Ultrapassar temporariamente o limite de 1,5 °C de aquecimento global pode provocar perdas irreversíveis de gelo e acelerar a elevação do nível dos oceanos, mesmo que as temperaturas voltem a cair posteriormente. O alerta está em novo relatório elaborado pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), em coordenação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta segunda-feira (2).
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Intitulado Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown (Ultrapassagem e criosfera: evitando o colapso global, em tradução livre), o documento reúne contribuições de mais de 80 cientistas especializados nas regiões polares e montanhosas.
O estudo analisa os riscos do chamado overshoot, termo utilizado para descrever cenário em que a temperatura média global ultrapassa o limite de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris e, posteriormente, retorna a níveis inferiores.
Segundo os pesquisadores, a duração e a intensidade desse período são determinantes para o tamanho dos danos. Mesmo que o planeta consiga voltar a temperaturas mais baixas, algumas consequências sobre geleiras, mantos de gelo, solos congelados e oceanos polares podem persistir por séculos ou até milênios.
Derretimento do gelo pode elevar o nível dos oceanos por séculos
- Um dos principais riscos identificados pelos cientistas envolve as grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida. As duas regiões já apresentam perdas aceleradas, com taxa de derretimento aproximadamente seis vezes maior do que a registrada na década de 1990;
- O fenômeno tem consequências diretas sobre o nível dos oceanos. À medida que grandes volumes de gelo continental derretem e chegam ao mar, o nível das águas aumenta, ampliando os riscos para comunidades e cidades costeiras;
- O relatório alerta que parte dessa elevação já está comprometida em razão da instabilidade e do recuo prolongado das camadas polares. Ao longo dos próximos séculos, o processo pode resultar em vários metros de aumento no nível do mar;
- A velocidade desse avanço também preocupa. Em determinados cenários, a elevação pode alcançar vários centímetros por ano, dificultando a adaptação de regiões costeiras e aumentando a frequência de inundações;
- Os pesquisadores ressaltam que retornar a temperaturas inferiores a 1,5 °C ajudaria a desacelerar o processo, mas não seria suficiente para recuperar automaticamente todo o gelo perdido.
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Outro ponto destacado pelo estudo é que o limite de 1,5 °C não representa necessariamente uma condição segura para todas as regiões congeladas do planeta. Segundo os cientistas, um nível de aquecimento mais próximo de 1 °C, ou até inferior, seria mais adequado para preservar as grandes camadas de gelo ao longo dos próximos séculos.
A diferença é importante porque alguns processos de derretimento apresentam respostas muito lentas às mudanças de temperatura. Mesmo depois de uma redução do aquecimento global, geleiras e mantos de gelo podem continuar perdendo massa devido às alterações acumuladas anteriormente.

O problema não se restringe às regiões cobertas por gelo. O aquecimento e a acidificação dos oceanos polares também podem provocar mudanças duradouras nos ecossistemas marinhos e nas grandes correntes oceânicas que ajudam a regular o clima mundial.
Além disso, o descongelamento do permafrost — camada de solo que permanece congelada por longos períodos — pode liberar gases de efeito estufa armazenados no terreno, intensificando o próprio aquecimento global.
Brasil também pode sentir os efeitos da elevação do nível do mar
Embora as maiores perdas de gelo estejam concentradas nas regiões polares, os efeitos podem alcançar países distantes, incluindo o Brasil. A elevação do nível dos oceanos aumenta a exposição de cidades costeiras a inundações, erosão de praias e danos à infraestrutura. Também favorece a entrada de água salgada em aquíferos e áreas agrícolas próximas ao litoral.
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O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, apresentado pelo governo brasileiro à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, já identifica a elevação do nível do mar como fator de risco para a zona costeira brasileira.
Nesse cenário, comunidades que vivem em áreas baixas podem enfrentar dificuldades crescentes para proteger moradias, atividades econômicas e fontes de abastecimento de água.
Cientistas defendem cortes rápidos nas emissões
Diante dos riscos, os autores defendem redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa para limitar tanto a intensidade quanto a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C.
A recomendação é reduzir as emissões em pelo menos 5% ao ano, a partir de agora, e alcançar emissões líquidas zero até meados do século.
O relatório também destaca a necessidade de abandonar progressivamente os combustíveis fósseis e ampliar o uso de fontes renováveis de energia.
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Embora algumas perdas já sejam inevitáveis, os cientistas afirmam que ainda é possível evitar os piores cenários. Uma redução mais rápida do aquecimento poderia desacelerar o derretimento das geleiras, limitar o descongelamento do permafrost e, em determinadas condições, permitir a recuperação parcial de áreas de gelo e neve.
A mensagem central do documento é que cada fração de grau adicional importa. Mesmo que a humanidade consiga reduzir as temperaturas depois de ultrapassar o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, nem todos os danos provocados durante esse período poderão ser desfeitos.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.













