Dentre todos que tentam a sorte no futebol, poucos têm a oportunidade e a felicidade de jogar no clube do coração. Com Alexandre Gallo, eterno aluno que foi volante antes de tomar a prancheta para si, essa história aconteceu. Natural de Ribeirão Preto, Gallo deu seus primeiros chutes pelo Botafogo.
“Eu joguei 11 anos no Botafogo. Minha família inteira é botafoguense. A gente viajava para todos os lados, ia para todos os jogos. Eu fui mascotinho, entrei com o Sócrates e depois fui jogar com ele. Também cheguei a jogar com Raí, no meio. Foi fantástico. Aconteceu naturalmente”, disse o hoje técnico em entrevista exclusiva a oGol.
Uma das maiores realizações da carreira foi jogar ao lado da dupla de irmãos no Pantera. Gallo foi companheiro de Sócrates na reta final da carreira do Doutor, que retornou à Ribeirão Preto e acompanhou a formação do ídolo do São Paulo. Escolher só um é difícil.
“O Raí sofreu muito no Botafogo. Ele carregava o sentimento de que todos queriam ver o Sócrates. São jogadores de estilo diferente. O Raí tinha muita qualidade, era muito profissional, mas não tinha o talento que o Sócrates tinha. Sócrates era meu ídolo, foi uma grande pessoa. Eu entrava com ele no campo e, depois, dividi o vestiário com ele. Era um cara incrível, único. Foram duas ótimas experiências com pessoas da mesma família”, respondeu.
Maturando desde a base do clube tricolor, Gallo passou algum tempo em outros clubes antes de chegar ao Santos, em 1992. Defendeu Bragantino, Vitória, Francana e Marília, entre idas e vindas ao Botinha. Foi a segunda cidade em que, de fato, se sentiu em casa.
@Divulgação
O ponto alto de sua passagem pelo Alvinegro Praiano talvez tenha sido o ano de 1995. Já capitão e referência técnica no meio campo, Gallo sentiu o primeiro gostinho amargo de sua carreira ao bater na trave no Brasileirão, sendo vice-campeão frente ao Botafogo do Rio. Tudo isso em uma final repleta de polêmicas de interferência externa, marcada por um gol impedido do Glorioso e um tento mal anulado do Peixe.
“Faltou o que todos já sabem, a lisura na competição. É uma coisa que não dá para definir, todos perceberam que foi algo extracampo, que teve interferência. Nós sabíamos que o Santos tinha uma dificuldade com a CBF. E o Pelé que era o ‘presidente’ do Santos na época (por conta de sua influência na diretoria). Em algum momento o Santos poderia ser prejudicado e foi justamente numa final. De uma maneira que não fez sentido”, pontuou.
Um ano mais tarde, nova frustração na final do Brasileirão. Agora vestindo o verde e o vermelho da Portuguesa, Gallo fez parte da campanha que levou o clube paulistano à decisão. Dessa vez, o algoz foi o Grêmio, e o destino foi cruel: uma vitória para cada lado por 2 a 0 e sucesso ao Tricolor, que tinha melhor campanha.
“Foi muito pouco o que faltou. O Grêmio era muito forte, muito bom tecnicamente, tinha jogadores melhores, mas a Portuguesa vinha melhor fisicamente. Faltou fazer um placar maior no Morumbi, na ida. Nós jogamos muito, estávamos com um a mais. Faltou um pouco mais de tranquilidade para fazer o terceiro”, afirmou.
“Nós tomamos um gol cedo na volta. Eles tiveram muitas dificuldades no fim, não tinha mais jogo. Era só bola alçada na área. E tivemos um erro na defesa, tanto do César como do Emerson. Futebol é um esporte coletivo. É difícil mensurar quando erramos. Quando um perde, todos perdem. Quando um ganha, todos ganham. O time da Portuguesa era muito competitivo. Foi um pecado”, seguiu dizendo.
@Paulo Pinto/Portuguesa
Entre São Paulo, Rio e Minas
Ao começo de 1997, Alexandre Gallo decidiu trocar a Portuguesa pelo Guarani, aceitando aquele que poderia, facilmente, ser o contrato da sua vida. O que parecia ser o melhor contrato de sua carreira, porém, rapidamente se transformou em uma experiência amarga, marcada por salários atrasados e uma disputa judicial.
“Eu consegui fazer um contrato de três anos. E realmente foi muito bom, foi um dos melhores que fiz na minha vida. Porém, logo que eu cheguei em Campinas, teve o ‘problema das cargas’. O Guarani parou de pagar os jogadores, ficaram três meses sem pagar, e ali você já podia ir na justiça. Eu fui até impedido de entrar no Brinco de Ouro, por conta do processo. E aí apareceu o São Paulo”, respondeu.
A transferência foi, em suas próprias palavras há cerca de 30 anos, “uma passagem do inferno para o céu”. Foi um ano e meio de proveitos, parcerias e felicidade no Tricolor Paulista. Foi mais uma dos vários desejos que o ribeirão-pretano realizou em sua carreira.
“Sou extremamente grato ao São Paulo. As condições eram as melhores possíveis, era o time que todos queriam jogar. Voltei a jogar com o Raí também. E ainda perdemos um título do Rio-São Paulo que estava nas mãos, contra o Botafogo. Quando acabou o ano, eu já era um jogador mais velho, tinha 31 anos. E com aquela reformulação normal que acontece em todo time que não faz um bom Brasileiro eu saí”, pontuou.
Para 1999, Gallo chamou a atenção do Botafogo, antigo algoz de Rio-São Paulo. E foi justamente a decisão que fez o Glorioso aumentar os esforços para contar com o jogador naquele ano. Mas não durou muito a aventura do volante por General Severiano.
Alexandre era peça importante do clube carioca, mas alguns fatores extraordinários encurtaram a passagem no Rio. Em um momento conturbado na temporada, muito pela lesão de Bebeto, então referência ofensiva e goleador do clube, o Botafogo teve de caçar atacantes no mercado. Gallo, então, foi a “moeda de troca”.
“Foi algo que me pegou de surpresa. O Botafogo foi vice-campeão da Copa do Brasil naquele ano. Em um jogo contra o São Paulo no Morumbi, que eu fiz o gol da classificação, eu desci aos vestiários e o presidente me chamou. Ele explicou a situação do Bebeto e que eles queriam o Valdir Bigode, do Atlético. Ele pediu para me oferecer em troca, mas só se eu estivesse à vontade. Eu ali, de chuteira, de roupa suja, ainda no túnel, entendi que ia ajudar eles e topei”, revelou.
“Eu tenho uma carta dele até hoje me agradecendo e dizendo que as portas do Botafogo sempre estariam abertas. Não ficou nenhuma frustração. Eu fui para um lugar que fui muito feliz também. São coisas que acontecem no futebol. Mas a tentativa foi de ajudar e buscar um outro mercado para mim. E realmente deu muito certo”, adicionou.
O que começou como uma transferência inesperada terminou como mais um capítulo feliz na carreira de Gallo. Em Belo Horizonte, o volante encontrou espaço e protagonismo, mas também reencontrou uma frustração conhecida: a derrota em uma final de Campeonato Brasileiro.
“Essa foi realmente frustrante. Nós não éramos os protagonistas, mas nós encaixamos durante o campeonato. Tínhamos um elenco reduzido em termos de qualidade. E aí perdemos o Marques, que era o grande jogador do nosso time, no primeiro jogo da final. Não tínhamos peça de reposição. Complicou bastante a nossa situação”, falou.
“O time do Corinthians era melhor. Tinha Vampeta, Ricardinho, Luizão. E a nossa equipe fez frente a eles no campeonato. Ganhamos de 4 a 0 deles no Maracanã, na primeira fase, mas na final não deu. No primeiro por 3 a 2, perdemos o segundo por 2 a 0 e empatamos em 0 a 0 no terceiro”, ampliou.
As lições e memórias da carreira
Em 2001, após dois anos em Belo Horizonte, Alexandre Gallo chegou no Corinthians, aquele que seria seu último clube como jogador profissional. Já perto dos 35 anos, o volante tomou uma decisão “de momento”, a de colocar o ponto final em 15 anos de carreira. Mas não para se afastar da bola, e sim para realizar outro sonho.
“Nem sempre você acerta nas escolhas, e você só vê isso anos depois. Eu estava apto a seguir jogando, mas também tinha outra vertente. Eu vinha me preparando para ser treinador, para ser auxiliar. Eu queria muito, desde o começo da minha carreira. Mas eu não queria atropelar as coisas. Recebi convites do Athletico e do Corinthians em 2001 e acabei não indo. Eu lamento muito”, pontuou.
“Tinha essa vontade desde a base no Botafogo. Fui capitão em todos os times que passei. E eu fui aprendendo com caras incríveis que joguei e com treinadores. Eu prestava muita atenção em tudo e me senti preparado desde o começo. Era uma coisa que eu gostava bastante”, seguiu dizendo.
Ao relembrar os embates da carreira, Gallo trouxe uma pesada lista de adversários. Como volante, sua função era marcar o meia armador da equipe adversária. E pode-se dizer que facilidade na função nunca foi algo que Alexandre teve em todos os anos.
“Enfrentei tantos caras. Você não sabe o que era enfrentar o São Paulo de 92 e 93, o Palmeiras de 93 e 96. Joguei contra todos os grandes do futebol brasileiro. Era pegar o Neto no Guarani, o Raí no São Paulo, o Zinho no Flamengo, o Edilson no Palmeiras. Todos esses são protagonistas para serem titulares na seleção”, afirmou.
O mais difícil de todos, porém, não foi nenhum desses. O ex-volante não titubeia quando o assunto é escolher aquele que lhe rendeu mais dores de cabeça. Em sua visão, Dener foi o melhor adversário em 15 anos de carreira futebolística.
“Era uma coisa fora de série. Era um misto de Edilson com Neymar. Velocidade, condução de bola, qualidade técnica. Marquei tantos meias que foram craques. Marquei campeões do mundo. O Dener era um camisa 10 muito agressivo. Jogava como um ponta de lança, entrava na área, não tinha medo”, falou.
Olhando para trás e relembrando a carreira, Gallo sente falta de ter vestido a Amarelinha. Essa é uma marca que o ex-volante infelizmente não pode ostentar, mas não que isso apague as grandes vitórias que somou nestes 15 anos dentro das quatro linhas e dos vestiários.
“É o grande sonho de todo atleta desde quando ele começa. Eu fui convocado para a seleção paulista umas duas vezes. Joguei alguns jogos da Unicef, de seleção das Américas contra a Europa. Eu sinto que vestir a camisa da seleção na minha época era importante. Nos anos 90 tinham ótimos jogadores. Por tudo o que eu fiz, acho que esse reconhecimento faria bem”, falou.
O eterno aprendiz entende que tudo na vida é um ensinamento. E, 25 anos depois de pendurar as chuteiras, vê a própria carreira como uma lição para tantos outros garotos que sonham jogar futebol. Mas, ao olhar para a formação de atletas, algo que fez e faz muito enquanto treinador, vê alguns pontos de melhoria.
“Você pega os jogadores dos anos 90, eles são muito melhores tecnicamente que os jogadores de hoje. Você forma o jogador hoje para formar numa plataforma tática e você não forma jogadores técnicos. Você fugiu um pouquinho do histórico do futebol brasileiro, você migrou muito para o estilo do jogo europeu, porque você quer vender o jogador para o europeu. Eu acho que vai atrapalhar muito o futebol brasileiro nas próximas décadas”, finalizou.
Entre os sonhos realizados, as finais perdidas e as escolhas que faria de maneira diferente, Gallo carrega consigo as lições de uma carreira que começou ainda na infância, no Botafogo de Ribeirão Preto. O garoto que um dia entrou em campo de mãos dadas com Sócrates cresceu, dividiu o vestiário com o ídolo e, anos depois, passou a ensinar aquilo que aprendeu dentro das quatro linhas. Clique aqui para ler sobre essa história de Gallo.














