de areia, tendem a ser replicadas ao redor do mundo.
“Você não precisa de terras raras nem de matérias-primas críticas, e pode carregar a bateria quando a eletricidade é barata e descarregar quando precisar do calor”, disse ele à CNBC. “E você pode armazená-lo por longos períodos — não apenas duas ou quatro horas como as baterias de íons de lítio, mas potencialmente por dias e talvez semanas.”
Continua após a publicidade
Apesar do potencial, a tecnologia enfrenta críticas relevantes, entre elas a dificuldade de converter o calor armazenado de volta em eletricidade com eficiência e a densidade de energia relativamente baixa em comparação com baterias tradicionais.
Höglund-Dönnes disse que a Polar Night Energy recebeu contatos de equipes de “todos os continentes”, especialmente de comunidades dependentes de combustíveis fósseis como carvão e petróleo.
A ministra do Clima da Finlândia, Sari Multala, descreveu o projeto de Pornainen como um exemplo “muito inspirador” de como resolver o desafio do armazenamento de energia.
Ela acrescentou ter compreendido, durante visita à instalação em sua inauguração, que a empresa também desenvolve soluções para possível uso direto de eletricidade no futuro — algo que, segundo ela, “seria revolucionário e que muitas pessoas veriam valor”.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.











