Alexandre Gallo, o eterno aprendiz: entre seleção, queda no Santos e Inter campeão mundial

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“Eu levo a vida como se tudo fosse um grande aprendizado. E sigo querendo aprender ainda mais. A gente não sabe absolutamente nada, temos que seguir aprendendo. Tudo o que eu vivi me trouxe até aqui”.

Foi assim que o eterno aprendiz Alexandre Gallo se despediu da entrevista exclusiva com oGol. Aos 59 anos, e ainda com sede de aprendizado, o treinador traz consigo muita experiência na bagagem, mas ainda longe de pensar em deixar a prancheta e o apito de lado. A carreira segue.

Natural de Ribeirão Preto, Gallo foi um consagrado volante antes de ser treinador. Começou sua carreira no Corinthians, estagiando com Carlos Alberto Parreira em 2002, passou no Villa Nova e teve sua primeira grande experiência em 2004, no Santos. Primeiro como auxiliar de Vanderlei Luxemburgo, depois como técnico principal.

q“Foi muito bom viver com o Vanderlei, conhecer ele”

“Foram momentos incríveis. O Vanderlei me deu essa possibilidade e nós fizemos um trabalho muito bacana. Fomos campeões brasileiros. Essa era uma medalha que eu buscava há muito tempo. Foi legal lidar com ele, fazer esse contraponto na função de auxiliar. Era como ser ‘o advogado do diabo’, e eu fiz muito isso. Vivenciar tudo isso foi uma grande aula”, disse Alexandre.

A admiração por Vanderlei, que já era treinador antes mesmo de Gallo iniciar sua carreira profissional como jogador, vem dos momentos finais de sua trajetória de atleta. Em 2001, o Pofexô foi seu técnico no Corinthians. E a união na área técnica, três anos depois, veio por acaso do destino.

“Ele tinha saído do Cruzeiro e eu tinha feito um bom estadual no Villa Nova. Eu encontrei ele num hotel e ele, sabendo da minha história com o Santos, me convidou para ir no CT. Eu fui lá e virei auxiliar dele. Foi fantástico, tem um peso muito grande. Todos os dias eu tinha uma aula com ele, de parte tática, de escolhas, de ‘feeling'”, pontuou.

Depois da saída do comandante, ao fim de 2004 para treinar o Real Madrid, Marcelo Teixeira, então presidente do Peixe, contratou Oswaldo de Oliveira e efetivou Alexandre Gallo como auxiliar “da casa”. Algum tempo depois, cerca de dois meses, Gallo assumiu o cargo principal, em seu grande primeiro “teste de fogo”.

“O Oswaldo acabou saindo e eu assumi. Fizemos uma boa Libertadores, chegamos até as quartas, fizemos um Brasileirão linear. Tanto que eu saí no fim de outubro e nós estávamos em quarto. Foi uma grande experiência, muito também pelo elenco vitorioso. Eles queriam trazer um treinador mais experiente e eu entendi perfeitamente. Foi quando fui para o Japão”, respondeu.

Para o ano de 2006, Alexandre embarcou rumo à Ásia em sua primeira experiência internacional no futebol. Foi uma temporada de muito aprendizado longe do Brasil. Profissionalmente falando foi importante, mas nada se compara à experiência pessoal que o ribeirão-pretano adquiriu.

“Foi a principal experiência da minha vida. Às vezes falam que o Japão está 100 anos na nossa frente, eu já acho que são 1000. O futebol lá tem muitos detalhes. Jogador meu ficava com gripe e ficava dez dias em casa, isso não acontece aqui no Brasil. Quando eu saí, eu até falei que o futebol aqui era religião, porque a gente vive tão intensamente. Lá eles vivem com respeito. Eu tive que me adaptar, porque era muito diferente, mas eu aprendi demais. Eu só tenho a agradecer, foi maravilhoso”, falou.

Sucesso no Sport e arrependimento no Inter

Depois de uma temporada no país asiático, Alexandre Gallo fez as malas e retornou ao Brasil, para começar aquele que foi um dos trabalhos mais vitoriosos e estáveis de sua carreira. Foi no Sport que o paulista se sentiu verdadeiramente à vontade e deu início ao trabalho que, dois anos mais tarde, culminaria no título da Copa do Brasil, mas já sem ele.

“O interesse do Sport era antigo, de antes de eu ir para o Japão. Eu aceitei, porque o presidente me mostrou o que poderia ser feito. Montamos um elenco muito bom, fizemos um estadual incrível, saímos na Copa do Brasil invicto, em uma situação surreal. E, dois anos depois, eles ganharam a Copa do Brasil. Mérito de quem lá estava, mas eu ajudei a montar aquele elenco. Tenho um ‘grãozinho’ de areia daquilo”, afirmou.

Depois de 28 jogos no Leão, Gallo recebeu o convite do Internacional, então campeão da Libertadores, para dar sequência a sua carreira. A oportunidade de dar um salto, indo para uma equipe que havia conquistado o Mundial há poucos meses, falou mais alto. Essa foi, talvez, a escolha que o Alexandre mais se arrependa em toda a sua carreira.

q“É o maior arrependimento da minha carreira”

“Se fosse hoje, com um pouco mais de experiência, eu não tomaria essa decisão de sair. O momento era de ficar, tínhamos um elenco realmente bom, tanto que teve sucesso depois. Mas era um time que, naquele momento, tinha sido campeão do mundo, que ia disputar um título internacional (a Recopa). Eu cometi um erro de percurso”, pontuou.

Não é, porém, como se a experiência no Colorado tivesse sido negativa. Muito pelo contrário: Gallo comandou um elenco recheado de craques, como Pato, Fernandão e Clemer, e conquistou a tão sonhada taça internacional. A estadia no Beira-Rio, porém, não durou muito.

“Foi muito bom trabalhar com um time campeão do mundo, mas a relação com o elenco pesou. Eles vinham de uma relação de muito tempo com o Abel Braga, que é um cara fantástico, que tem uma maneira de lidar com o atleta incrível. Eu já era um cara mais duro, mais profissional. Logo depois de ganhar a Recopa, aconteceram alguns problemas no percurso e eu saí. Foi outra grata experiência. Eu digo que os títulos e as vitórias são importantes, mas são as derrotas que marcam. Elas são inesquecíveis. Você aprende muito com a derrota”, afirmou.

Entre os jovens da seleção

Demitido do Inter em 2007, Gallo passou por equipes como Figueirense, Bahia, Atlético, Náutico, Avaí e Al Ain, dos Emirados Árabes Únidos, até chegar à CBF para comandar as categorias de base. O paulista dedicou dois anos de sua vida, de 2013 a 2015, à seleção brasileira, mas deixou o cargo meses antes de chegar na cereja do bolo: os Jogos Olímpicos do Rio. No ciclo, foram 34 jogos, 25 vitórias e nove empates.

“Eu saí 11 meses antes das Olimpíadas, mas fiz todo o desenho do ciclo. Escolhi as cidades que íamos jogar, escolhi o CT. Dos 15 jogadores abaixo dos 23 anos que foram, 13 iam comigo constantemente. Fizemos um ciclo realmente verdadeiro, sem derrotas. Foram várias histórias, vários jogadores que surpreenderam bastante”, pontuou.

De todos os que trabalhou na seleção, Gallo guarda recordações especiais de dois que marcaram época com a Amarelinha e disputaram as últimas Copas do Mundo: Marquinhos e Éderson. O zagueiro já era jogador da Roma quando começou a trabalhar com o treinador, em 2013.

@Getty /

“Eu falo sempre que trabalhar com o Marquinhos foi uma experiência absurda. Foi, talvez, um dos jogadores mais profissionais que eu conheci. Um jogador incrível. Um zagueiro de muita qualidade. Um dos melhores que eu trabalhei, sem sombra de dúvidas”, afirmou.

Enquanto o defensor chegou praticamente pronto, a história com o goleiro foi diferente. Alexandre se lembra que, de olho em atletas para as competições de base da CBF, foi até Portugal para observar um atacante no Rio Ave, mas se deparou com o ex-Manchester City e de cara ficou vislumbrado.

“Ele era o quarto goleiro do Rio Ave. Eu cheguei para assistir o treino, ao lado do Nuno Espírito Santo, e eu não sabia do Éderson. São aquelas coisas de Deus, um machucou, os outros não puderam jogar e ele foi. Eu vi ele treinando e já sabia que ia levar ele. Muito mérito dele. Tanto que foi para três Copas do Mundo”, pontuou.

Se a dupla brilhou os olhos do treinador, um outro em específico “decepcionou”. Gallo lembra com muita alegria de ver Luan jogar nas equipes de base da Canarinho, projetando que seria um jogador de nível mundial, com facilidade. O futuro, porém, não foi bom para o ex-meia de Corinthians e Grêmio.

“Ele jogou muito na seleção comigo, jogava demais. Eu pensei que seria fadado a jogar na Europa e ser protagonista. Ele era realmente fora de série. Mas acabou tendo uma carreira que não caminhou, e por vários fatores. Eu me digo decepcionado porque ele tinha um talento muito grande”, falou.

@Getty /

Gallo também ficou marcado pela Copa do Mundo sub-20 de 2015, um dos últimos testes para as Olimpíadas do ano seguinte. Gabigol e Gerson eram dois nomes que despontavam e, no fim das contas, não foram para o Mundial. A situação do meia, em especial, chamou mais a atenção.

“O Gerson foi um grande jogador comigo, jogou sul-americano, foi muito bem, foi em outras convocações. Eu coloquei ele como segundo volante, porque ele jogava como camisa 10. Ele tinha uma leitura de jogo muito boa, mas se enfrentasse um volante forte fisicamente, teria dificuldade”, respondeu.

“Para esse Mundial, ele avisou o nosso médico numa competição anterior que não era para eu convocá-lo, por conta do aniversário dele. Dia 21 de maio, nunca me esqueço disso. Quando eu fui fazer a convocação eu falei com o agente dele, e ele tentou me ajudar, mas ele realmente não quis. A última coisa que eu fiz foi ligar diretamente para ele, ele não me atendeu”, adicionou.

Apesar de ter vivido dois anos gloriosos na seleção, Gallo deixou a CBF pela porta dos fundos. Não pela sua vontade, que era continuar e coroar o ciclo nos Jogos Olímpicos, mas por influência de outras pessoas recém-chegadas: Dunga e Gilmar Rinaldi.

q“Eu vejo de uma maneira bem traumática”

“Quando chega um profissional que vai comandar o futebol, ele tem suas preferências. Todos têm, eu tive também, quando cheguei, e alguns saíram. E nós não tivemos uma relação muito saudável no dia a dia. Eu comecei a perceber que eles tinham muita vontade de assumir o time olímpico. Nós fazíamos um trabalho muito bom, eram 34 jogos sem perder, dois títulos de Toulon, que era como o Mundial da categoria. Era um sonho estar nas Olimpíadas, vivenciar, disputar. Foi uma frustração. Algumas coisas fogem do nosso controle. Não tinha como ser diferente, eu só lamentei a saída”, afirmou.

Retorno a Santos em crise

Alguns anos depois, em 2023, Alexandre Gallo trocou, momentaneamente, a prancheta de treinador pelos documentos de executivo. Foi ser o diretor de futebol em um clube que conhecia como a palma da mão: o Santos. Ao lado do antigo parceiro e ainda amigo Marcelo Teixeira. Mas nada deu certo no Alvinegro Praiano.

“Eu cheguei em agosto com o time em uma situação já bem complicada. Primeiro trabalhei com o Aguirre, em dois jogos, e depois fui atrás do Vanderlei, mas não deu certo. Veio o Marcelo, que fez um grande trabalho, com aproveitamento de oitavo lugar. Mas os adversários do nosso entorno fizeram uma boa reta final também”, disse.

Gallo lembra da semana do rebaixamento como se fosse ontem. Lembra com muita clareza dos entornos dos últimos jogos do Brasileirão de 2023, contra Ahtletico e Fortaleza. As duas derrotas, por 3 a 0 fora e 2 a 1 em casa, culminaram no rebaixamento do clube para a Série B, algo, até então, inédito.

“Naquela semana aconteceram coisas ‘incríveis’. Dois jogadores deram um problema muito sério. Na véspera do penúltimo jogo, contra o Athletico. Aquilo nos debilitou bastante. Chegamos naquele fatídico jogo contra o Fortaleza já cambaleados. Mas era ganhar de 1 a 0 e a gente escapava, e nós perdemos”, falou se referindo ao episódio de indisciplina envolvendo Marcos Leonardo e Jean Lucas.

A análise daquele momento lamurioso, porém, necessita de muitos outros fatores, na perspectiva de Alexandre. Em sua visão, o Peixe vinha adiando a queda há alguns anos, somando resultados desfavoráveis tanto no Paulistão quanto no Brasileirão, muito longe dos tempos de glória.

“Um time não é rebaixado no último jogo, no último mês, um time grande é rebaixado com o tempo. O Santos vinha há quatro ou cinco anos sem se classificar entre os quatro do Paulista. Vinha vivendo anos difíceis. Vinha beirando o rebaixamento no Brasileirão há alguns anos. Combinou com um elenco de baixa qualidade naquele ano. Ficou muito duro trabalhar”, respondeu.

Gallo seguiu no Santos para 2024 e comandou a reformulação do elenco no ano de reconstrução, que, posteriormente, seria positiva. Com o título da segunda divisão, o Alvinegro Praiano confirmou o retorno à Série A, na esperança de viver dias melhores.

“A reformulação foi na base de muito conhecimento. Trouxe o Gabriel Brazão, que eu conhecia, de graça. Aderlan, Gil, Escobar, João Schmidt, todos nesses moldes. Guilherme veio em troca de uma dívida com o Grêmio. Nós batemos 345 milhões em vendas na Série B, foi o recorde. Foi um ano de 2024 extremamente favorável. Rendeu muito para a parte financeira e para a parte técnica. Lógico, tivemos dificuldades, mas o futebol é objetivo. Nós chegamos onde gostaríamos, e sem gastar”, afirmou.

q“Atingimos os nossos objetivos no Santos em 2024”

A saída veio em comum acordo, no começo de 2025. Ainda sob críticas, a diretoria do Peixe teve de tomar algumas decisões no retorno à elite nacional. Uma delas foi a saída de Alexandre Gallo, que deixou o cargo com o sentimento de dever cumprido.

“A direção vinha sendo muito cobrada pelo que vinha acontecendo. E, quando a gente trabalha em um clube como diretor, você é o escudo do presidente. Tivemos trocas de CEO e o Pedro Martins, que chegou em 2025, acabou me demitindo. Eu entendi perfeitamente. Foi uma experiência muito boa no sentido de aprendizado. Para o Santos não bastava só subir, tinha que ser com o título. Apesar do rebaixamento, devolver o Santos ao lugar que ele merecia estar foi legal”, pontuou.

@Raul Baretta/Santos FC

Experiências e desejos futuros

Gallo somou outras experiências de destaque em sua carreira. Seu último trabalho antes da seleção foi um que ele lembra com muito carinho: o Náutico em 2012. No Timbú, o treinador conquistou uma tão sonhada vaga para a Sul-Americana, devolvendo o clube a uma competição internacional após 44 anos.

“Naquele trabalho houve planejamento. Houve uma montagem de elenco antecipada, o time teve tempo. Eu apresentei um projeto interessante de logística. Os voos eram muito ruins, e o acúmulo disso prejudica os times do Norte e do Nordeste. Eu falei de gastar um pouco mais nesse quesito para termos mais tempo de descanso depois dos jogos. Ele me falou que eu tinha de abrir mão de duas viagens, e eu escolhi as duas últimas. Não sabia se ia chegar lá vivo ou morto”, disse em meio aos risos.

“Mas isso deu muito certo. Foi dessa maneira que fomos o segundo melhor mandante, mas também o segundo pior visitante da Série A. Nós não tínhamos recursos financeiros para bater de frente com os times do eixo Rio-São Paulo. E nós conseguimos (a vaga na Sul-Americana), inclusive rebaixando o Sport na última rodada, naquele tempo dos clássicos na última rodada. Você ganhar os jogos em casa faz muita diferença. Foi um trunfo nosso”, seguiu falando. 

Em 2021, Gallo enfim voltou para aquela que foi sua casa durante a infância e durante o começo da carreira: o Botafogo de Ribeirão Preto. De assíduo fã a treinador, o ribeirão-pretano se mostrou muito feliz por retornar ao Pantera naquele tempo, mas as coisas simplesmente não andaram: foram três derrotas e um empate em quatro jogos, em pouco mais de dois meses.

“Foi um sonho voltar, eu sempre quis, mas deu absolutamente tudo errado. A relação não foi boa, o elenco não conseguiu responder. Tinha uma pessoa da direção que trabalhou desde o começo para me tirar de lá. Foi uma situação bem ruim, eu lamento bastante”, respondeu.

Outra experiência marcante negativamente em sua carreira foi no lado tricolor de Recife, no Santa Cruz. Gallo chegou ao Cobra-Coral no mesmo ano e, depois de apenas 12 dias no cargo, solicitou sua saída. Sua alegação foi de que “não havia condições mínimas de trabalho”.

“Foi combinada uma situação comigo e, quando eu cheguei, eu percebi que não seria essa. Para não prolongar, não ter maiores problemas, eu pedi para sair. Para respeitar a torcida, que é fantástica, eu preferi sair. Não queria viver uma situação que não era real. Não era verdade”, afirmou.

Sua última experiência profissional até então foi no Azuriz em 2026, depois de uma temporada de diretor executivo no Botafogo da Paraíba, livrando a equipe do rebaixamento no Paranaense e seguindo no começo da Série D. Com sucesso no estadual, mas poucos resultados no Brasileirão, Gallo tomou um tempo para resolver pendências pessoais. Porém, não fechou portas para o futuro.

q“Vou deixar nas mãos de Deus. As escolhas deles sempre são perfeitas”

“Aqui nos Estados Unidos eu estou conversando com muita gente. E sigo conversando com pessoas do futebol brasileiro. Estou buscando algum espaço, eu quero voltar. O futebol é a minha vida e eu não quero me aposentar. Estou aguardando bons momentos para seguir aprendendo com o futebol. Quero continuar passando um pouco do que a gente sabe. Por esse tempo todo que a gente viu dentro da bola”, concluiu.

Notícias ogol.com.br

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