Em 2011, a ONU instituiu o dia 30 de julho como o Dia Internacional da Amizade, uma data que celebra a importância da amizade como ferramenta para promover a paz e a solidariedade entre os povos. Mas uma boa amizade pode proporcionar muito mais do que as férias dos sonhos na Suíça ou o financiamento para uma comédia de ficção.
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Ela também tem o poder de transformar o conhecimento humano. A história está repleta de descobertas que talvez nunca tivessem acontecido se dependessem apenas da genialidade de uma única pessoa. Entre elas está a história de uma amizade iniciada há mais de três séculos e que mudaria para sempre os rumos da ciência.
Era agosto de 1684 e alguns dos maiores estudiosos da época buscavam compreender as forças que moviam o Universo. Para tentar resolver essa questão, um respeitado astrônomo viajou de Londres até Cambridge, e bateu na porta de uma casa onde vivia um professor conhecido por seu enorme talento, mas também por sua personalidade reservada. Assim que foi recebido, fez uma única pergunta:
— Se os planetas são atraídos pelo Sol por uma força que diminui com o quadrado da distância, qual trajetória eles deveriam descrever ao seu redor?
Ao ouvir a pergunta, o professor respondeu com absoluta tranquilidade:
— Uma elipse.
O visitante ficou surpreso. Como podia ter tanta certeza?
— Porque eu já calculei isso antes.
Como qualquer cientista, quis ver os cálculos. O anfitrião procurou entre seus papéis, mas não conseguiu encontrá-los. Prometeu então refazer a demonstração e enviá-la posteriormente.
Naquele instante, talvez nenhum dos dois imaginasse que aquela conversa mudaria a história da ciência. Naquele instante começava uma amizade que revolucionaria nossa compreensão do Universo. Nessa história, o professor era Isaac Newton e o visitante astrônomo, Edmond Halley.

Alguns meses depois da visita, Newton, o professor, enviou a Halley um pequeno manuscrito conhecido como De Motu, “Sobre o Movimento dos Corpos”. Halley percebeu imediatamente que aquele trabalho continha algo extraordinário. Aquelas ideias precisavam sair daquela casa em Cambridge e ganhar o mundo.
Só que aí havia um problema: Newton havia se afastado da Royal Society 10 anos antes após um embate com Robert Hooke – que criticou duramente seu trabalho sobre a natureza da luz. Dizia que preferia se afastar da ciência para não se envolver novamente em polêmicas. Por isso, Halley precisou incentivar seu amigo a expandir suas ideias e convencê-lo da importância de publicá-las.
Mais do que isso, Halley acompanhou todo o desenvolvimento da obra, revisou o texto, intermediou sua apresentação à Royal Society e aí… mais um problema surgiu. Ou melhor, ressurgiu: Robert Hooke, agora na condição de secretário da Royal Society, acusou Newton de plagiar suas ideias sobre gravitação, e isso o deixou furioso.
Por sinal, poderia dedicar uma coluna inteira a essa treta entre Newton e Hooke. É uma boa pedida para quando a ONU estabelecer o “Dia Internacional da Discórdia”.
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Mas o fato é que por muito pouco Newton não desistiu de publicar a parte do livro que falava da gravitação, justamente a mais importante da sua obra. Halley precisou intermediar o conflito e, com muito tato, convencer Newton a seguir com a publicação.
Mas havia outro obstáculo. A Royal Society estava sem recursos financeiros. Boa parte de seu orçamento havia sido consumida pela publicação de um luxuoso tratado sobre peixes. Halley, então, tomou uma decisão extraordinária: pagaria do próprio bolso toda a impressão da obra de Newton, aquela que se tornaria uma das mais importantes da história da ciência: Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, ou simplesmente, Principia.

Foi nessa obra que Isaac Newton apresentou, de forma unificada, as três leis do movimento e a Lei da Gravitação Universal. Pela primeira vez, tornou-se possível compreender que a mesma força responsável pela queda de uma maçã também mantém a Lua em órbita da Terra, e os planetas ao redor do Sol. O Universo passava a ser descrito por um mesmo conjunto de leis físicas.
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O impacto dessa ideia foi gigantesco. Durante mais de dois séculos, as leis de Newton tornaram-se a base da física e da astronomia. Elas permitiram prever eclipses, calcular órbitas planetárias e compreender o movimento dos corpos menores do Sistema Solar. Ainda hoje, quando engenheiros calculam a órbita de um satélite, a trajetória de uma sonda espacial ou o local exato onde a Starship fará um excitante pouso no Oceano Índico, a mecânica newtoniana continua sendo a ferramenta principal. A Relatividade de Einstein até refinou nossa compreensão da gravidade em situações extremas, mas, para a imensa maioria das aplicações, Newton continua funcionando de forma extraordinária.
E a amizade com Newton também rendeu bons frutos para Halley. Ele foi o primeiro a utilizar as leis descritas no Principia para prever um eclipse solar em 1715, traçando o mapa da sombra gerada pela Lua com incrível precisão. Ele também usou a mecânica newtoniana para calcular a órbita de cometas, concluindo que eles também estavam em órbita do Sol.
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Inclusive, vem daí sua contribuição mais famosa: analisando registros históricos de grandes cometas observados ao longo dos séculos, ele concluiu que vários deles eram, na verdade, o mesmo objeto retornando periodicamente ao Sistema Solar interior. Calculou que ele voltaria no ano de 1758 e a região do céu onde ele estaria visível. Edmond Halley não viveu para ver sua previsão se confirmar, mas quando ressurgiu no céu, na mesma época que ele havia previsto, o cometa recebeu o nome de Halley, em homenagem ao astrônomo que compreendeu a natureza desses corpos celestes, graças às bases matemáticas estabelecidas por Newton.
Mais do que um grande cientista, Halley foi também alguém capaz de reconhecer o valor das ideias de outra pessoa. Newton já havia formulado boa parte de suas teorias anos antes, mas mantinha muitas delas registradas apenas em seus cadernos e alguns papéis perdidos. As experiências desagradáveis do passado o tornaram cada vez mais reservado. Não fosse o entusiasmo, a persistência e o apoio de Halley, certamente o Principia demoraria muitos anos mais para existir, ou talvez jamais fosse publicado por Newton.
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Isaac Newton e Edmond Halley não nos deixaram apenas um legado científico. Mas também uma lição sobre a própria construção da ciência. Costumamos imaginar grandes descobertas como obras de gênios solitários, trabalhando isolados do mundo. Mas a realidade quase nunca é assim. Ideias precisam ser discutidas, questionadas, incentivadas e, muitas vezes, alguém precisa acreditar nelas antes que o restante da humanidade perceba sua importância. A amizade entre Newton e Halley nos lembra que o conhecimento avança graças à inteligência, mas também à confiança, à colaboração e à coragem de bater na porta certa e fazer a pergunta certa.
Marcelo Zurita
Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil











