Lançamento da Artemis 2 provocou interferência em sinais de GPS

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O lançamento da missão Artemis 2, da NASA, provocou alterações gigantescas na ionosfera terrestre, camada eletricamente carregada da atmosfera. O fenômeno foi tão intenso que chegou a interferir na precisão de sistemas de GPS, segundo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Nacional Cheng Kung (Taiwan).

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Publicado nesta quarta (4), o levantamento identificou duas grandes regiões de perturbação atmosférica provocadas pela passagem do foguete Space Launch System (SLS). As estruturas se estenderam por aproximadamente cinco mil quilômetros, atravessando o continente americano de leste a oeste.

Os pesquisadores analisaram dados de redes de receptores GPS terrestres de alta precisão, utilizadas por instituições científicas dos Estados Unidos para acompanhar movimentos das placas tectônicas e investigar fenômenos relacionados a terremotos.

A partir do tempo que os sinais de satélite levam para chegar às estações, os cientistas conseguiram identificar alterações na concentração de elétrons da ionosfera durante a passagem do foguete.

O resultado chamou a atenção: as perturbações provocadas pela Artemis 2 foram mais intensas do que as observadas em outros lançamentos de foguetes até então. Segundo o estudo, chegaram a ser até dez vezes mais fortes do que aquelas registradas após voos de teste da Starship, da SpaceX.

Como o foguete abriu ‘buracos’ na atmosfera?

  • A ionosfera é uma região da atmosfera terrestre que começa a aproximadamente 50 quilômetros de altitude e se estende por centenas de quilômetros. Ela recebe esse nome porque contém partículas eletricamente carregadas, incluindo elétrons livres e íons;
  • Essas partículas influenciam a propagação de sinais de rádio que atravessam a região, incluindo aqueles utilizados pelos sistemas de navegação por satélite;
  • Quando um foguete atravessa a atmosfera em velocidades supersônicas, produz ondas de choque que podem provocar alterações na distribuição dessas partículas. O resultado é uma espécie de buraco temporário na ionosfera, caracterizado pela redução da concentração de elétrons em determinadas regiões;
  • No caso da Artemis 2, os pesquisadores identificaram duas dessas estruturas. A primeira foi provocada pela passagem do estágio central do SLS, com aproximadamente 65 metros de comprimento;
  • A segunda surgiu após duas ignições dos motores do estágio superior do foguete, responsáveis por impulsionar a cápsula Orion para fora da gravidade terrestre em direção à Lua;
  • Essas queimas ocorreram a aproximadamente 185 quilômetros de altitude, mais de uma hora depois da decolagem. Apesar da potência do estágio central, foram justamente as manobras do estágio superior que provocaram as perturbações mais expressivas.
GPS
Fenômeno foi tão intenso que chegou a interferir na precisão de sistemas de GPS, segundo estudo – Imagem: Thx4Stock/iStocks

Alterações podem afetar carros autônomos e drones

As mudanças na ionosfera não ficaram restritas a observações científicas. Os pesquisadores identificaram alterações na densidade de elétrons que poderiam resultar em erros de posicionamento de vários metros nos sistemas GPS.

Isso acontece porque os receptores precisam calcular a distância até diferentes satélites para determinar sua localização. Quando os sinais atravessam uma região da ionosfera com concentração alterada de elétrons, podem sofrer mudanças no tempo de propagação, comprometendo a precisão das medições.

Charles Lin, professor de ciências da Terra da Universidade Nacional Cheng Kung e um dos autores do estudo, alertou que erros de apenas alguns metros podem representar riscos para tecnologias que dependem de posicionamento preciso. “Um erro de posicionamento de alguns metros é suficiente para fazer um carro autônomo mudar de faixa”, explicou o pesquisador à Space.com.

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Segundo Lin, os efeitos também podem atingir a localização de drones e outras tecnologias de navegação automatizada.

O cientista acrescentou que, embora lançamentos de foguetes já sejam conhecidos por provocar esse tipo de perturbação, os efeitos das manobras orbitais realizadas durante uma missão interplanetária ainda não haviam sido observados dessa maneira.

Com o aumento das viagens espaciais em direção à Lua e a Marte, os pesquisadores esperam que esses fenômenos se tornem cada vez mais relevantes para o monitoramento da chamada meteorologia espacial.

O estudo foi disponibilizado como pré-publicação na revista científica Geophysical Research Letters.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Olhar Digital

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