A garra de viver e a vontade de vencer foram aliadas de Carmelinda Farias Aguiar, de 62 anos. Diagnosticada com câncer de mama, ela passou três vezes pela mesa de cirurgia e, hoje, esse capítulo de sua história ficou para trás. Carmelinda venceu um câncer agressivo que a deixou debilitada por anos. Depois de passar por todo esse processo, ela passou a apoiar outras mulheres que enfrentam o tratamento na Rede Feminina de Combate ao Câncer de Sinop (REFCCS). A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) é parceira da instituição e contribui com a alimentação das mulheres atendidas por meio da doação de bebida de soja, utilizada como complemento alimentar durante o tratamento.
A batalha contra o câncer de mama faz parte da realidade de muitas mulheres no Brasil. Para o triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos da doença por ano no país. O câncer de mama representa cerca de 30% de todos os tipos de câncer registrados em mulheres. Muitos diagnósticos ainda ocorrem em estágios avançados. Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), 51% das mulheres recebem o diagnóstico quando a doença já está em estágio avançado.
O caso de Carmelinda também foi marcado pelo diagnóstico tardio. Oito meses antes de descobrir que estava com câncer em estágio avançado, ela havia realizado outro exame que não apontou a doença. Na época, cursava uma faculdade, trabalhava em uma clínica e também trabalhava como servidora pública. Com a rotina intensa, conta que não tinha tempo para observar as mudanças no próprio corpo.
Em apenas 30 dias após o diagnóstico, passou pela cirurgia para a retirada da mama. Depois, precisou de outra intervenção para retirar nódulos da região da axila. Por último, foi submetida a uma cirurgia para receber alimentação por sonda, pois estava extremamente debilitada e já não conseguia se alimentar normalmente.
O projeto de distribuição de bebida de soja atende à REFCCS há quatro anos, e Carmelinda foi uma das pacientes beneficiadas. O produto, que pode ser misturado à água ou ao leite, contém vitaminas e auxilia na complementação nutricional dos pacientes oncológicos. Durante o período mais difícil do tratamento, Carmelinda relembra que sua alimentação se resumia ao suplemento e a legumes triturados.
“Eu mesma fui uma paciente que passei dois anos tomando suplemento. Porque, no meu caso, não foi fácil lutar para sobreviver. Chegou um tempo em que eu não tinha mais ânimo para comer, nem nada, e tive que fazer cirurgia na boca. Meus dentes caíam, eu não tinha como me alimentar, e esse suplemento foi de grande valia. Minha irmã fazia as vitaminas, pegava o suplemento e eu tomava. Era a única coisa que meu estômago aceitava, só derivados de soja, fubá, essas coisas. Comida, eu não comia. Foi muito bom porque eu me fortalecia, ganhava resistência e um pouco mais de ânimo, porque a cada oito dias eu fazia quimioterapia”, contou.
Durante os momentos mais críticos do tratamento, principalmente quando já não tinha forças para se alimentar, Carmelinda percebeu a tristeza das pessoas ao seu redor. Segundo ela, muitos acreditavam que não conseguiria vencer a doença. No entanto, essa percepção não abalou sua fé, pois, como explica, havia entregado sua vida a Deus e confiava que Ele escolheria o melhor para ela.
“Os de fora só olham, ficam tristes. A família fica triste. Todos que ficam em volta de você têm aquele olhar de ‘essa vai morrer’. Quem olhava para mim dizia que eu não iria escapar. Eu chegava carregada no colo aqui na REFCCS e me alimentava por sonda”, relembrou.
Hoje, curada do câncer de mama, Carmelinda vive realizando sonhos, viajando e até experimentando a sensação de voar de parapente. Ela também passou a dedicar mais tempo e carinho a si mesma. Por conhecer de perto as dificuldades enfrentadas durante o tratamento, faz visitas regulares à REFCCS para apoiar e incentivar as mulheres que estão começando essa jornada, conversando com elas e ajudando a tornar o dia a dia mais leve.
“O meu conselho para as pacientes que estão vindo agora para essa fase do tratamento é, em primeiro lugar, você se coloca você. É só eu, eu e Deus. E sempre, não desistir, ter fé. Com o passar do tempo, você vai vendo que as reações vão sendo diferentes, vai ganhando resistência, vai ganhando amor por você própria, aí você vê o mundo diferente. Eu acho que esse é o momento mais básico da cura para a gente. Em primeiro lugar, você coloca você. É isso que eu falo para todas as pacientes”, concluiu.
A história de Carmelinda mostra que a solidariedade pode fazer diferença mesmo nos momentos mais difíceis. Depois de enfrentar o câncer e receber apoio durante o tratamento, ela hoje oferece às outras mulheres algo que conhece bem, acolhimento, incentivo e esperança. Na REFCCS, sua presença reforça que ninguém precisa enfrentar essa jornada sozinha e que o cuidado, compartilhado entre pessoas que compreendem essa realidade, também pode se tornar parte da caminhada.
Atenção aos sinais
Além do diagnóstico precoce, conhecer o próprio corpo é importante para identificar possíveis alterações nas mamas. Ao perceber qualquer mudança suspeita, é importante procurar uma unidade de saúde para avaliação. A observação do próprio corpo não substitui os exames de rastreamento recomendados para cada faixa etária. De acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama, a recomendação atual é que os seguintes sinais e sintomas sejam considerados como de referência urgente:
– Qualquer nódulo mamário em mulheres com mais de 50 anos;
– Nódulo mamário em mulheres com mais de 30 anos, que persistem por mais de um ciclo menstrual;
– Nódulo mamário de consistência endurecida e fixo ou que vem aumentando de tamanho, em mulheres adultas de qualquer idade;
-Descarga papilar sanguinolenta unilateral (secreção com sangue de um único mamilo);
– Mudança no formato do mamilo e retração na pele da mama;
– Lesão eczematosa da pele que não responde a tratamentos tópicos (ferida ou irritação na pele do bico do seio que parece uma alergia ou micose, mas que não melhora com pomadas comuns);
– Homens com mais de 50 anos com tumoração palpável unilateral (caroço que aparece e pode ser sentido em apenas uma das mamas);
– Presença de linfadenopatia axilar (ínguas ou caroços na axila); e
– Aumento progressivo do tamanho da mama com a presença de sinais de edema, como pele com aspecto de casca de laranja.
Em caso de suspeita, procure um especialista.












